Geração… Que geração?

ônibus

Hoje enquanto andava no ônibus, eu lembrei de você. Lembrei daquela figura esguia que você costumava ser, com suas calças de franjas – bem cowboy, apesar de vivermos todos no calor de 40º do Rio de Janeiro – e com seu cabelo longo. As vezes as pessoas na rua achavam que você era uma mulher, por conta do cabelo e da forma do corpo, baixo e magro demais. Ficava irritadíssimo, pelo que me lembro bem, quando faziam isso. Com motivo, não estou dizendo o contrário! Eu lembrei de todos aqueles giros que nós dávamos pela cidade com a nossa turma de amigos, todos super legais e gente boa. Gente boníssima, como meus pais (não) diziam. Nossa turma de malucos beleza e de crianças da revolução. De uma geração abandonada que lutava para ter uma vida melhor e sumia nas ruas.

Nós parecíamos ser influenciados por absolutamente tudo, enquanto tínhamos aquela impressão de que não havia nada que nos pudesse impedir. Como se nada nos pudesse parar! Nós fomos o começo daquela geração de crianças sem limites, da geração de crianças que eram criadas pelos pais como uma forma de escape. Nós, aquela geração do rock ‘n’ roll, da rebeldia, do futuro. Sempre a geração de um futuro que nunca chegou para alguns e que, para outros, acabou chegando de surpresa. Ouvi, outro dia, Marquinhos comentando sobre como tinha entrado na frente de um espelho e notado, como se fosse uma surpresa, que havia cabelos brancos sobre a sua cabeça. A verdade é que ele já tem uma careca na parte de trás, mas ninguém teve coragem de comentar tal fato. O futuro chegou em todos nós – os sobreviventes do momento – como uma bala que acertava por trás, entrando nas veias e abrindo buracos.

Só que nem o futuro serviu para apagar o que já tinha sido escrito.

Até hoje eu lembro da agonia que foi quando você desapareceu. Não só você, Mário Alberto de Araújo, como outros de nossos dois amigos mais próximos. Sumiram do dia para a noite, sem realmente deixar nenhum princípio de fuga ou de qualquer coisa do tipo. Ninguém nunca mais os viu. As mães, desesperadas, não sabiam o que havia acontecido de errado. Na polícia, ninguém dava nenhuma informação e muito menos de dentro do governo. Era mais fácil sair sem mãos do que com alguma informação nelas. Algum dado, alguma estatística, algo que fosse verdadeiro. Ou talvez isso seja a raiva da lembrança falando por mim. O fato é: depois de seu desaparecimento, eu me encontrei realmente perdida. Eu fechei aquilo tudo e fechei a mim mesma.

E ai hoje, tanto tempo depois, eu me peguei pensando em você, dentro de um ônibus, e em todas as coisas que você perdeu. Não viu Rock In Rio, nenhuma das edições. Não viu a decadência da música hoje em dia – e você iria reclamar muito disso. Não viu o cinema evoluindo. Não viu o começo de Star Wars, apesar de ter visto o final. Nunca vai entender o motivo pelo qual Darth Vader surgiu dentro daquela trilogia fantástica que você tanto amava. Não viu os filmes de super-heróis de hoje, enquanto era apaixonado pelos quadrinhos e via todos os filmes do Superman que apareciam nas telonas. Na verdade, você nem chegou a terminar de ver os filmes do Superman, já que sumiu antes de o quarto da série. Não chegou a ver o fim do regime militar, a queda do muro de berlim, os atentados de 2001, a guerra no Iraque, tudo isso. Plano Real, Collor, presidentes e mais presidentes que vieram e foram.

Então vem aquela sensação de nostalgia. De desmerecimento. De inconstância. Por que eu continuo aqui enquanto você merecia tanto mais?

No entanto, o ônibus continua andando e, na mesma velocidade que lembro, eu me esforço para esquecer. Fazendo uma anotação mental para não esquecer de comentar isso com a psicóloga depois.

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