A História Dos Cinza

depressão

Uma vez eu sonhei com um mundo feito de cores.

Tudo era colorido da maneira como se representava. Os sentimentos eram coloridos, as coisas eram coloridas, o tempo era colorido. Havia setas azuis translúcidas por onde o vento passava com mais força, havia raios amarelos tão claros quanto possível nos lugares onde o sol estava batendo mais forte. Quando o vento batia nas folhas das árvores, ele ficava em tons de azul e verde, ilustrando aquele contato. O chão tinha marcas de pegadas que traziam as lembranças de quem havia passado por lá, nas cores das pessoas.

As comidas seguiam essa regra também de uma maneira bastante conclusiva. Se a pessoa que a cozinhava achava que a comida tinha um gosto bom, então ela ficava com cores apetitosas. Aquelas cores de comida de fast food que fazem todo mundo ficar com água na boca. Agora, se a pessoa achava que a comida cozinhada tinha um gosto muito ruim, então ela ficava com cores que lembravam quase uma comida estragada. Ou só ficavam verdes, se o dono não gostasse de saladas.

As coisas também eram coloridas uniformemente, não havia uma confusão de estilos e de cores. Se algo era muito útil, tinha tons positivos, claros, alegres. Se algo era inútil, tinha tons negativos, escuros, tristes. E isso, claro, dependia da pessoa que os possuía. As coisas sempre são de alguém e se a pessoa a usasse demais, elas eram úteis. Se não, eram inúteis. Não havia confusão, não havia leituras inapropriadas das coisas. Facas de cozinha sempre seriam amarelas ou verdes na casa de um chefe de cozinha ou de alguém que cozinhe sempre. Patins são sempre azuis marinhos ou roxos na casa de um avô com hérnia de disco cujos netos todos cresceram.

Se as coisas não tinham donos, elas eram cinza. Entretanto, as coisas que eram de todos, coisas públicas, tinham as cores do estado. Verde forte, amarelo ovo e azul anil ilustravam os lixos das ruas, os carros do metrô, os postes de luz, as placas de indicação, os bancos de praças. Havia uma pequena situação de poluição visual, as vezes, mas tudo sempre soava tão normal que ninguém reparava nas cores mais.

Tudo poderia mudar de cor também, dependendo do seu estado. Se algo era roubado do público, passava para as cores do dono. Não que isso fosse positivo, mas era o que acontecia. Às vezes sobrava um pedacinho nas cores do estado, o que ajudava bastante na hora de identificar os ladrões. Era como se os objetos quisessem ser levados de volta pro seu lugar comum.

Com as pessoas, era a mesma coisa. Não havia mistério, era só olhar a cor das pessoas e das coisas que você poderia entendê-las. Se alguém estava (ou era) triste, ela vinha em cores tristes. Se alguém estava (ou era) feliz, ela vinha em cores felizes. Desde pele até cor dos olhos e das unhas. Roupas também, obviamente. Os objetos utilizados no corpo pegavam a cor das pessoas e ficavam com ela pelo resto do dia. Se o estado da pessoa mudava, então a cor da roupa mudava também. Ao menos grande parte da roupa mudava, as vezes sobrava um pedaço do humor antigo.

Mas as relações sociais eram muito simples! Se duas pessoas se conheciam e se gostavam, elas ficavam em tons claros de vermelho ou rosa – sempre o mesmo tom para os dois – e, assim, eles sabiam que se gostavam. Se duas pessoas que se odiavam eram forçadas a se relacionar, as duas ficavam em um tom de vermelho forte, um tom de raiva. Caso fosse uma relação unilateral, somente uma das pessoas ficava de tal jeito. Mas não havia mistério! Bastava o outro olhar para aquela pessoa que descobriria seus reais sentimentos. Não havia por que ficar escondendo o que sentia, não havia porquê ficar hesitando em contar. Estava tudo escrito em ti em todo tempo.

Entretanto, dentro desse universo, havia as pessoas cinza.

Os cinza, como são chamados, tem uma natureza completamente cinza. Eles são pessoas como todas as outras, mas cinza. Tem alegrias, tristezas, dores, felicidades, raivas, amores, inconsistências, hipocrisias, dogmatismos, sentimentos e ações. Entretanto, eles não ficam de outra cor que não seja cinza. Havia várias desculpas que as cores davam para os cinza. Eles não sabem viver, eles não conseguem sentir, eles são malditos, são esquisitos, são errados, são anormais. Pessoas fora do comum, antes das cores chegarem e dominarem tudo, de acordo com as lendas, eram sempre vistas assim, como anormais. Entretanto, ninguém via um problema em julgar os cinza assim. Afinal, se eles são tão claramente diferentes assim, por que eles não tentam? Todo mundo tem a capacidade de mudar de cor de acordo com o que eles sentem, o que faz com que esses sejam tão errados assim?

Alguns se culpam pelos cinza quando eles aparecem em suas famílias, querendo saber o que aconteceu para que os cinza fossem cinza. Será que os pais fizeram alguma coisa errada? Não conseguiram cuidar deles direito? Fizeram coisas erradas para eles? Amigos se perguntam porque os cinza não se ajudam, não deixam eles ajudarem. Afinal, quando todo mundo está tentando ajudar, eles deveriam ficar um pouco amarelos, ao menos, não? Felizes por ter pessoas que os amam tanto!

Médicos estudaram os cinza por anos e anos e publicaram vários estudos bastante explicativos sobre porquê os cinza são desse jeito. Não é que eles tivessem um problema, mas eles não se sentem bem, não se sentem adequados. O caso dos cinza foi classificado como uma doença que os aflige de maneira constante, uma doença que faz com que eles, muitas vezes, fiquem tão infelizes que acham que não conseguem sentir mais nada. Entretanto, mesmo com todos esses avanço, os cinza continuariam sem ser compreendidos por anos.

Até que a sociedade das cores avançasse para uma sociedade de compreensão.

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