Adeus, Lenin! e o Poder de uma Mentira

adeus lenin

A parte mais difícil de escrever um texto é começar um texto. As primeiras palavras que colocar no papel são sempre as que irão definir todo o rumo que a opinião de quem está lendo seguirá e isso, em parte, faz uma boa conexão com a reflexão que quero propor, bem inocentemente, sobre esse filme. Essa ideia de que a primeira impressão é a que fica, apesar dela poder ser modificada de maneira verdadeira ou por algumas mentirinhas. Não somente de primeiras impressões, mas delas no geral. Soa muito vilanesco pensar em pessoas que fazem o que querem com as impressões que passam, que conseguem forjar uma ideia sobre si mesmas para os outros enquanto passam pela vida, mas isso existe bem. O filme, entretanto, não chega a tratar exatamente sobre impressões de pessoas, mas impressões de mundo. Do fato de que como o que você vê do mundo te molda, principalmente quando você mergulha tão fundo nele a ponto dele te definir, como acontece com Christine Kerner (Katrin Sab), a mãe do personagem principal.

Bom, vamos lá! Primeiramente, é melhor falar um pouco sobre o filme. Adeus, Lenin! é um filme de 2003, feito na Alemanha e falado em alemão, que se passa durante o período da Queda do Muro de Berlim, antes e depois do evento. O filme começa contando a história do personagem principal, Alex Kerner (Daniel Brühl), e de sua família, começando desde a infância do personagem, com o desaparecimento de seu pai e o colapso nervoso de sua mãe, até os tempos dele mais adulto, quando começa a ter participação cívica em lutas contra o regime soviético que se instala depois da Segunda Guerra Mundial. É em um desses momentos que sua mãe, socialista ferrenha e amante da pátria, o vê sendo preso em uma manifestação e tem um ataque cardíaco. Desse evento, ela entra em coma e perde os oito meses seguintes onde, casualmente, seu mundo inteiro desaba sem ela nem estar vendo. O muro caí e a Alemanha oriental não é mais tão afastada do mundo ocidental, sendo incluída pouco a pouco na lógica capitalista.

Sua mãe, Christine, acorda depois de toda essa mudança e, estando com a saúde delicada, não pode sofrer choques. Como contar para ela que seu mundo inteiro mudou enquanto ela dormia sem lhe dar um choque tremendo? O dilema moral leva a Alex decidir omitir essa questão da mãe, agindo como se o muro não tivesse caído e como se tudo continuasse igual. Ele reforma todo o quarto da mãe para que ficasse exatamente igual como era antes da abertura, com os móveis velhos de sempre e a aparência antiquada que tinha. Começa a procurar embalagens de vidro das antigas marcas que sua mãe costumava comprar, agora falidas, preenchendo com os produtos novos, recém-chegados do ocidente. Convence os amigos da mãe a conversarem com ela como se nada tivesse acontecido, assim como sua namorada, sua irmã e o namorado da mesma. Alex cria uma atmosfera de passado para Christine onde o tempo não passa, tudo para preservar a sua saúde física, mentindo para ela e tendo mais dificuldades para tal à medida que o filme avança. Como toda mentira complexa, Alex começa a precisar sapatear em cima dessa própria realidade e, por exemplo, arranjar um amigo para gravar telejornais falsos de maneira a explicar um grande banner da Coca-Cola colocado na frente da janela dela.

O filme abre o pretexto para essa discussão: o quanto é aceitável mentir para uma pessoa que você ama, sendo que a vida dela pode depender disso? Pois, afinal, não há dúvida sobre o fato, o que Alex estava fazendo era mentir descaradamente e criar um mundo particular para que ela vivesse. Isso feito, claro, de maneira a adiar o choque que teria ao ser introduzida ao novo. Isso tudo fica bem claro, o filme nem tenta tratar de outra maneira, apesar de tudo que ele faz ser visto de maneira positiva. O espectador fica agoniado com a ideia de que ela vai descobrir e morrer e, ao mesmo tempo, revoltado como a irmã do personagem com o tempo que Alex está levando durante essa simulação elaborada. Afinal, ele está impondo a todos daquele círculo social uma vida atrasada, em regimes e rotinas atrasadas. Inclusive, durante o aniversário da mãe, ele contrata duas crianças para cantarem cânticos socialistas, algo que Christine organizava durante seus dias de atividade. O quanto isso é certo? Quando que Alex cruza o limite do que é aceitável? O tempo que passa depois da mãe acordar são, mais ou menos, três meses desse fingimento, à medida que é citado que se passa uma estação completa. Três meses daquela família vivendo como se não houvesse outra opção às normas de antes, utilizando as roupas de antes, mantendo os mesmos hábitos de antes.

Eu, pessoalmente, gostaria de ter visto a mãe descobrir de maneira brutal sobre todo o fingimento e brigar com o filho por conta disso, por ele ter decidido a tratar como se fosse uma inapta e até um inconveniente em sua vida. Principalmente depois que outras mentiras que dão base a essa família são contadas e colocam em cheque tudo isso – como o momento de tensão quando Christine confessa que não foi o pai deles que os abandonou, mas que foi ela quem o expulsou por omissão de suas vidas ao não responder as inúmeras cartas do mesmo. O quanto vale continuar com essas mentiras para salvar a mãe depois de descobrir que ela mentiu para ele durante a vida inteira? Será que Alex poderia se ver continuando a cuidar de uma mulher que fez isso consigo e com eles? Entretanto, ele continua e, pouco a pouco, começa a forjar a abertura da Alemanha oriental, tendo a noção de que seu tempo estava acabando para manter aquela mentira. Ficava cada vez mais difícil afastar Christine da realidade, principalmente enquanto ela ficava mais forte a ponto de sair de casa. Uma das cenas mais tensas do filme ocorre exatamente nesse ponto, quando ela levanta e sai, vendo as ruas com todos aqueles elementos do mundo ocidental – outdoors, propagandas, produtos, etc – e ainda tendo a visão do transporte de uma estátua de Lenin por um helicóptero, vendo o símbolo máximo do “estigma socializante” da Alemanha sendo retirado depois da sua abertura.

Afinal, o mundo se abre para Christine e, como dito pelo próprio Alex, ela sobrevive três dias da Alemanha aberta. Entretanto, ele termina satisfeito com tudo o que fora feito, tendo em si a ideia de que mesmo aquela não sendo a sociedade em que ele vivera, era a sociedade que a sua mãe queria ter vivido. Ela fica feliz ao ver a abertura, principalmente feita de um jeito tão solene como Alex forja no telejornal improvisado. A mentira, ao final de tudo, não salvou Christine da morte e nem lhe deu um tempo poupado produtivo, mas, ao menos, serviu para lhe dar conforto em seus dias finais, imaginando viver em um mundo onde era mais possível viver em paz mesmo em duas ideologias completamente antagonistas. Porque, afinal, se socialismo e capitalismo podem entrar em acordo para uma abertura tão bonita como ocorre nessa realidade inventada, que tipo de paz não seria possível? O final do filme é bem poético, trazendo uma reflexão final do personagem: O país que minha mãe deixou era um país no qual ela acreditava e que nós mantivemos vivo até o último segundo dela. Um país que de fato nunca existiu desta maneira. Um país que, na minha memória, estará sempre conectado à minha mãe. A mentira vale a pena, nesse caso, nem que seja somente para deixar essa chama de fé acesa nos olhos de Christine. Não para deixá-la viva de corpo, mas viva de alma.

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