Hannibal: Estética, personagens e muito texto

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É difícil para mim pensar em escrever um texto sobre Hannibal. Primeiro porque, atualmente, a série é a minha grande favorita e eu não quero que o texto soe panfletário para tentar convencer quem está lendo a assistir. Em segundo lugar porque é realmente difícil organizar uma linha de pensamento para falar sobre um seriado, onde há vários episódios, várias storylines e vários eventos acontecendo. Entretanto, como combinado, hoje é quarta-feira e é dia de fazer uma tentativa (falha) de resenha para algo dentro da mídia. Pois bem…

Hannibal é uma série inciada em 2013 da NBC (rede de televisão aberta americana – e o fato dela ser aberta vai ser importante posteriormente) que gira ao redor dos seus dois personagens principais, Will Graham (Hugh Dancy) e Hannibal Lecter (Madds Mikkelsen). Will Graham é, no começo da primeira temporada, um professor da academia de formação de agentes especiais do FBI, ensinando o estudo e a análise do perfil de criminosos. Apesar de não ser um agente do FBI, ele é colocado nessa função por ter quase um “dom” para a identificação de perfis, uma vez que tem um senso empático elaborado e é capaz de se identificar profundamente com os criminosos e entender suas motivações. Ele é o personagem que nos guia na história, enquanto nós estamos sempre no ponto de vista de Will, vendo o que acontece pelos seus olhos. O personagem, logo no primeiro episódio, é chamado por Jack Crawford (Laurence Fishburne) para ajudar a capturar um serial killer que havia sequestrado oito jovens com o mesmo perfil de aparência – mesma cor dos olhos, dos cabelos, da pele, quase a mesma altura e peso, etc.

O caso não tem nenhuma saída, os agentes do FBI se encontram presos em cenas de desaparecimentos completamente limpas e sendo cada vez mais pressionados pela opinião pública para conseguirem um resultado. É nesse contexto que Jack precisa da ajuda de Will, exatamente pelo talento incomum que ele tem para reconhecer perfis e conseguir identificá-los. E Graham, com a frase “isso pode fazer com que eu tenha que ser sociável” (“this may require me to be sociable”) concorda em auxiliar. Sendo bastante isolado, ele se identifica mais com o espectro do autismo, em particular a síndrome de Asperger, do que com narcisistas e sociopatas, como o próprio personagem fala. O grande fator caracterizante desse isolamento de Will, além da sua identificação dentro dessa categoria, é a própria empatia, um efeito que é mostrado várias vezes no primeiro episódio, com ele fechando os olhos e “entrando na mente” da pessoa que cometeu aquele crime, analisando pelas evidências do local. O fato dele ser tão empático, diversas vezes durante a série, prejudica o seu julgamento de valor e até a sua maneira de sociabilidade, principalmente enquanto o thriller psicológico que é Hannibal se desenrola. Essa solidão dele se destaca, logo no primeiro episódio, pelo fato dele ser quase um “colecionador” de cachorros, como se o personagem procurasse um conforto na companhia dos seus cachorros, já que ele não consegue se encontrar na de outros humanos.

A análise do caso continua e temos a apresentação dos outros personagens da série, como Alana Bloom (Caroline Dhavernas) e o time de especialistas em análise forense, com Jimmy Price (Scott Thompson), Brian Zeller (Aaron Abrams) e Beverly Katz (Hettienne Park). A entrada de Hannibal Lecter se dá em uma das cenas mais magistrais do primeiro episódio e uma das melhores apresentações de personagem, na minha opinião, da televisão. Os Price, Zeller e Katz estão fazendo a análise do corpo citando os ferimentos da última – e o único corpo encontrado no caso – garota sequestrada pelo criminoso em questão. Eles comentam sobre o assassino ter tirado seu fígado e colocado de volta, se perguntando do porquê que fizeram isso. Will Graham, com seu tom de voz de mistério juntamente com aquele crescimento de trilha sonora bem conhecido do estilo de thriller, fala “tinha alguma coisa errada com a carne”. A resposta: Ela tinha câncer de fígado. Então vem a conclusão do próprio Graham, de que o assassino está comendo suas vítimas. Nisso, a cena muda para um quadro todo escuro com uma música clássica tocando ao fundo. Temos a visão de um reflexo claramente de comida enquanto a câmera sobe para vermos um prato com carne, garfo e faca sendo manuseados. Então vemos pela primeira vez Hannibal Lecter, refletindo em seu jantar solitário.

É só então, já com metade do episódio passada, que começamos a conhecer o personagem que dá nome para a série. Hannibal Lecter, dentro dessa adaptação do livro Dragão Vermelho (a série se coloca como uma prequel do filme homônimo, no caso, com os acontecimentos se passando antes do mesmo), é um psicólogo renomado que tem um alto estilo e maneirismos de alta classe. O que é bem diferente das outras apresentações que tivemos de Lecter em filmes, principalmente nos quatro mais conhecidos. Em Silêncio dos Inocentes, ele está preso; em Hannibal, ele está fugindo da captura; em Dragão Vermelho, ele também está preso; e em Hannibal – A Origem do Mal, ele é um jovem adolescente muito antes de sequer se formar em uma faculdade. Na série, entretanto, ele está no alto de sua carreira e de sua vida social, tendo acesso a uma posição de prestígio a ponto dele ser indicado para Jack Crawford por Alana Bloom (professora de psiquiatria em Georgetown) para o que ele precisa: Alguém para analisar Graham e criar um perfil psiquiátrico dele, tentando descobrir se ele está apto para permanecer auxiliando o FBI em investigações ou se ele precisa ser retirado de tal serviço.

Jack coloca Hannibal para trabalhar nesse perfil de Will sem que o mesmo saiba e logo na primeira conversa dos dois ele é descoberto, com bastante rejeição de Will dessa ideia (“Please, don’t psychoanalyze me. You won’t like me when I’m psychoanalyzed.“). O episódio continua e, tendo introduzido a temática e os personagens principais, vou parar esse resumão aqui (ele já durou até demais, diga-se de passagem), e continuar com uma análise que pretendo que seja não tão grande. Desafios para a minha falta de capacidade de resumo.

Algo importante de se entender sobre Hannibal é que não é uma série como outros thrillers criminais. Há ação? Sim, claro. Bastante ação, se for olhar em um contexto completo da série. Entretanto, nem sempre essa ação acontece de forma direta, em forma de violência, e muitas vezes ela acontece em diálogo. Hannibal é um seriado muito baseado na força de seu roteiro – que é praticamente impecável em dialética, sendo capaz de introduzir os assuntos mais adversos dentro do contexto da série de uma maneira fluida e funcional para que o leitor não se perca tão facilmente – e nos diálogos que os personagens tem entre si. Principalmente por conta da temática da série não se dar dentro da investigação criminal, como os primeiros episódios até deixam a entender. Enquanto a série avança, a mudança de temática é tão fluida, como já dito antes, por característica do roteiro, que o espectador quase não nota que os casos criminais começam a ter cada vez menos importância enquanto a relação médico / paciente entre Lecter e Graham cresce na tela. É um thriller psicológico, afinal, que se baseia fortemente em psicologia (e na psiquiatria apropriada por Lecter para tratar de Graham).

Outro fator de peso no seriado é o seu esquema visual. Há um apelo nessa questão fortíssimo, principalmente pela participação de Bryan Fuller na equipe criativa, algo que se repetiu em outros trabalhos dele como Pushing Daisies e Death Like Me. Entretanto, em Hannibal, esse apelo visual acontece de tal forma que é uma parte integrante da série, como se fosse quase um personagem. A presença dele é notada em todos os momentos, como se aquela própria visibilidade da trama, a forma de ver a trama, com as cores escuras e fortes, com o brilho escurecido, com o acentuamento de azul e amarelo e, por vezes, do vermelho sangue, fossem parte integrante da história. Isso se mostra principalmente no “food porn” que acontece o tempo todo. As cenas mais extravagantes de Hannibal se encontram exatamente quando ele (as vezes com outros personagens) está comendo à sua mesa de jantar. Os pratos são sempre incríveis, com aparências gourmets, receitas e formatos completamente inusitados. Para deixar de maneira mais visual essa questão da comida para os bravos leitores que conseguirem chegar até aqui, coloco esse link do tumblr com os melhores gifsets que eu vi no site dessa questão. Bravos guerreiros, vamos continuar que estou perto de terminar o monólogo.

Outro grande momento em que a estética do visual da série brilha bastante são nas cenas de crime. Hannibal se apropria de ter um espectro de violência bastante gráfica, tanto que em todo episódio há um aviso na tela de “viewer discretion is advised“, para que todos tenham certeza de que não estão vendo um programa fraco visualmente. Há violência gráfica, bastante, e há bastante gore nessa violência. Entretanto, ao mesmo tempo, há essa excelência da estética que se expõe na série, o que deixa as apresentações das cenas de crime com quase uma aparência de uma obra de arte.

Não dizendo que assassinos fazem arte, longe de mim. Entretanto, a imagem que há dentro da ficção de Hannibal e da imagem da série, é tão esteticamente interessante e artisticamente bela que, bom, entra dentro dessa estética.

O último fator que eu queria mencionar sobre a série no geral é a criação magnífica que ela tem de personagens femininas, algo que eu encontro bastante dificuldade de ver tanto em filmes e em televisão, principalmente em uma história tão masculinizada quanto é essa. No livro, se não me engano, somente há uma personagem feminina de destaque, o que é um grande desfalque. Pois bem, a série faz questão de remontar isso. Eles nos dão a doutora Alana Bloom (que no livro é um homem), Beverly Katz, Freddie Lounds (Lara Jean Chorostecki, também um homem no livro), Abigail Hobbs (Kacey Rohl), a doutora Bedelia Du Maurier (Gillian Anderson), Bella Crawford (Gina Torres) e, na segunda temporada, Margot Verger (Katharine Isabelle) – que eu também acho que está dentro do livro, apesar de não ter a informação com certeza. Apesar de somente Alana Bloom aparecer em todos os episódios da série, cada uma das personagens tem uma importância tremenda para a trama e, o que é muito importante de se ver hoje em dia, personalidades e criações completamente diferentes. Não somente importante por uma questão de representação, mas porque sem a força dessas personagens, Hannibal seria uma série somente com forças masculinas, o que não é incomum de encontrar por aí. Nós já temos uma abundância de seriados e filmes onde só há personagens femininas para serem exibidas como um artefato de trama. Não precisamos de mais uma.

Alana é uma profissional formada de renome, que se esforça para ser uma voz forte dentro da história e faz questão de estar presente e de não deixar que ninguém passe por cima dela, principalmente quando se trata da relação de Jack Crawford e Will Graham, onde ela faz questão de se colocar sempre como um pilar importante. Beverly Katz é o brilho do time de cientistas forenses na primeira temporada, sempre roubando a cena dos outros dois e fazendo os melhores comentários. Além de ser uma personagem étnica, ela também se caracteriza dentro da série como judia e não há nenhuma estereotipagem dentro do fato. Ela está lá, presente, representando duas minorias (uma étnica e uma religiosa), porque isso também acontece no mundo real. Beverly é uma mulher que tem a sua própria estrada, mas sem perder o senso de humor ácido que faz as piadas de humor negro na frente dos cadáveres mais horrendos, muitas vezes deixando os outros personagens encabulados com o seu próprio ser. Freddie Lounds é uma jornalista sem escrúpulos morais que escreve para um tabloide virtual, o Tattle-Crime, que acredita piamente na liberdade de expressão e que ela tem o dever de cruzar qualquer regra que seja pela força da informação – dar aos leitores o que eles querem.

Abigail Hobbs é uma adolescente que tem a sua inocência da vida arrancada de si pela queda completa do seu mundo no primeiro episódio e a sua recuperação é completamente acompanhada dentro da primeira temporada da série, ainda com a apresentação da personagem e a criação da própria imagem dela. É uma jornada de auto-descobrimento que acompanhamos com Abigail, mas que é altamente influenciada por outros personagens presentes na sua vida, como Will, Alana, Hannibal e Freddie, já que nem toda mulher pode ser uma criatura completamente independente de influências e uma “self-made woman”.

Bedelia Du Maurier é a psicóloga de Hannibal Lecter tendo, somente nesse fato, já uma posição enorme de poder em expor o personagem. Ela é uma que tem as melhores cenas, não somente com Hannibal, mas com outros personagens e em outros momentos de interação. Bedelia tem um grande trauma na sua vida, por ela ter sido atacada por um paciente – que ela acaba por matar – e por isso ela se retira do trabalho, continuando somente com um paciente, Lecter. Esse trauma é bastante visível e lhe marca a todo momento, como uma grande cicatriz reluzente nas suas costas. Bella Crawford é a esposa de Jack Crawford e uma das grandes influências morais na vida do marido. Entretanto, ela passa muito mais do que a impressão de somente ser uma esposa, tendo uma grande voz de poder quando aparece e roubando completamente as cenas. Seja quando ela (spoilers da primeira temporada) descobre ter câncer, até quando ela está lutando pelo seu direito de fazer o que bem entende com a sua saúde ao negar a quimioterapia (fim do spoiler).

Sobre Margot, prefiro não falar nada, uma vez que eu foquei bastante esse texto na primeira temporada da série. Mas adianto que ela é uma grande voz sobre abuso físico (e até sexual) de familiares, como é a sua personagem na história original.

Um último fator importante e que merece ser acentuado sobre a série, somente para finalizar o texto, é o fato de que ela é uma série de um canal aberto de televisão americana. Entretanto, mesmo assim, a série se encontra num patamar comparável com outros grandes nomes dos canais fechados, conhecidos por terem mais liberdades ao contarem histórias desse tipo. Finalizando a análise, já que eu não posso chamar isso de resenha ou de resumo, vou ceder e fazer o grande merchandising da série… Vejam Hannibal, gente. Se vocês, batalhadores de leitura de textos imensos, gostam de thrillers inteligentes, psicológicos, que te deixam presos na tela até terminar a série, com personagens interessantes, uma estética maravilhosa e um roteiro que não deixa nada a desejar… Essa é a série que vocês precisam.

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