Patricídio

patricidio

O sol ardia na pele dela enquanto se jogava para trás na grama. Brilhava nos cabelos cor de mel que tinha herdado da mãe e, com aquela luz batendo, quase podia reparar nos olhos quase pretos. As pernas esticadas com a pele sempre branca demais fazendo um contraste com a grama verde escura e os braços cruzados na frente do corpo. Ela costumava pegar os deveres e trazer para cá, passando todo o dia jogada na grama, antigamente. Eu vinha encontrá-la para simplesmente passar algum tempo com ela. As vezes ela ia embora, as vezes ela somente me olhava com desgosto e ignorava que eu estava ali.

Talvez eu devesse me sentir culpado por estar poluindo seu lugar preferido, mas não sentia. Era o único que eu sabia que a veria todos os dias. Isso era uma das poucas coisas que me davam alguma sensação de conforto, hoje em dia. Mesmo que ela nunca falasse comigo. Somente uma vez ela falou, fez somente uma pergunta que eu não consegui responder.

– Por que você nos abandonou e fica me perseguindo agora?

Foi o que ela perguntou. O uso das palavras que ela tinha feito me quebrava. O contraste entre elas. Só que não só isso, como também o tom que tinha feito questão de usar. O tom de desprezo que colocava tão enfatizado que doía nos ouvidos. Eu somente consegui olhar para ela e tentar pensar em alguma resposta enquanto ela se levantava e ia embora para longe. De novo. Desde então eu tentava respondê-la, pensar em uma resposta para poder tentar retomá-la. Ou só para tentar fazer com que me odiasse menos. Qualquer um dos dois. Isso fazia dois anos. Fazia doze que tinha ido embora.

Ora, não me arrependia de ter deixado Lúcia, não com todos os problemas que ela tinha. Ainda mais depois de ter me escondido aquilo tudo por dez anos. Dez anos. Só que agora ela me culpava por isso. Ela, Isabela, achava que tinha cabeça para poder me julgar. Tinha oito anos na época que tomei a decisão. Não tinha como entender o problema que a mãe dela criara para si mesma e muito menos o que criava para ela. Esconder a doença ao invés de tentar se curar, ao invés de, ao menos, me contar para que eu pudesse ajudar. Como podia ser tão covarde ao ponto de desistir da própria filha, da própria família, por medo de admitir alguma coisa que iria mudar simplesmente tudo?

Só que, mesmo assim, esse não era o grande motivo. Ou talvez fosse, não sei realmente. Já se passou tempo demais para que voltasse a pensar nisso agora. O fato é: as mentiras dela me fizeram mal e eu, como uma criança, fugi da responsabilidade de tentar ajudá-la justificando isso com o fato de eu ter deixado de amá-la por conta das mentidas. Era verdade, tinha parado de amar Lúcia, mas nunca deixei de amar Isabela. Só que eu entendia porque ela não via isso. A menina tinha oito anos quando fui embora. Oito anos. Como teria visto? Como eu poderia esperar que ela entendesse quando teve que ver Lúcia definhar sozinha na sua frente.

Perder a guarda compartilhada de Isabela foi uma das maiores dores que já sofri. Ouvir Lucia ter que usar o final da sua sanidade mental, enquanto ela ainda escondia a doença do mundo, para advogar a favor de si mesma e declarar que meus valores não eram próprios para a criação de uma criança. Eu poderia ter usado o atestado de insanidade contra ela. Poderia ter contado para meu advogado sobre isso e ele, facilmente, conseguiria acesso ao que precisava. Só que não o fiz. Seria maldoso usar aquilo contra ela. Posso ter feito tudo o que fiz, mas nunca foi cruel. Isso foi sete anos atrás. Desde então eu vinha aqui atrás dela e ela me empurrava para longe.

Levantei os olhos para procurá-la ao longe, na grama. Não estava mais lá, tinha perdido-a novamente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s