Malévola e a Disney quebrando o Mito do Amor Verdadeiro (mais uma vez)

malevola

Malévola é o mais novo filme da Disney que teve a estréia nacional na última quinta-feira. Eu acabei indo assistir na própria quinta-feira, mesmo sem estar particularmente animada para o filme. Por que?, talvez você me pergunte e eu irei responder. Eu não estava animada porque eu já imaginava coisas que eu iria detestar sobre o filme, principalmente por ele ser o que é: um filme Disney sobre uma vilã. Ou seja, eles iriam fazer aquele tratamento de bondade nela, algo mais óbvio do que o fato de que ela iria ter que manter os chifres. Eu gosto de chamar isso de o Tratamento Anakin Skywalker porque, para mim, foi exatamente o que foi feito com o background do Darth Vader – pegaram um personagem puramente mal e criaram uma motivação para ele ser mal, o que faz dele um mártir. Entretanto, em Star Wars o personagem não deixa de ser a essência do mal encarnado (não até o último filme, ao menos), então em Malévola… Bom, a Malévola vira Boalévola, porque ela só faz bondades praticamente o filme inteiro – tirando o momento em que, como é sabido por todos, ela coloca uma maldição sobre a princesa Aurora.

Entretanto, não é sobre isso que eu vim falar nessa análise do filme, como o próprio título da querida já diz. E é nesse ponto que as pessoas que ainda não viram o filme devem decidir se querem ler spoilers ou não, porque para continuar a minha análise eu terei que falar sobre os acontecimentos do final deste, que são bem diferentes dos acontecimentos ao final do desenho animado de 1959. Caso vocês decidam continuar, yay! Espero que gostem! Eu tinha pensado em fazer ela na semana passada, porém tive altos problemas para escrever e focar minha criatividade naquela semana, uma vez que era a minha semana de provas na faculdade. Por isso que veio esse silêncio gelado, aliás. De qualquer maneira, agora vem a parte interessante (espero), então vamos começar!

O filme, estrelado por Angelina Jolie, faz questão de manter o que a Disney já havia utilizado antes tanto em Frozen quanto em Valente de orquestrar um filme feminista. E isso não se dá só pelos três filmes serem regidos ao redor de mulheres com personalidades únicas, com defeitos e qualidades e com aspectos narrativos completamente umas das outras e completamente diferente das outras mulheres dentro dos próprios filmes. Isso não se dá somente pelo fato das três personagens principais – Malévola, Elsa (porque, vamos lá, a Elsa é a principal, todos sabem disso) e Merida – terem vozes independentes e estarem procurando intensamente quebrar o estereótipo da dama em perigo. Merida é uma adolescente destemida que quer criar o próprio caminho no mundo ao invés de se casar e virar mais uma princesa casada. Ela é forte e rápida com seu arco e flecha e, apesar dos esforços de seus pais em doutriná-la, faz questão de manter seus cabelos selvagens soltos ao vento.

Elsa é… Uma das personagens mais fascinantes que eu já vi em desenho animado. Ela é ensinada desde criança que precisava conter não só os seus sentimentos quanto uma coisa que vem de dentro dela e que faz parte dela – seus poderes. Então ao ter um momento marcante onde ela perde o controle e todos da cidade descobrem o que ela pode fazer, ela deixa isso tudo para trás e se vê livre pela primeira vez. Elsa entende que para ser livre ela tem que ser ela mesma, sem ficar fingindo ser outra pessoa para os outros ou se escondendo por trás de portas com medo. E ela não precisa de um príncipe ou uma voz masculina dizendo isso para ela, Elsa faz o que faz por si mesma. E não só isso como ela foi uma inspiração para milhares de pessoas que tinham problemas de aceitação e precisavam de uma voz para si ao se aceitarem como seres humanos individuais que não precisam ser encaixados dentro de um padrão, qualquer que seja. Tanto de uma forma de aceitação de gênero, de sexualidade, de aparência, etc… É uma história universal e o fato desse papel tão ridiculamente importante ser prestado por uma personagem feminina que tem uma voz tão forte é algo que é tão genuíno e fala tão perto de todo esse grupo.

Nós já tínhamos visto isso em alguns outros filmes, mas não de uma maneira tão forte como é vista nesses dois filmes. Vimos isso com Mulan, quando ela decide se vestir de homem para salvar a vida do seu pai que ia ser enviado para o exército e, então, salva toda a China com sua audácia e coragem. Ela, inclusive, acaba salvando o personagem principal masculino no filme, algo bastante incomum para desenhos de princesas. Mulan cava o seu próprio caminho dentro do que era mantido como sagrado para ela dentro das normas da sociedade, pouco a pouco quebrando cada uma das que foram estipuladas para ela. Além de ser uma das únicas princesas da Disney que não é uma princesa de fato, uma vez que ela não tem nascimento nobre nem se casa com um príncipe, sim com um general. Entretanto, ela foi tão brutalmente importante que “mereceu” a entrada nesse “hall da fama”.

Em Pocahontas, temos uma personagem forte que luta pelos seus ideias mesmo quando ela precisa ir contra o seu povo para salvar o homem que ama e depois vê-lo ir embora para que ele possa sobreviver recebendo o tratamento adequado. O destino de Pocahontas é maior do que ela simplesmente ficar com o homem que ela ama e o fato dela não ficar com ele não faz com que ela se veja em desespero. Ela vai ver o navio com John Smith partir e lhe dá adeus sem derramar uma lágrima. Poderia até citar a Tiana de, A Princesa e o Sapo, aqui por conta de sua inciativa empreendedora completamente independente da vontade de qualquer um. Entretanto, o fato dela ser a única personagem negra dentro do hall das princesas da Disney e ela passar mais da metade do filme como um sapo me deixam ligeiramente com um pé atrás para uma citação a esse filme. Outras princesas poderiam ser citadas – não por seus filmes, mas por suas personalidades -, mas isso iria fazer com que o texto perdesse o seu tema, então vou tentar não divagar.

A mesma transformação da forma da personagem feminina acontece em Malévola. O que nós conhecíamos dela antes de ver esse filme, para quem só tinha visto o desenho animado, era que Malévola é uma bruxa. Não só isso como a encarnação do mal que amaldiçoa a princesinha recém-nascida somente porque não foi convidada para a festa do seu batismo. Ela é cruel, uma víbora e consegue se transformar em um dragão no melhor momento do desenho quando há aquela batalha maravilhosa entre ela e o príncipe Phillip. Isso tudo enquanto a princesa Aurora tem 18 minutos de fala no filme e passa ele inteiro dormindo, ok. Entretanto, a personagem é incrivelmente badass, no melhor senso vilanesco que pode ser dado a essa palavra.

Na nova versão da história, Malévola não é uma bruxa, mas uma fada. Ela é a fada mais forte dos bosques e a guardiã das árvores e florestas (no caso, dentro do seu reino, os Moors) que são atacados pelos humanos que querem coletar as riquezas lá dentro. No começo do filme nós temos um grande voice-over explicando toda a história da personagem – o que eu vejo como falha dentro do roteiro, diga-se de passagem – onde nós vemos como ela conheceu Stefan e se apaixonou por ele, apesar dos dois terem se separado depois que cresceram. Stefan fora levado pela ganância de querer ser rico e viver no grande castelo e Malévola o deixou ir para esse lado, se contentando com o que já tinha e em viver a vida que ela queria viver, dentro das suas terras.

Entretanto, o caminho dos dois se cruza novamente quando o rei é ferido de forma drástica e está a beira da morte. No seu leito, o Rei pede que lhe tragam a prova de que Malévola está morta, uma vez que foi ela quem o feriu de tal maneira. E quem conseguisse trazer essa prova iria ser nomeado o novo Rei depois que este morresse. Stefan, sendo bem espertinho e nojento, decide usar o fato de que já conhecia Malévola e já tinha sua afeição para conseguir se aproximar dela e matá-la em um momento em que ela baixasse a guarda. Eles se encontram, conversam por algumas horas e, afinal, ela dorme em seus braços depois dele lhe dar um sonífero. Ele hesita em matá-la por não conseguir e, ao final de tudo, decide roubar as asas da mulher ao invés de matá-la. (Golpe do boa noite Cinderela much? Um homem coloca algo na bebida de uma mulher e lhe estupra [faz sexo com ela sem sua permissão]… Um homem coloca algo na bebida de uma mulher e rouba suas asas sem sua permissão.) Ela acorda horas depois e entra em desespero ao ver que suas asas foram roubadas de si. Malévola culpa Stefan pelo fato, uma vez que ele se aproveitou dela, mas, sem saber que era para que ele fosse Rei, ela se isola de todo o resto da floresta em sua dor.

Algum tempo depois ela descobre que ele virou Rei e faz a associação básica de que ele tinha roubado suas asas para conseguir tal posto, que fora o que ele sempre quis em toda a sua vida. A ocasião onde ela descobre é exatamente coincidente com o fato de que o Rei Stefan está dando uma festa no castelo para o batismo da sua filha, Aurora. Malévola, sem ser convidada, vai ao castelo e invade a festa para deixar um presente para a menininha que, no caso, não tem nada de presente, uma vez que é uma grande maldição sobre ela. Essa, inclusive, é a única coisa que a Malévola faz de maléfico no filme inteiro, é a única coisa má que ela faz e a única coisa que a caracteriza como uma vilã nessa versão. O que, inclusive, é justificável pelo fato de que ela estava sofrendo pela perda de suas asas e fora consumida pelo ódio e o rancor e atacou o Rei da maneira mais eficaz possível. Como eu disse antes, tratamento Anakin Skywalker nesse roteiro.

Deixando a maldição em cima de Aurora e declarando que ela não poderia ser jamais retirada da princesa por ninguém, Malévola vai embora e volta para a sua floresta. Enquanto isso, as três fadas madrinhas levam Aurora para morar consigo de maneira a ela nunca encontrar uma roca de fiar para não cumprir com a profecia e cair naquele sono profundo. Mas Malévola não consegue conter a curiosidade e ficar afastada da menina, passando os anos da infância dela rondando a casa e até cuidando da princesa, uma vez que as fadas madrinhas eram completas incompetentes.

Os anos passam e Aurora vai crescendo na frente do expectador, o que cria uma espécie de conexão conosco e com o sentimento que vemos Malévola nutrir pela princesa. Ela vê aquela menininha loirinha crescer na sua frente e, ano após ano, se tornar uma garota ainda mais especial, bela e cheia de qualidades. Uma pessoa pura e boa, em todos os sentidos. Malévola se torna uma protetora da garota e quase uma mãe para ela, uma vez que Aurora não tem nenhum contato com seus pais reais. Quando a jovem atinge a adolescência, as duas se conhecem e Aurora a identifica como sua fada madrinha – diferente das três incompetentes, diga-se de passagem – e começa a passar cada vez mais tempo com Malévola, uma vez que ela adora a mulher e a outra não parece ser muito resistente a tal.

O filme foca tanto na relação entre as duas personagens que vários coadjuvantes do filme podem ser completamente esquecidos para deixar espaço para isso dentro do longa, como eu mesma esqueci de mencionar o corvo que acompanha Malévola durante todo o filme. Esses personagens secundários ficam completamente apagados dentro da interpretação magnífica de Angelina Jolie em um papel que foi praticamente escrito para ela (ou parece ter sido) e da química que ela tem com Elle Fanning dentro daquela história que representa uma verdadeira relação entre mãe e filha.

A relação entre elas duas fica tão forte e Malévola cresce um sentimento tão amoroso por Aurora que ela, inclusive, tenta tirar a maldição da loirinha enquanto esta dorme. Vendo que ela é uma pessoa feita de bem e com uma alma pura e amorosa, Malévola entende que ela não merece ser punida pelo que seu pai fez dominado pela ganância – afinal, ele não pode ser simplesmente mal, ele estava dominado por alguma coisa. Entretanto, a maldição não pode ser retirada porque ela mesma tinha dito quando fez a maldição que esta não poderia ser retirada por absolutamente ninguém.

O tempo vai passando e o aniversário de 16 anos de Aurora começa a se aproximar, sendo esse o momento em que a profecia iria se realizar. Nesse momento temos o primeiro encontro de Aurora e o príncipe Phillip, um adolescente como ela que está na floresta procurando o castelo do Rei Stefan. O garoto tem pouquíssimo tempo de tela e somente aparece para esse diálogo antes de sumir por mais algum tempo. Aurora e ele tem um click que faz com que o espectador sinta aquele cheiro do mito do amor verdadeiro que tanto vimos durante a época de ouro da Disney e, ainda por cima, no próprio filme da Bela Adormecida. O amor que somente com uma troca de olhares pode derrotar todos os males e acordar a princesa de um sono profundo.

Bom, o filme segue e Aurora volta para a casa das fadas madrinhas avisar que quer se mudar para o lugar onde Malévola vive para ir viver com ela. Entretanto, enquanto ela faz isso, as fadas acabam deixando escapar a questão da maldição e do fato de que ela é filha do Rei Stefan. Aurora corre para Malévola querendo saber se aquilo é verdade e a bruxa (não consigo chamá-la de fada, isso quebra a minha infância) não pode lhe negar a verdade, contando que foi ela quem colocou a maldição. Nisso, Aurora segue para o castelo, um dia antes do seu aniversário, antes da profecia se concretizar e vai para um lugar onde ela pode estar em perigo.

Chegando lá, o Rei a reconhece e a coloca presa em uma torre e Malévola vem a saber que Aurora seguiu para o castelo e segue correndo para lá para tentar impedir que a maldição se concretize. Entretanto, ela já está em andamento com uma cena que lembra tanto o desenho original que parece que foi construída para ser exatamente igual. Aurora, hipnotizada pela força da maldição, envolvida em uma luz verde segue pelo palácio indo em busca de uma roca. Como o Rei havia mandado que todas fossem destruídas, o próprio feitiço monta uma com partes das outras quando Aurora chega ao calabouço onde elas foram jogadas.

Por que não pensaram em só queimá-las? Não sei, mas ninguém pensou nisso em 16 anos.

Aurora, então, fura o dedo na roca e cai em um sono profundo que, no conto original, deveria durar 100 anos. Ela é levada para seus aposentos e repousada em uma cama enquanto Malévola chega ao castelo. Ao mesmo tempo, o Rei Stefan está preparando uma recepção para a bruxa, porque ele sabe que ela iria voltar a aparecer quando a maldição estivesse para se cumprir. Só não sabia que seria para salvar a princesa.

As fadas madrinhas, tentando ajudar, lembram das palavras da maldição original que dizia que um beijo de amor verdadeiro poderia tirar a princesa do seu sono profundo. Elas encontram o príncipe que, levado por Malévola até o castelo, é deixado para que as fadas o façam uso dentro da trama, já que ele não teve nenhum uso ou desenvolvimento (o que geralmente acontece com personagens femininas usadas como plot device e não deveria acontecer com personagem nenhum). O príncipe se aproxima da cama e, em um momento de suspense, beija Aurora nos lábios para que… Nada aconteça. Ela não acorda, não abre os olhos, não se move. Nada. O beijo de amor verdadeiro não salvou a princesa, afinal, porque se o príncipe não pôde dá-lo… Quem vai?!

As fadas madrinhas o expulsam do quarto e vão procurar outro príncipe porque aquele deveria ser o errado ou algo do tipo. Malévola, que estava lá dentro vendo tudo, assume a desistência, vendo que uma das melhores pessoas desse mundo iria ficar presa dentro de um sono perpétuo por sua culpa. Ela se senta ao lado de Aurora e lhe dá um beijo na testa, pedindo desculpas. Volta a olhar para a janela, ainda sentada, e quando ela olha novamente para a loira, ela está acordada e bem alegre com um grande sorriso no rosto.

O beijo de amor verdadeiro não era o beijo do príncipe, mas o beijo de um amor que tinha sido criado, introduzido, mostrado, destrinchado e sido extremamente desenvolvido dentro da trama inteira. Como aconteceu em Frozen e em Valente, o amor verdadeiro que salva a situação no final de tudo não é o amor romântico criado a partir de uma troca de olhares – ou até ligeiramente desenvolvido, no caso de Anna e Kristoff -, é o amor que cresceu na frente de todos os espectadores e que não era esperado por estes exatamente porque estamos todos doutrinados a acreditar que só existe amor entre Homem e Mulher e de uma forma romântica.

Estamos todos extremamente acostumados a ver isso em todo lugar, em todas as formas de produção visual, auditiva e de leitura. As músicas de amor são declarações de amor romântico entre casais, os filmes são entre casais se encontrando e se amando, os livros de romances são histórias de amor entre casais. Nós somos tão emplastados de romances dentro de um estereótipo já esperado que quando alguma coisa assim acontecem pessoas começam a se manifestar falando que o filme prega o lesbianismo (como se ser lésbica fosse uma religião, com esse -ismo no final, pelo amor) como aconteceu com Frozen. O amor verdadeiro vinha de duas irmãs e isso era incentivar comportamento homossexual nas crianças ao invés de, sei lá, incentivar que elas amem seus irmãos de uma forma fraterna e verdadeira.

Mas a questão bem básica da coisa é que: por que não? Por que o feitiço não poderia ser quebrado por um beijo na testa de duas personagens que demonstraram ter amor uma pela outra durante o filme inteiro? Por que precisa ser o príncipe com quem Aurora mal tinha tido nenhum contato? Como que ela poderia amar uma pessoa por só trocar olhares e ter uma conversa de cinco minutos (ou menos) com ela? Esse é um dos pontos mais importantes do filme, tanto que a minha descrição exaustiva dele vai parar nele para deixar um espaço aberto para a reflexão sobre valores, até. Já são três filmes enfatizando exatamente a mesma coisa, de que o amor verdadeiro não precisa ser um amor entre um homem e uma mulher como casais, ele pode ser o amor de uma família, o amor de irmãs e o amor de mãe e filha ou de protegida e fada madrinha. Mas ainda são tantas possibilidades para se cobrir e continuar quebrando essa questão forte dentro da sociedade, da normatização de que só existe um sentimento tão forte assim dentro de um casal heterossexual.

O que é tão extremamente errado quanto insultante a inteligência de qualquer um. Basta olhar o mundo e ver.

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