Tudo uma Questão de Fé

questão de fé

A coisa que eu sentia mais falta eram as estrelas. Eu sempre fui esse tipo de garota, que gostava de deitar embaixo das estrelas e simplesmente relaxar lá. Só que, hoje em dia, não havia mais estrelas. Não havia mais nada. Era só um escuro negro que cobria tanto dia quanto noite. As horas passavam e não fazia diferença. Os dias passavam e ninguém notava. A noite chegava, o céu se estrelava por trás da nuvem e ninguém via. Esse, quando eu sei o que está acontecendo por trás da nuvem, é um dos momentos que eu perco a minha fé e desisto um pouco. Fé em recuperação, fé em Deus, fé em heróis. Afinal, quem seria tão cruel para deixar algo desse jeito acontecer?

O apocalipse caiu em um dia normal. Minhas crianças estavam dormindo nas camas delas, prontas para terem aulas no dia seguinte. Eu estava acordada, na sala, vendo televisão. Passava um dos primeiros episódios da décima temporada de Top Chef, que sempre foi um dos meus programas preferidos. Mesmo com os horários tardios, eu fazia questão de assistir. Então a televisão morreu, ficou completamente escura do nada. Chequei os fios e peguei o telefone para ligar para a operadora. A linha estava muda. Peguei o celular, dessa vez para ligar para a polícia, mas ele também estava mudo. E nisso o baque veio. Só ouvi o som alto e abri a cortina da janela, para ver o que era. A nuvem de fumaça veio na direção do prédio no momento que abria. Desde então, ninguém nunca mais viu o céu.

Desde então, eu nunca mais vi ninguém.

As vezes eu acordo e penso que morri. As vezes eu acordo e penso ouvir o meu menino, Lucio, com dois anos, chorando no berço. As vezes eu apenas acordo e choro, enquanto tento não me perder no meio daquela tristeza que emana de todos os lugares. Meus filhos sempre foram a minha vida, a minha alegria. Então eles sumiram nos escombros. Não havia polícia, não havia bombeiros, não havia ninguém para ajudar. Também não havia choro ou gritos. Eu desejei, depois de não ter conseguido mais remover as pedras, que eles tivessem morrido rápido. Não iria aguentar se eles tivessem demorado para morrer. Se eles tivessem sofrido. Lea, com seis anos, não conseguia aguentar nem um joelho ralado sem chorar.

Esse tipo de desejo era outra coisa que me fazia acreditar que Deus estava morto. Ele não iria deixar algo assim acontecer. Não iria deixar que uma mãe tivesse que desejar a morte dos filhos simplesmente para não sofrer mais. Não iria deixar que uma mãe tivesse que escavar os escombros da sua própria casa a procura do corpo de seus filhos só porque a ganancia do homem chegou ao ponto em que não havia mais nada para se tomar que não dependesse de guerra. Guerra que trouxe destruição, que trouxe as bombas. Que acabou com o mundo.

O apocalipse foi pior do que em filmes, foi pior do que os Maias tinham previsto, em 2012, foi pior do que tudo que Hollywood já tinha esfregado na minha cara. Foi pior do que meus próprios pesadelos. Porque nos meus pesadelos, mesmo nos piores, eu tinha a chance de ao menos tentar salvar eles. Eu tinha a chance de conseguir, mesmo que eles morressem no percurso. Mesmo que eu morresse. Aqui? As bombas fizeram tudo nulo.

Então, hoje em dia, enquanto eu olho para o céu e imagino o que está acontecendo lá fora… Eu só penso em quanto tempo eu ainda vou durar. Em quanto tempo vai demorar até essa nuvem me destrua também.

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