Duas e Vinte da Manhã

nothing

Eu queria gritar.

Queria gritar todas as verdades que ele precisava ouvir, todas as verdades que eu queria dizer e, ainda por cima, as mentiras que eu sabia que iriam dar certo para lhe fazer sofrer. Tudo que eu queria era fazer ele sofrer como ele tinha me feito sofrer durante todos esses anos. Eu queria poder ter a mesma capacidade de jogar mentiras e de brincar com os sentimentos dele como ele tinha feito com os meus durante todo esse tempo.

Tantos anos acreditando, tantos anos vendo tudo aquilo como real, mesmo que não fosse presente. Tantos anos estando ao lado dele sem nem pensar em outra opção, sem nem cogitar que houvesse outra. Mesmo quando ele fazia questão de me jogar fora e deixar de lado. Mesmo quando eu tinha certeza que não havia mais nada da pessoa que eu tanto amei ali. Mesmo quando eu tinha tanta certeza que ele não me amava em nenhum sentido, que ele só fazia o que fazia por querer preservar a nossa amizade. Até por pena já cheguei a pensar.

Mas fora tudo uma mentira.

Fora tudo só um jogo, uma maneira de utilizar os outros para se sentir melhor. Qualquer coisa. Só sabia que não tinha sido real. Só sabia que tinha sido a mesma coisa para um número imenso de outras. Só sabia que nada dito para mim tinha sido realmente dito para mim. Só sabia que nada que tinha sido feito comigo tinha realmente sido feito comigo. Tinha tudo sido uma repetição do que havia acontecido antes e tudo uma repetição do que aconteceria mais vezes depois. Eu era só mais uma no caminho.

A pior parte era lembrar que isso tudo somente aconteceu por acidente. Toda essa descoberta, no caso. O fato de eu chegar a saber disso por conta de um mero detalhe do destino. Por conta de uma amizade que eu provavelmente nunca teria sem um grande acidente, sem um grande detalhe. Fora em uma conversa normal, em um dia normal. Então veio a tona, tudo. Só que foi pior do que isso. Foi ao ponto de eu ter que ouvir que ele tinha dito que nada tinha significado, que não tinha sido nada.

na·da
(latim [res] nata, coisa nascida)

pronome indefinido

1. Coisa nenhuma (ex.: estava escuro e não vi nada; nada lhe despertou a atenção).

substantivo masculino

2. O que não existe; o não ser.

3. [Por extensão]  Pouca coisa.

4. [Figurado]  Fragilidade.

advérbio

5. Expressa negação; de modo nenhum.

Mesmo eu tendo sido o que eu fui por tanto tempo, mesmo eu tenho ficado a mercê por tanto tempo. Mesmo eu tendo deixado ele se tornar uma parte de mim. E antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ele já tinha ido embora para outra e depois outra e depois outra e depois outra. E apesar de eu querer poder dizer que estava tudo bem, que eu estava feliz, que eu aceitava isso, que eu não via problema… Tinha vários problemas. Eu só não sabia. Eu não sabia de nada.

E como poderia saber? Como poderia sequer adivinhar que aquele que eu amava estava sendo tão… Imbecil em relação comigo. Que ele estava me tratando exatamente como se eu fosse isso mesmo. Nada.

Só mais uma no final.

Anúncios

Um comentário em “Duas e Vinte da Manhã

  1. Prih linda,
    independente de tudo (porque né, a vida é assim) eu só quero te contar que você ainda tem gente decente (euzinha) para contar, te amar, te dar abraços quentinhos e postar. As vezes a gente precisa de uma porrada dessas pra aprender, pra aceitar, pra deixar de se contentar com migalhas: a gente sempre busca o amor que acha que merece e certamente cê merece mais do que tudo isso.
    Só isso mesmo.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s