Good night, O Captain, My Captain

robin williams

Há uma coisa na morte que deixa um vazio estranho na gente, não é? Eu nunca senti isso. Talvez porque eu nunca tenha presenciado uma morte que me marcou muito, especialmente dentro da família. Os meus parentes mais próximos estão vivos ainda, não tive que encarar nenhuma perda recente em parte deles. Nessa segunda, houve a sensação de um vazio deixado no dia, na semana. Não exatamente nessa grandeza, já que eu não consigo me emocionar tanto com a morte de alguém que eu nem conhecia. Mas a morte do Robin Williams chocou. Muito.

Eu recebi a notícia por meio de amigos que me enviaram um link falando de um rumor da sua morte. Então fui atrás de fontes mais fortes esperando que postassem confirmação. Quando ela veio, parei tudo que estava fazendo. Não era algo que parecia real, ainda. Eu não fui uma fã do Robin Williams, não apreciava sua persona artística nem nada disso. Eu era uma criança como muitas outras que tinha visto e se apaixonado por aquela expressão risonha em filmes que marcaram as nossas cabeças durante os primeiros anos.

Ainda assim, a notícia dele ter vindo a falecer foi mais forte do que eu esperava que fosse. Ainda mais por um suicídio, algo que não tocarei de novo sobre no texto. Chorei. Passei a noite inteira sem conseguir me focar direito. Fui ao tumblr e vi a comoção que sua morte formou na minha timeline. Ela era feita, agora, somente de Robin Williams. Somente de coisas que ele tinha feito em vida, de fotos dele, de homenagens e depoimentos de pessoas muito mais tocadas pela morte do que eu. Fiquei em silêncio em conversas com os meus amigos, fiz chocolate quente, me esforcei para não me sentir mal. Talvez por uma espécie de pensamento arrogante de que pessoas que sofrem pela morte de atores são pessoas que não valorizam aqueles que estão ao redro delas. Afinal, por que sofrer a morte de alguém que você nunca conheceu?

Foi nesse momento que eu entendi que as vezes pessoas próximas de você podem ser completas desconhecidas. E pessoas que você não faz ideia de quem são podem ser incrivelmente próximas, um ombro amigo quando você precisa. Nem que seja de um estranho no metrô que te oferece um lenço (só um exemplo mesmo, nunca encontrei pessoas simpáticas no metrô) ou de um ator do outro lado da tela que te ajuda a abrir um sorriso no rosto mesmo quando se está tão triste quanto possível.

O Robin Williams fazia isso. Com suas comédias, suas expressões, seus trejeitos… Ele conseguia fazer abrir um sorriso em qualquer um que estivesse assistindo. Apesar de as vezes serem filmes “bobinhos” eram sempre divertidos, eram sempre alegres, eram sempre… Didáticos. Filmes infantis – principalmente destes que falo, aliás – geralmente tem esse tom didático, um ensinamento de valores. Jumanji, por exemplo, nos mostra como é importante termos coragem para assumir os nossos erros e terminarmos as coisas que começamos, mesmo que doa. Eles precisavam terminar o jogo, mesmo que fosse mais fácil deixar tudo como estava e só continuar vivendo. Mesmo que fosse mais fácil fingir que nada tinha acontecido – outra coisa que ele também mostra que não é.

Aliás, um dos meus filmes favoritos do ator é esse. Ele tem muitos filmes melhores, claro, como grande parte dos atores tem. Mas Jumanji desde criança foi um filme que me deixava presa na televisão, impressionada pelas coisas que aconteciam com o simples pegar de um jogo e um rolar de dados. Eu sempre fui apaixonada por jogos de tabuleiros e a ideia de que um poderia se tornar tão real daquele jeito me deixava impressionada.

Mas também há, claro, outros grandes clássicos das nossas infâncias. O que falar de Uma Babá Quase Perfeita? Um Oscar muito bem dado de melhor maquiagem foi para esse filme por conta da maquiagem feita para transformar Williams em Senhora Doubtfire, uma babá muito longe da minha amada Mary Poppins, mas que tinha tantas boas intenções quanto. Um formato de pai que falta para muitos por aí, o tipo que faz qualquer coisa para passar um tempo a mais com os filhos, apesar de tudo.

Outro filme de comédia que muitos não veem, aqui no Brasil ao menos, como parte do legado de Robin Williams é Aladdin onde o ator fez a voz do Gênio. Como vemos o filme dublado muitas vezes, então não chegamos a ver as vozes originais dos artistas, mas ele está lá. E ele foi tão importante para o filme, por conta de seus improvisos e das coisas que ele trazia de especial para a filmagem que as suas gravações como Gênio tem mais de 16 horas.

Grande parte das curiosidades sobre esse filme são particulares a Williams, inclusive. (E eu adoro curiosidades de filmes, então se preparem para ler algumas). Como muitas das falas dele que estão dentro do filme também foram improvisadas, o roteiro dele não pode ser indicado para Melhor Roteiro Original nos Oscars da época, também. Originalmente, o mercador que iria apresenta a lâmpada e conta a história no começo iria ser desmascarado como o Gênio da Lâmpada e, por isso, Robin foi chamado para fazer aquela primeira cena completamente de improviso. Vários objetos foram colocados em uma mesa e ele tinha que descrevê-los para o espectador.

Outro fato legal sobre Aladdin é a lista de personificações feitas pelo Gênio durante o longa. De acordo com o IMDb, essas são, em ordem: Arnold Schwarzenegger, Ed Sullivan,Groucho Marx, William F. Buckley, Señor Wences, Robert De Niro, Carol Channing, Arsenio Hall, Walter Brennan, Mary Hart, Ethel Merman, Rodney Dangerfield, Jack Nicholson, and Peter Lorre. Algumas imitações foram até cortadas do filme, como de John Wayne, George Bush, and Dr. Ruth Westheimer.

Quando os roteiristas criaram o texto para o filme, eles já queriam que Robin fosse o Gênio, mas ainda não tinham conseguido falar com ele sobre o assunto. Para conseguir convencê-lo, eles fizeram uma animação do personagem com o texto de diversos stand-ups do ator. Ele ficou tão impressionado com isso que assinou imediatamente.

Esses três, porém, são poucos quando se olha para a filmografia de um grande ator, algo que eu fui olhar na própria segunda-feira enquanto tentava fazer uma conta de quantas coisas que eu tinha assistido com ele. No final, tinham sido bem poucas, o que só me impressionou mais com como ele tinha chegado a me tocar. Algo tão forte que eu concordei plenamente com um dos textos que vi no tumblr que dizia que sentir a morte dele era como sentir a morte daquele tio distante que você só via nos Natais, mas que sempre fazia a festa e te dava um grande sorriso e você sentia como se ele estivesse lá o tempo todo (link).

Outro texto do tumblr que me marcou muito naquela noite, também, e que me fez pensar em escrever esse texto foi esse que diz que apesar de querermos nos sentir muito tristes pela morte de Williams, ele iria querer que ficássemos felizes. “Vá assistir uma comédia, ou a sua comédia favorita, ria porque essa é a sua chance de rir, ria por Robin”.


Um texto bem interessante que eu salvei para ler quando fosse fazer esse e que acho que podem gostar é Os Silêncios de Robin Williams, da jornalista Ana Maria Bahiana. E caso queiram ver algumas das homenagens que apareceram no tumblr para o ator, eu coloquei algumas no meu tumblr. O título dessa postagem foi inspirado por essa, também no tumblr.

Outro texto interessante, mas esse pegando a morte de Williams para falar de depressão é um da revista The New Yorker chamado Suicide, a Crime of Loneliness, somente em inglês.

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2 comentários em “Good night, O Captain, My Captain

  1. A morte de Robin Williams chocou todo mundo. Ele fez muitos filmes que acho lindos, como O Homem Bicentenário e Amor Além da Vida (eu choro igual a uma manteiga derretida nesses filmes), além de Sociedade dos Poetas Mortos que é um filme lindo e impecável. Era um ator e tanto, extremamente talentoso. Vai deixar um vazio imenso!
    E eu também concordo plenamente com o texto do tumblr que você destacou, que diz que “a morte dele era como sentir a morte daquele tio distante que você só via nos Natais, mas que sempre fazia a festa e te dava um grande sorriso e você sentia como se ele estivesse lá o tempo todo”. É exatamente assim!

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    1. Pois é, Fernanda! Eu acabei não citando esses porque não queria acabar transformando o texto em uma listagem, mas estava assistindo O Homem Bicentenário hoje e, nossa, doeu bem fundo aquela última cena. Sociedade dos Poetas Mortos é um daqueles filmes inesquecíveis também, que vai continuar inspirando gerações mesmo depois da sua passagem.

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