Lucy: Um jeito legal de colocar a galera para pensar

Um dos filmes que eu mais estava esperando a estreia finalmente saiu nos cinemas e eu entrei na sessão com um pé de animação e um pé de temor. Se fosse ruim, iria ser uma expectativa de um tamanho absurda sendo quebrada logo no começo do filme. Se fosse bom, provavelmente esse iria se tornar um dos meus filmes favoritos que saiu esse ano. E, no final, foi bom. Foi absurdamente bom.

Lucy, filme escrito e dirigido por Luc Besson (que escreveu Busca Implacável, além de ter dirigido O Quinto Elemento e O Profissional), não deixa a desejar em nenhum ponto técnico. O roteiro é extremamente fechado, marcadamente te dando um começo, um meio e um fim. Ele se explica desde o primeiro momento e é incrivelmente sucinto no que precisa dizer. Tempo de filme não é gasto com repetições para explicar ao espectador desatento ou com momentos lembrando coisas que aconteceram no próprio filme. São 89 minutos, afinal, não há tempo para gastar com essas coisas.

Estrelado por Scarlett Johansson, Lucy conta a história de uma mulher que é sequestrada por um traficante de drogas e utilizada como uma mula de tráfico, com as drogas sendo colocadas dentro dela. Enquanto no processo de ir ao seu destino, Lucy acaba sendo chutes na área onde a droga está e ela vaza dentro do seu corpo, causando uma reação química que provoca seu cérebro a funcionar em uma frequência muito maior do que a normal. Essa é a trama em um meio geral do filme, mas ela avança para muito mais do que isso.

A história do longa literalmente puxa um debate sobre como as nossas percepções de realidade nos deixam tão limitados. Sobre como o fato de vermos com os olhos, ouvirmos com os ouvidos e falarmos com a boca faz com que fiquemos o tempo todo presos a isso e somente isso, sem acabarmos aproveitando toda a imensidade de oportunidades que o aparato humano nos dá. Isso, principalmente, no meio ideológico é uma grande crítica a esses pensamentos conservadores que passam tempo demais se focando em como as coisas eram no passado do que como elas podem ser, mesmo que isso muitas vezes seja uma melhoria. E isso se vê claramente em algumas quotes do filme, como as selecionadas abaixo:

100 billion neurons per human, of which only 50 percent are activated. There are more connections in the human body than there are stars in the galaxy. We possess a gigantic network of information to which we have almost no access.

Every cell knows and talks to every other cell. They exchange a thousand bits of information between themselves per second. Cells join together forming a joint web of communication, which in turn forms matter. Cells get together, take on one form, deform, reform — makes no difference, they’re all the same. Humans consider themselves unique, so they’ve rooted their whole theory of existence on their uniqueness. “One” is their unit of “measure” — but its not. All social systems we’ve put into place are a mere sketch: “one plus one equals two”, that’s all we’ve learned, but one plus one has never equaled two — there are in fact no numbers and no letters, we’ve codified our existence to bring it down to human size, to make it comprehensible, we’ve created a scale so we can forget its unfathomable scale.

Tendo o veterano Morgan Freeman como o principal cientista do filme – e a voz que nos explica a ficção, uma narração muito bem escolhida -, há a percepção desde o começo da narrativa que não estamos entrando em um terreno conhecido e passando para a ficção. Isso, na realidade, é uma fala do próprio personagem de Freeman durante a sua explicação sobre como funciona o cérebro, o único momento em que isso é explicado durante o longa (o que é longe de ser um defeito do mesmo, já que abre espaço para o espectador pensar sobre e clarear suas percepções). O debate continua com força enquanto o filme avança e Lucy conquista cada vez mais espaço dentro do seu próprio cérebro, aumentando sua frequência de conexões neurais ao limite de 100%, no final do filme.

Além do roteiro e das atuações sublimes dos dois atores citados (os que tem mais destaque, no caso), outro ponto importantíssimo para a trama é o trabalho de edição e pós-produção feito no curta. É incrível imaginar o trabalho que deve ter dado para a montagem de todo esse filme e a imaginação envolta dentro disso. Para não falar somente nos efeitos especiais incríveis utilizados durante todo o filme, vou me focar em descrever uma das cenas que eu achei mais incríveis de toda a produção. É logo no começo do longa, quando Lucy é obrigada a levar uma mala cujo conteúdo ela não conhece. A loira entra dentro de um hotel chique e a cena continua com ela falando com o recepcionista e os dominós vão caindo para que ela seja sequestrada. Nesse momento do filme há diversas “interrupções” na história principal por uma outra apresentação da mesma cena, uma outra forma de vê-la: com a filmagem de uma gazela sendo caçada por um guepardo. Fica extremamente claro na montagem dessa parte que Lucy é a gazela, que ela está caindo dentro de uma armadilha e esse ponto de suspense e tensão é criado exatamente pela alternação de cenas.

O único problema do filme é algo conhecido como White Feminsm que é algo que acontece bastante em filmes de ação centrados na figura de mulheres. São filmes que apesar de terem um teor feminista, ignoram qualquer outra questão de minorias dentro dos acontecimentos. Isso acontece bem claramente em Lucy que estrela uma personagem caucasiana que está estudando em Taiwan e que não sabe se movimentar pela cidade e não sabe falar a língua. Então vem a pergunta de qual a necessidade de ser em Taiwan? Qual a necessidade de ser uma personagem caucasiana e não asiática? Até porque essa questão dela ser estrangeira nunca entra em foco para a trama. Não vou entrar muito no assunto porque tem um texto muito legal da Rachel Gueiros do Please Disturb que vocês podem ler sobre.

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