Um Dia de Ana

um dia de ana

Ana nunca andava de saias, shorts ou vestidos em transporte público. Utilizava calças, sempre. Porém, calças bem soltas, para não deixar curvas. Blusas também bem soltas, para não deixar marcas, decote ou qualquer possibilidade de sedução. Geralmente, mesmo no calor, um grande casaco que lhe cobrisse quase toda, para que ela nem parecesse mulher, ao longe. Ela tinha medo de excitar o homem com seu ser. Então fazia o melhor possível para ficar o menos atraente possível. Escondia o corpo, deixava de usar as roupas que queria usar, deixava de sair de casa em horas inapropriadas, deixava de sair de casa como queria. Tudo para poupar o homem da tristeza de vê-la bonita e feliz e não poder fazer parte disso pelo simples fato dela não querer. Como ela não pode querer? O homem, na sua superioridade, obviamente tem a dominância e quem é essa Ana para poder lhe negar? Então, dentro desse pensamento, Ana tenta só não atrair os olhares.

Ninguém na vida de Ana tinha sido estuprada, só conviviam com os abusos normais do trem cheio. Ela tinha várias tias, mas sua mãe sempre foi uma grande influência. Sua mãe que lhe dizia que era melhor assim, que ela não podia se vestir vulgar. Não podia se dar por fácil por ai, porque isso era errado nos olhos do Senhor. Esse com S maiúsculo, sempre lembrando a todos da sua superioridade e da sua habilidade de julgar a todos pelos seus valores. Tenha os errados e vá para o inferno, Ele disse. E a mãe de Ana somente repetia o tempo todo. Não só pelos olhos do Senhor, mas pelos olhos dos senhores do dia-a-dia. Senhores com s minúsculo, dessa vez, porque, apesarem de serem onipresentes e superiores, esses senhores são somente humanos.

Não use essas calças, Ana, elas estão muito justas.

Vai sair com esse vestido, Aninha? Tem certeza? Meio curtinho, não é?

Fica colocando esses decotes, não se dá ao respeito! Ai depois é abusada na rua e fica chorando!

O pai de Ana fazia coro com a mãe todas as vezes que a filha saia de casa, o que era muito pouco. Ela só podia sair de casa quando fosse conveniente para o pai de família. Quando ele soubesse para onde ela ia, o que ela ia fazer, com quem iria estar, quando iria voltar, com quem iria voltar, o que iria acontecer. Não havia nenhuma possibilidade de espontaneidade, porque caso isso acontecesse um perigo óbvio iria pairar em cima da cabeça de Ana que faria seu pai ter que lhe tirar daquele ambiente imediatamente. Porque, afinal, se ela saísse na rua ela estaria sujeita a todo tipo de perigo possível e imaginável. Pasme: Ela poderia ir para a casa do namorado, se tivesse um. Absurdo! Um choque dentro da sociedade! Como assim, minha filha se dando tão baixo de ir para a casa do namorado?! Não, não, claro que isso não pode acontecer.

Ana ficava em casa, então, olhando pela janela a vida passar e esperando o dia em que as coisas iriam ser melhores. Só esperando.

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