Como consertar Kingsman: Serviço Secreto

Na semana passada eu estava muito animada para assistir Kingsman: Serviço Secreto no cinema. Eu tinha visto o trailer e adorado a premissa de um filme se divertindo com o gênero de espionagem. Eu gosto desse tipo de filme e, ainda mais, gosto de quando eles são divertidos. Principalmente nesses tempos atuais onde todo filme de ação tem que ser super sério, terrível e assustador, com tons escuros e uma palheta de cores metálica. Eu chamo isso de “dark and edgy” e apesar de ter sido interessante no começo, hoje está ficando cansativo. Sinto falta das cores, sinto falta da diversão que esses filmes costumam trazer. Kingsman ajudou muito nisso. Mas também ajudou a perpetuar os problemas que esses filmes sempre tiveram.

Entretanto, antes de entrar na discussão completa, vamos apresentar a sinopse do filme. Esse texto foi tirado do site Circuito Cinemas e é bem simples, mas como esse texto é destinado aos que já viram o filme… Bom, esses não precisam de uma sinopse. “Baseado na aclamada história em quadrinhos e dirigido por Matthew Vaughn, ‘Kingsman: Serviço Secreto‘ conta a história de uma agência de espionagem super secreta, que recruta um garoto desleixado, mas promissor para participar do treinamento competitivo da agência, ao mesmo tempo em que um gênio da tecnologia ameaça o mundo.” Ou seja, é basicamente a sinopse básica de todo filme de ação para jovens adultos que tem saído.

É um garoto pobre (e branco) que recebe uma oportunidade única de trabalhar com alguma coisa incrível, mas ele só poderá exercer esse emprego se conseguir se classificar por conta dos seus talentos adquiridos. Ele é uma pessoa especial dentro de muitos comuns, mas que não consegue se destacar por não ter o empurrão necessário. Como o filme é uma paródia desse gênero – ação para jovens adultos, filmes de espionagem, etc – a premissa aberta não é um problema. No lugar, ele tem problemas de machismo, objetificação da mulher e falta de representatividade racial.

Não me leve a mal. Eu adorei o filme. Ri quase o filme inteiro, me diverti horrores. Mas faz parte de gostar de alguma coisa você ser capaz de dizer onde ela erra para que possa melhorar. Assim como faz parte, as vezes, admitir que o que você gosta não é bom, não tem tanta qualidade quanto você acredita que tem. Dessa forma, fiz uma pequena lista de coisas que eu acredito que poderiam deixar o filme muito melhor e mais divertido para toda a audiência. Porque não adianta você fazer um filme só para homem heterossexual branco rir, né, galera?

1) Mudar o final.

O final de Kingsman foi um desapontamento. Depois de um filme muito inteligente e incrivelmente não sexualizado para o tipo de filme no qual ele se baseia, o final é medíocre. Kingsman termina com o herói do filme, Eggsy (Taron Egerton), ganhando sexo (anal) por ter sido um bom menino e salvo o mundo. Isso é feito subjetivamente, claro. Objetivamente, o que acontece é que Eggsy, ao entrar no covil do vilão Valentine, se depara com a princesa da Suécia (Hanna Alström) que tinha sido sequestrada pelo vilão ao decidir não cooperar com os seus planos malignos. Ela foi apresentada, na primeira cena dela (e única anteriormente a essa), somente por nome (que foi tão insignificante durante a cena que eu nem me lembro) e por cargo. Não houve criação de personalidade ou qualquer ideia de que tipo de pessoa que ela é. A única coisa que sabemos dela é que ela é uma pessoa justa, uma vez que ela optou por dizer não a opção fácil e ruim.

Eu não me lembro dos diálogos com precisão, mas a cena está bem viva na minha cabeça. Quando Eggsy a encontra, a princesa pergunta se ele está lá para salvá-la. Ele diz que poderia fazer isso se ela lhe desse um beijo. Ela aumenta o jogo falando que iria lhe dar outra coisa, se referindo a sexo, obviamente. O intendo sexual da cena é claro. Logo depois ele fala que antes ele tem que ir salvar o mundo e a isso ela responde que se ele salvar o mundo, ele vai ‘ganhar a porta de trás’. De verdade? O problema não é na personagem feminina oferecer sexo, o problema não é nela ser uma mulher sexualizada. Ela tem todo o direito de fazer sexo com quem quiser.

O problema é que nós não sabemos absolutamente nada sobre essa personagem. Ela foi sequestrada e mantida em cativeiro e a primeira reação dela é oferecer sexo para quem vai lhe resgatar? Ela não quer ir para casa? Descobrir o que aconteceu com o seu povo, por quem ela se sacrificou ao negar participar da efetiva de Valentine? Ela não quer saber como está a sua família? Não quer saber o que aconteceu com o mundo? Ela não quer simplesmente sair correndo daquela cela onde ela foi mantida por semanas ou até meses? Tipo… Não, né? Não dá. Com essa falta de caracterização da personagem o único pensamento que há é que ela é o “troféu”. A princesa não é uma pessoa naquela cena, ela é o prêmio que Eggsy recebe por ter feito um bom trabalho.

Isso, meus caros, é objetificação. Isso é transformar um ser humano – uma mulher – em um objeto com o único objetivo de sexualizá-lo. Isso é machismo.

2) Desenvolver melhor as personagens femininas e até colocar mais personagens.

Só há três personagens femininas importantes durante o filme. Não estou contando a princesa da Suécia, já citada, uma vez que ela mal aparece. No caso, estou falando da mãe de Eggsy (cujo nome não me lembro), de Roxy e de Gazelle. A mãe de Eggsy (Samantha Womack) é apresentada como uma mulher que perdeu o marido e, com isso, toda a qualidade de vida que tinha. Quando Eggsy é crescido ela é namorada do líder de uma facção criminosa que bate nela e a maltrata, além de fazer gato e sapato do seu filho. Ela tem uma filha com ele e, aparentemente, não trabalha.

Roxy (Sophie Cookson) é uma das candidatas a se tornar um Kingsman. Ela vem de uma faculdade de elite e é aristocrata, como todos os outros selecionados. Roxy é independente e forte, ela é uma personagem bastante interessante. Apesar do filme inteiro forçar uma química entre ela e o Eggsy, esse romance nunca acontece e isso é excelente – qualquer coisa para tirar o estigma de que mulheres e homens não podem ser amigos sem que aja interesse por sexo ou romance. Ela é inteligente, sagaz e, ainda por cima, é quem vence e se torna uma Kingsman, no lugar do personagem principal. Entretanto, isso é completamente deixado de lado quando a trama pede e Eggsy assume a liderança simplesmente por ser o personagem (homem) principal. Qualquer agência com um mínimo de nome não teria mandado o garoto que nem se classificou no processo seletivo para arriscar o mundo inteiro. Mas, né.

Gazelle (Sofia Boutella) é a assistente do vilão, Valentine. Ela além de ser mulher também é uma pessoa com deficiência, não tendo a parte de baixo das duas pernas. Suas principais armas são lâminas acopladas às próteses que ela utiliza para conseguir caminhar, lutar, pular e ainda cortar pessoas em duas metades. Ela é uma arma ambulante, uma máquina de lutar e matar. E… Bom, nada mais do que isso. Nós não temos uma motivação para ela ser uma vilã, não temos uma descrição de como funciona o relacionamento dela com Valentine, não temos uma informação sobre como ela chegou aonde chegou ou que tipo de treinamento ela teve. Nada é dito sobre ela e a narrativa não se importa o suficiente com a personagem nem para lhe dar uma personalidade. Ter uma personagem feminina, com deficiência e não-caucasiana tratada dessa forma é um grande desserviço ao grupo.

O que poderia ser feito para melhorar? Dê mais espaço para as mulheres na trama! Empodere a mãe de Eggsy e faça que ela seja a responsável por se livrar do namorado abusivo. Dê a Roxy o destaque que ela merece! Ela que foi colocada como Kingsman, ela quem deveria ter sido enviada na missão de salvar o mundo, não ter sido deixada de lado como um acessório que serve para causar uma tensão na trama. Faça o público entender quais são as motivações de Gazelle para ser uma pessoa tão terrível. Além disso: Esse é o nome verdadeiro dela? Porque Gazelle, para mim, é uma referência a gazelas, o que faz bastante sentido por conta das suas próteses. Mas só é mais um desserviço a personagem – que nem nome parece ter.

3) Só há um ator não-caucasiano com importância – o vilão.

Os personagens visivelmente não-caucasianos do filme são: Valentine (Samuel L. Jackson), Gazelle (Boutella) e Jamal (Tobi Bakare). Jamal é um dos melhores amigos de Eggsy e tem o grupo surpreendente de, no máximo, 10 falas durante todo o filme. Gazelle, como já falei, não tem o mínimo desenvolvimento possível, além de ser passável por caucasiana. Nisso, sobra Valentine, o principal vilão do filme como o grande personagem não-caucasiano (afrodescendente, no caso) de toda a narrativa. Ele tem desenvolvimento mínimo de personalidade. Nós o vemos como vilão e eu, ao menos, nunca consegui realmente acreditar no motivo que ele tinha para ser um grande vilão. Entretanto, isso não vem ao caso.

O grande problema é que pessoas não-caucasianas são comumente colocadas no papel de vilão dentro de histórias como essa. É algo que acontece nos filmes do James Bond, assim como em qualquer filme de espionagem. Eu entendo perfeitamente que Kingsman é uma adaptação de todos os clichês desse estilo de filmes. Mas o que faz uma paródia desse tipo ser inteligente e bem montada é o fato de saber brincar com os clichês que ferem os outros, com as coisas que foram criticadas nos filmes. A falta de representação de não-caucasianos sempre foi um problema e é uma falha desse filme, pela premissa dele, continuar deixando esse problema tão visível assim.

EVERYBODY IS SO WHITE!!!! WHY?
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