Menor Invisível

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Um garoto estava sentado no ponto de ônibus. Ele usava a camisa do uniforme, branca e com traços azuis. O símbolo da prefeitura do Rio de Janeiro no peito. Ele tem uns shorts rasgados na barra e um tênis velho, uma mochila no ombro e um cabelo cortado bem rente. O ponto de ônibus é em São Conrado, ele está indo para a escola. São seis e meia da manhã e ele já está atrasado e impaciente. Sentado no ponto de ônibus, ele balança as pernas enquanto esperava que o seu ônibus chegue. Atrás do Fashion Mall, shopping chique demais, e do outro lado a avenida.

O ponto estava meio cheio, mas à medida que os minutos passavam e os outros entravam em ônibus que não serviam para o garoto. Moleque, ele queria o ônibus de ar condicionado que antes era cinco reais e agora é três, que nem todos os outros. Queria o ônibus chique, só de ostentação. Então ele balança as pernas sentado e espera. Mesmo estando atrasado, dava tempo. O ônibus ia passar logo. Sobrou só ele e uma outra pessoa no ponto de ônibus. E o ônibus-ostentação-ar-condicionado vem chegando bem rápido. O garoto levanta e pede para o motorista parar.

O motorista não para.

Ele volta a se sentar no ponto de ônibus, se perguntando o porquê dessa sacanagem. Do lado dele, uma moça está sentada. Ela também tem uma mochila, também usa shorts e uma blusa branca. Só que na blusa branca dela tem um símbolo em inglês e a mochila é Jansport. O sapato dela é Arezzo, o short da Zara e o celular iPhone. Ela tem cabelos longos e com luzes nas pontas, passando do marrom para o loiro. É mais velha que o garoto, deve estar no último ano da escola bilíngue. Ele acha estranho, porque na cabeça dele gente rica tem motorista.

Mas ele volta a olhar esperando o ônibus porque não tem nada a ver com isso. Já tem notícia ruim no jornal demais para ele ficar encarando moça rica em ponto de ônibus. Ficar encarando gente riquinha nunca é uma boa ideia para gente sem nome que nem esse garoto, anônimo negro estudante de escola pública. Vai saber quem é o próximo que é apreendido e culpado por morte de ciclista na Lagoa, ou assalto à celular no Leblon. Mais um menor para justificar uma ideia de justiça e vingança.

O garoto preferia focar no ônibus ostentação que ele estava esperando. Continuou balançando os pés e esperando, então, enquanto olhava para frente. Enquanto ele fazia isso, uma viatura de polícia passou na sua frente. As rodas da viatura rodaram e começaram a rodar mais devagar, até que pararam, alguns metros na frente. Então elas rodaram para o outro lado e a viatura parou na frente do ponto de ônibus. Os dois policiais desceram, um deles com uma arma grandona presa ao redor do corpo dele. Não estava portando, só carregando. O garoto não olhou para eles, mas ele já sabia o que ia rolar. O que não estava armado chegou nele, assustando a menina do lado.

– Deixa eu ver o que ‘cê tem nessa mochila, garoto.

Não era um pedido, era uma ordem. O garoto tirou a mochila do ombro e a menina levantou, o ônibus ostentação estava chegando. Ela fez sinal e mesmo com aquele auê todo acontecendo no ponto, o ônibus parou e ela entrou. Lá dentro o motorista perguntou para ela o que tinha acontecido e ela falou que os policiais tinham visto aquele pivete e ela nem tinha reparado que ele estava lá.

No ponto, o garoto só passou para o policial a mochila dele, sem marca e com um dos zíperes quebrados. Agora ele ia chegar atrasado na aula e a tia não ia deixar ele entrar. Sacanagem. O policial abriu a mochila e revirou tudo lá dentro. Estava procurando faca, tesoura, canivete, arma, droga. Qualquer coisa. O garoto nem sabia mais direito o que poderiam estar procurando. O policial colocou a mochila do garoto no banco e pediu para ele levantar. Revistou e não achou nada, estava tudo limpo. Algumas perguntas depois, os dois voltaram a entrar na viatura e foram embora.

Nisso o outro ônibus ostentação passou e o garoto fez sinal de novo. O motorista passou direto de novo. Tinha tido assalto a ônibus passando na televisão ontem. O próximo ônibus sem ostentação, sem ar condicionado, sem nada que passou o garoto pegou. Ia perder o primeiro tempo da aula, mas ao menos ia chegar. Se chegasse não tinha como sair no jornal que ele tinha abandonado a escola. A professora ia reclamar que não tinha tesoura sem ponta, ela tinha pedido na semana passada, mas sem ter tesoura não tinha como aparecer na televisão que o menor estava portando uma tesoura.

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