Como se diz adeus… Em robô?

como dizer adeus em robo

Há algum tempo eu me identifiquei como assexual, ou seja, uma pessoa que não sente atração sexual. Isso foi bastante revelador em muitos sentidos e me ajudou bastante em ser uma pessoa melhor, em me entender melhor. Mas eu decidi começar esse texto assim não para falar de mim (isso virá em outro texto, talvez). Eu queria falar de um livro que foi indicado para mim depois que eu passei a falar mais abertamente sobre ser assexual. O livro é Como Dizer Adeus em Robô, da Natalie Standiford. Ele foi indicado para mim pela Mareska, do amargareska.com.br (que antigamente era eu li, e agora?), que é a rainha dos livros young adult e de todas as coisas maravilhosas (e terríveis) do mundo.

De qualquer maneira, quando Mareska me indica pessoalmente, eu faço o que eu posso para ler. E eu nunca me arrependo porque ela tem aquele super poder de só te indicar coisas que ela sabe que você vai amar. É maravilhoso.

Como Dizer Adeus em Robô foi uma excelente surpresa dessa forma que te pega pelo cangote e te coloca para ler alguma coisa mesmo que você mal tenha o hábito de ler nesses últimos dias. O livro conta a história de Beatrice Szasbo e da sua amizade com Jonah Tate, o Garoto Fantasma. Beatrice é nova na escola depois que o seu pai decide que eles vão se mudar para ele poder ensinar na melhor faculdade de medicina do país. Beatrice é uma daquelas adolescentes que não consegue se adaptar muito bem a sociedade como um todo. Ela não é esquisita e nem é uma excluída social, mas ela é ligeiramente diferente. Beatrice não se relaciona das pessoas da maneira como as outras garotas ou as outras pessoas da sua idade se relacionam e isso é perfeitamente ok para ela.

De qualquer maneira, em uma reunião da escola onde todos os alunos tem que se sentar para ouvir o diretor, Beatrice se senta ao lado de Anne Sweeney, que é a sua primeira amiga. Do outro lado, se senta Jonah Tate. Anne conta para Beatrice sobre Jonah e como ele ficou conhecido na escola como Garoto Fantasma. Jonah, um verdadeiro excluído social, recebeu esse apelido porque ele, bom, realmente parece um fantasma. Ele vaga, não anda. Ele tem cabelos bem brancos, uma pele pálida e não parece estar vendo ninguém ao seu redor. Se não fosse pelo simples prazer de fazer bullying com o garoto chamá-lo de Garoto Fantasma poderia ser uma descrição ótima para o personagem.

A história continua e Jonah e Beatrice acabam ficando amigos depois que ela começa a escutar um programa de rádio – Night Light Show – indicado por ele. Lá, durante a madrugada, ele é mesmo o Garoto Fantasma – sem piadas dos seus colegas – e ele pode conversar com outros insones da cidade de Baltimore. Inclusive com a Garota Robô, Beatrice, que começa a ligar para o programa e também participar das conversas.

A assexualidade, no livro, nunca foi citada e não é um ponto forte. Mas como uma assexual que está sempre procurando evidências nos produtos de mídia que algum personagem possa me representar, eu me senti muito presente nessa história tanto em Beatrice quanto em Jonah. Nenhum dos dois personagens aparenta sentir atração sexual durante a narrativa. Beatrice as vezes se refere a personagens como bonitos, mas ela não tem interesse nenhum em entrar em uma relação sexual com eles ou parece sentir esse tipo de atração. Jonah então… É ainda mais claro na situação dele que ele não se enquadra nessa definição – do allosexual, da pessoa que sente atração sexual – enquanto ele não se enquadra em muitas definições que não normatizadas pela nossa sociedade onde o sexo é a grande regra de normal.

De certa forma, eu me senti muito mais próxima de Beatrice por ela ser um extremo menor do que de Jonah. Se tivesse que colocar alguns rótulos neles, colocaria Beatrice como assexual heteromântica e Jonah como assexual arromântico ou demiromântico.

Eu não sou muito boa para explicar tramas de livros em geral, especialmente quando eles mexem bastante com os meus sentimentos (e esse mexeu muito, ok), mas a trama começa assim. Enquanto Beatrice e Jonah vão ficando amigos, eles começam a virar o suporte emocional um do outro para as coisas difíceis que tem que lidar com, principalmente Jonah. Ele tem uma trama familiar bastante complicada, com uma história que eu não pretendo contar nessa resenha (isso é uma resenha?). Beatrice também tem que lidar com alguns vários problemas na sua família, com a sua mãe que desde o começo do livro me dá muitos sentimentos.

A mãe de Beatrice é quem lhe dá o apelido de Garota Robô. Beatrice é uma garota que demonstra sentimentos de uma forma diferente e eu me relacionei muito (MUITO) com isso. É mais do que eu achar que ela é assexual – outra coisa que eu também me relaciono com, como já falei no começo desse post -, mas uma forma de ver o mundo que ela tem que me deu calafrios, porque parecia que eu estava escrevendo aquele livro. Beatrice não entende todos os dramas das pessoas, ela não entende toda a atenção que seus companheiros de escola dão para coisas triviais, ela não entende toda a exaltação da vida escolar e das relações interpessoais de adolescentes, especialmente românticas. Ela é uma personagem que muitas vezes parece ser apática, inclusive para a própria mãe, mas que na verdade só tem uma visão diferente da realidade.

Uma concepção incorreta das pessoas (mais velhas) é que adolescentes não tem nenhum tipo de problema nas suas vidas. De que como eles são só adolescentes e não tem que lidar com contas (muitos tem, mas não é o nosso caso) ou com responsabilidades de ser adultos, então não há problemas. Mas a realidade é que a adolescência é uma época muito complicada para qualquer um que não se adapte 100% ao que a sociedade quer. E qualquer um que diz o contrário precisa ouvir as palavras da Neide:

Pardon my french, mas ser adolescente é difícil para cacete. É uma época em que toda a sua vida está mudando na sua frente, em que você está mudando bastante e há inúmeras coisas que são esperadas de você. Se você é mulher, você tem que ser linda, sensual, animada, divertida, inteligente, focada, interessada, culturada. Mas ao mesmo tempo não pode ser muito nada disso, pois se não outras características são dadas a você. A adolescência geralmente é a época em que se descobre sobre a sexualidade, a “época de experimentar”, e se isso não é algo pesado na nossa sociedade LGBTfóbica então poucas pessoas conhecem o que é um problema difícil.

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