O Sonho

o sonho

De vez em quando, eu sonhava conosco. Sonhos bons, sonhos que davam vontade de continuar dentro deles pelo máximo de tempo possível. Que davam vontade de esquecer tudo e viver dentro deles, por ser mais fácil. A decepção ao acordar era quase palpável por conta disso, por ver uma realidade tão impossível e distante quanto poderia ser. Uma realidade palpável, pior ainda. Afinal, há aquele ditado de que se você pode sonhar, então é possível. Se você pode sonhar, pode ser feito. Entretanto… Não é tão fácil, nada é fácil hoje em dia. Nada era fácil conosco.

Sonhei, no último desses momentos amargo-doce, que nós estávamos felizes. Juntos ou não, isso não era relevante. Não era um sonho de namorados ou de amor, isso não era relevante. Nós éramos felizes, só isso. A felicidade mútua era suficiente para nos sustentar pelo máximo de tempo possível, era suficiente para suprir a falta que me fazia. Saber que você estava feliz era o suficiente para mim. Assim como saber que eu estava feliz era suficiente para você. Funcionava, dentro do ambiente comum e calmo do sonho. Havia uma ordem quase política dentro daquele ambiente seguro, salvo, de inércia constante.

Estávamos deitados na grama, em um grande gramado que se perdia de vista cada vez que tentaríamos ver o horizonte. Havia um sol no alto, mas não era quente. Era só… Confortável. Como uma cena de filme indie, eu podia ver a grama perto dos meus olhos, deitada nela, como sempre gostei de ficar. Havia aquele efeito de brilho forte demais, como se houvesse várias luzes nos olhos que refletiam no orvalho. Eu via você por entre a grama e a luz, sentado ao meu lado, e você estava feliz. Estava tudo bem. Todos bem. Não havia nada para arrumar ou se preocupar sobre.

Falava comigo e eu respondia, mas não era algo que era relevante. O assunto não era relevante. Mas, mesmo assim, eu ria do que fora dito e minhas costas se curvavam no chão, os pés descalços na grama. Você ria junto e se qualquer um olhasse não tinha dúvidas de que não havia nada no mundo que fosse relevante ou que habitasse na sua cabeça. Nenhum problema, nenhuma frustração, nenhum embate, nada. Isso era claro nos seus olhos, como já foi antes. Sempre expressivos além da conta. Sempre me mostrando mais o que você queria que mostrasse.

No céu, as nuvens brancas passavam pela planície com uma brisa as carregando devagar. Tudo parecia devagar. O tempo parecia passar devagar, como se ele quisesse arrastar esse momento. Essa brisa passava por nós e balançava os seus cabelos meio curtos, meio longos, mas não de um jeito que atrapalhasse nada. Eu levantava as costas do chão, apoiando os antebraços na terra e pegava um pouco daquele vento na franja. Eu ria com o cabelo caindo no meu rosto enquanto sentava. Você se debruçava para a frente e passava a mão no meu cabelo, empurrando-o para atrás da minha orelha. Não ficava, claro, mas era o movimento que valia a pena. Então, como se fosse natural, eu lhe beijava, como já havia feito muitas vezes. E você devolvia, como também já havia feito muitas vezes.

Tudo ficava preto-e-branco e parava, preservando o momento.

E eu acordava.

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