Mentira por Omissão

spotlight

Eu estava descrente do efeito que Spotlight – Segredos Revelados teria em mim. Talvez porque toda vez que eu vejo um dos filmes favoritos para o Oscar de Melhor Filme eu fico ligeiramente descrente, principalmente quando é um filme que não compõe o meu grupo de pautas para as quais eu direciono uma especial atenção. Esse, especificamente, recebia uma descrença por ser um filme sobre jornalistas. Eu, como jornalista recém formada, não gosto muito de filmes sobre jornalistas por pura fadiga. Deu canseira dessas histórias depois de quatro anos ouvindo sobre elas.

No caso, Spotlight é um filme de 2015 que conta a história real da investigação feita pelo Boston Globe sobre casos de pedofilia e estupro de menores por padres, que vinha sendo encoberto pela Arquidiocese local. O filme é dirigido por Tom McCarthy e tem Mark Ruffallo, Michael Keaton e a Rachel McAdams como o cast principal, além de ter uma classificação de 8,5 no IMDB. Talvez alguns de vocês se lembrem de notícias sobre isso pela época de 2004 ou 2005. Eu me lembro bem, porque foi a época que eu comecei a questionar a minha fé no catolicismo e decidi que isso não era algo que eu queria para mim. Essa matéria – que eu nunca cheguei a ler diretamente – chegou aos meus ouvidos como um comentário em mesa de almoço e por anos entrou no grupo de argumentos que eu uso para a minha descrença na instituição a qual gira o catolicismo.

O meu problema não é com a fé católica, com Deus, com Jesus Cristo ou com nenhuma das santidades envolvidas nesse grupo de crenças. O meu problema é com a omissão endêmica que a Igreja tem em assuntos que são embaraçosos para ela. Como uma organização com uma equipe ruim de assessoria de imprensa, parece que eles sempre fazem questão de se silenciar ao invés de fazer alguma coisa sobre o dito escândalo que surge. Ou pior: Não só se silenciam como tentam abordar o assunto de uma forma que o coloca como menor do que deveria ser.

Pois bem, diferente do que eu esperava, o filme despertou tantos sentimentos em mim que eu fiquei até com interesse em escrever sobre ele para cá. Porque esse filme além de abordar o escândalo na Igreja, a matéria jornalística e todo o esquema de apuração também fala de outra coisa muito importante: mentiras por omissão. Esse tipo de mentira não é citado diretamente no filme, não é abordado diretamente em nenhum momento, mas é palpável a maneira como todos estão pensando e falando a mesma coisa. Como tanta gente poderia saber que isso estava acontecendo e nada ser feito sobre? Como uma coisa tão grande poderia estar acontecendo e ninguém saber? A única solução palpável era que todo mundo sabia e ninguém falava nada. Ninguém se movimentava. Ninguém se mexia. Em uma fala do filme, basicamente:

If it takes a village to raise a child, it takes a village to abuse them. That’s the truth of it.

O filme começa com um padre, depois passa para quatro, então são 13 e logo o número está em 87 padres. Tudo acontecia por baixo dos panos mas só o suficiente para não estar na luz. Todos faziam alguma ideia de que isso era um senso comum, mas não se fazia nada além de reconhecer isso como senso comum. O ostracismo de ver essa situação como normal cria um cotidiano na ideia. É o mesmo que falar que todo político é corrupto. Ninguém se surpreende mais com escândalos de corrupção, ninguém vê isso como algo ocasional – é senso comum. Porém, por que o sistema que permite que isso se torne senso comum não muda no momento em que nota que é algo endêmico?

No caso da Igreja, o problema é a falta de reconhecimento de que a pedofilia é algo instrumental, sistemático e contínuo. É uma situação que não vai parar simplesmente porque aconteceu uma matéria e depois várias matérias sobre isso. Até porque antes das matérias aparecerem todos sabiam o que acontecia e o que era feito? Moviam os padres de uma igreja para outra – o que só dava mais oportunidade para o pedófilo fazer mais vítimas. Um relatório da própria Igreja relatou que de 1950 até 2002 eram 4% do total de padres que tinham denúncias de abuso sexual sobre crianças. Como em toda situação de casos de abuso sexual, as denúncias são o menor número do que realmente acontece. Muitas vítimas não denunciam ou sequer falam sobre o que aconteceu, muitas denúncias não são reportadas e tudo continua igual.

Mas sabe a melhor parte? Em uma pesquisa rápida sobre sobre essa questão (não o caso coberto pelo filme, mas sobre pedofilia e abuso sexual de menores perpetuada por padres católicos) você consegue facilmente encontrar uma matéria d’O Globo de 2010 onde temos esse comentário maravilhoso do cardeal português José Saraiva Martins: “Não deveríamos estar muito escandalizados se alguns bispos sabiam dos casos, mas mantiveram segredo. É isso que acontece em qualquer família, não se lava roupa suja em público”. No mesmo comentário ele acusou que esse tipo de comentário sobre a Igreja era um plano organizado para derrubar a fé católica. E, sim, vários padres foram retirados da Igreja depois das denúncias.

Só que o que se fala sobre isso hoje em dia? Alguma coisa se modificou no institucional da Igreja sobre a maneira que eles lidam com esses padres? Alguma coisa é feita para prevenir que pedófilos se tornem padres? Hoje em dia no momento em que são feitas denúncias de abuso sexual em cima de um padre é feita alguma investigação legítima? Ou ele só é retirado daquela paróquia e colocado em outra, como acontecia antes?

Ficou tudo em pizza?

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