Toques e Sutilezas

carol

Carol é um filme complicado de descrever, complicado de criticar e ainda mais complicado de explicar o porquê de eu ter adorado tanto. O filme conta a história de amor entre duas mulheres Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) na Nova Iorque dos anos 50. Carol é uma mulher no meio de um divórcio que tem uma pequena filha e sabe da sua orientação sexual, do seu direcionamento para um gênero diferente do que seria aceito na época. Therese é uma simples trabalhadora de loja. Ela tem um namorado que ela não ama e um sonho de uma vida mais interessante.

Nisso, ela encontra a Carol, que está comprando um presente para a sua filha na loja onde Therese trabalha. Uma troca de olhares poderosa, algumas palavras trocadas e nada mais. Em um mundo tão heteronormativo e tão hipersexualizado quanto o que vivemos atualmente, esse pode ser o começo de um filme muito chato. Um filme que não acontece nada, um filme “paradão”. Se você achou isso de Carol, meus pêsames. A realidade é que esse filme é um pouco de tudo que me fascina em histórias de amor bem contadas, histórias de amor onde se leva tempo para a imersão do espectador e a compreensão daqueles personagens.

Carol é um filme sobre olhares, toques, inspirações e suspiros. É um filme de pequenos toques e que, pouco a pouco, vai ganhando um carisma e uma satisfação tocável de assistir. A sutileza de cada um daqueles toques e daqueles olhares que vão atraindo Therese à Carol, que vão fazendo com que essa menina que nunca tinha pensado na possibilidade de se envolver com uma mulher se coloque dentro do carro dela e depois do seu quarto. As duas se aproximam como se a própria gravidade as atraísse, como se Therese fosse um planeta e Carol fosse o seu sol. O próprio talento para fotografia da morena flui quando Carol está envolvida, cresce como se ela se alimentasse da energia que Carol emana.

Pode parecer um filme parado, na superfície. Há a impressão de que seja uma história chata enquanto não há grandes gestos de amor. A questão é que nós estamos muito cheios dessas histórias. Grandes atos de amor, grandes cenas de sexo, grandes romances onde todos vão sacrificar tudo um pelo outro. Há um excesso disso na indústria, um acúmulo de Nicholas Sparks e de filmes sobre casais heterossexuais brancos que tem romances memoráveis e correm um na direção do outro com bedroom eyes.

 

Você vai me dizer que não TEM BEDROOM EYES NESSE FILME?

 

Pois bem, Carol tem tudo isso. Tem um romance exemplar entre Carol e Therese, tem um dilema, tem embate, tem tensão. Tem até tensão sexual! Tudo bem que não é uma tensão sexual heteronormativa. Carol e Therese não são um casal lésbico para homem ver e se divertir. A cena de sexo delas não é para causar atração sexual, não é uma cena para ser usada de token pelos outros de como são progressistas. E é impressionante de apesar de ser explícita, a cena é tão sutil quanto o resto do filme.

Um fato é que esse filme merecia mais indicações ao Oscar, merecia a indicação de Melhor Filme. Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante não são o suficiente. 6 indicações não são suficientes enquanto Melhor Filme, Melhor Diretor e outras tão importantes e tão relevantes para esse filme foram deixadas de lado. Quem sabe se o final do filme fosse mais infeliz, quem sabe se Carol e Therese não pudessem ter a chance de terminarem juntas (o que nem explícito é feito), quem sabe se uma delas tivesse morrido. Talvez com essas circunstâncias, esse filme fosse mais indicado. Talvez se ele fosse mais fácil para os espectadores não LGBT+, espectadores que não fazem parte do grupo de mulheres lésbicas que se relacionam tanto com as duas, então o filme seria mais indicado.

Mas Carol merece ser visto, independente de qual letra é a sua na grande sopa de letrinhas de orientações sexuais e identidades de gênero. Visto com paciência e com cabeça aberta. Visto com a ideia de que esse filme vai te abrir os olhos em outra perspectiva.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s