Um Quarto e o Mundo

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Eu quero me dedicar a escrever personagens, criar personalidades e, por fim, histórias. Querer ter essa aspiração me faz admirar ainda mais quando eu vejo um personagem instigante, ainda mais quando ele é criado em tão pouco tempo de tela – como em um filme. Talvez, pelas resenhas já apresentadas aqui no blog, vocês tenham notado que eu gosto bastante de televisão. As vezes, bem mais de televisão do que de cinema. Isso se dá principalmente porque hoje em dia tem existido um espaço muito maior para personagens instigantes na televisão do que no cinema, que se enrolou em métodos fáceis e fórmulas previsíveis.

Esse parágrafo foi basicamente uma grande introdução sobre porquê eu me apaixonei por O Quarto de Jack (Room), filme que está indicado ao Oscar em quatro categorias. São elas Melhor Filme, Melhor Atriz (Brie Larson, pelo papel de Joy Newsome, a mãe), Melhor Direção (Lenny Abrahamson) e Melhor Roteiro Adaptado (Emma Donoghue, que está adaptando o seu próprio livro para o cinema!). Antes de assistir o filme, eu acreditava que quatro indicações eram o suficiente. Depois que saí do cinema, acredito que sejam menos do que o merecido. Principalmente considerando que o filme provavelmente só levará a estátua de melhor atriz, com Brie Larson brilhando no papel.

O filme conta a história da Mãe e do Jack que vivem dentro do Quarto. A Mãe é uma moça chamada Joy Newsome que foi sequestrada por um estranho aos 17 anos. Ele lhe disse que seu cachorro estava doente e ela foi tentar ajudar, como muitas meninas que são ensinadas a serem gentis e ajudarem a todos acabam fazendo. Ela está em cativeiro há sete anos quando o filme começa e Jack, seu filho com o raptor (e estuprador), está fazendo seu aniversário de cinco anos. Todos os dias eles acordam, tomam café da manhã, arrumam o Quarto, tomam banho, assistem televisão e veem o Mundo da Televisão. Alguns dias Jack dorme com a Mãe, outros dias ele tem que dormir no Armário, pois o Velho Nick está vindo visitar e trazer mantimentos que ele pega por magia da televisão.

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Bom dia, claraboia.

Esse é o mundo que a Mãe cria para Jack, para que ele possa sobreviver. Um mundo onde o lado de fora – fora do Quarto – não existe, tudo é Espaço. O Velho Nick consegue a comida e as coisas que ele leva por magia, que ele usa para tirar tudo de dentro da televisão. Até porque as coisas que estão na televisão não existem de verdade. O oceano não existe, porque ele seria grande demais para caber no Quarto, por exemplo. Há um mundo novo extraordinário criado, um habitat natural para que Jack pudesse crescer sem sentir falta do que ele estava crescendo. Esse mundo toma tanta conta dele que, ao se libertar do cativeiro, uma das primeiras perguntas que ele faz é: Nós estamos em outro planeta?

De certa forma, estavam em outro planeta. Os dois estavam em outra vivência e agora, tanto Mãe quanto Jack, precisavam aprender a viver nesse novo mundo. Jack tinha que aprender as coisas novas, aprender que tudo que ele sabia sobre a vida estava errado e tudo que ele conhecia era tão pequeno quanto uma formiga em uma grande floresta. Mas, ao mesmo tempo, ele está descobrindo tudo pela primeira vez. Como a criança que ele é, Jack está animado com a perspetiva do Mundo – um não-Quarto. Com medo, porém animado. Para a Mãe tudo é diferente, principalmente o jeito como ela tem que encarar as coisas. Ele está correndo para o exterior, ela está caminhando para o retorno à vida que lhe foi arrancada.

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Isso tudo é pesado para a Mãe, para Joy. Ela não sabe como lidar com o peso dessa situação e o peso de tudo que esperam que ela seja ou que ela faça e que ela seja. Joy tem que lidar com o seu pai, sua mãe, seu padrasto, a mídia, a polícia e todas as expectativas que se colocam sobre a sua cabeça. Ter ficado presa por tanto tempo não fez só com que ela perdesse tempo no Mundo (o “mundo real”, fora do Quarto), mas também que ela perdesse contato com quem ela era antes do sequestro. Ela não é mais a mesma pessoa e ao mesmo tempo que algumas pessoas esperam que ela fosse a mesma, outras esperam que ela seja alguém totalmente diferente de quem ela é. O Mundo, de certa forma, é demais para ela, é muito estímulo e muitas coisas que ela tem que lidar com.

Eu comecei a falar sobre personagens para desenvolver o motivo pelo qual eu gostei da Mãe, gostei da forma como o filme lhe narra pelos olhos de Jack. Acima de tudo, Mãe é uma personagem fantástica. Ela é a idolatria em pessoa pelos olhos de Jack, ela é uma mártir pelos olhos do expectador, ela é uma falácia pelos olhos dela mesma. Várias facetas que a sufocam a cada segundo de cada dia que ela passa fora do Quarto. Dentro, ela só precisava sobreviver. Fora, ela precisa viver. Tudo isso parece demais para ela até que ela quebra. E todas essas nuances podem ser captadas pela interpretação fantástica de Brie Larson, que abraça cada pedaço dessa personagem.

No final do filme, todos nós só queremos dizer adeus para o Quarto.

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