Gaycation no Brasil: O que aprendemos?

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Desde que eu vi que a Ellen Page iria começar a fazer um seriado documental sobre a vida da comunidade LGBTQ+ ao redor do mundo eu comecei a me interessar em acompanhar. O primeiro episódio, no Japão, saiu e eu fiz um comentário sobre na página do blog lá no facebook. Estava guardando o post para o episódio no Brasil, onde eu sabia que iria ter bastante para falar por ser um país que eu conheço bem. O episódio só me desapontou uma vez pelo fato dele não ter sido sobre o Brasil, mas sobre o Rio de Janeiro. Eu já estava com a impressão de que isso iria acontecer porque é o que geralmente acontecem – há uma ideia de que todo o Brasil é representado pelo Rio de Janeiro e eu não esperava que um episódio de uma série documental fosse fazer diferente nessa questão. Porém, é triste pensar que além dos poucos minutos de São Paulo não parece que a equipe achou nada mais em outras cidades que fosse importante. Certamente isso existe e certamente que o Brasil é bem mais do que somente o Rio de Janeiro.

Vocês podem ver o episódio na íntegra aqui.

tumblr_nxe7c3s7p01s5czvvo7_r1_250Logo no começo do vídeo eles começam a falar do assunto que vai permear todo o episódio: a violência constante contra a população LGBT que existe no Brasil. Apesar do país ter há muito tempo aprovado o casamento homossexual e também ter leis contra a discriminação de forma geral – nenhuma específica, infelizmente – a violência é um problema constante que faz com que pareça que essas leis não fazem a menor diferença. O Grupo Gay da Bahia publica atualizações constantes no site Quem a Homotransfobia matou hoje? (de conteúdo MUITO forte) do número de mortos dentro desse grupo social, especialmente por crimes violentos. Todo ano, com esses dados, eles fazem um relatório constatando o óbvio: há uma violência direcionada. No ano de 2015, 318 pessoas LGBT foram mortas, o que coloca um crime a cada 27 horas. O pior é pensar que que esse número deve ser ainda menor do que é o real, uma vez que vários casos não são computados no site (muito menos nas delegacias) e ainda há o fato de que várias vítimas não são identificadas.

O episódio tem um tom leve, alternando entre a violência e pessoas tendo opiniões otimistas sobre a situação. Eles fazem questão de deixar claro que há uma mentalidade boa de como as pessoas vêem o Rio de Janeiro, para a comunidade LGBT. Vários aparecem no vídeo falando sobre como o Rio, especialmente no Carnaval, é um lugar que lhes acolhe e que permite que sejam eles mesmos.Só que o otimismo dessas pessoas é interrompido para trazer os casos de violência que não podemos esquecer, como o caso de Piu da Silva que era passista da Beija-Flor antes de ser assassinada. Em 2015 foram 119 mulheres trans ou travestis mortas, o Brasil é o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo com praticamente 50% das mortes computadas.

A imagem que fica durante quase todos os 44 minutos de episódio é bem próxima da realidade. Por fora, o Rio de Janeiro parece ser um lugar que aceita a todos, que não promete discriminações dentro da esfera sexual por ser um espaço libertário. Por dentro, há um preconceito enraizado e escondido por trás de muitas camadas. Uma das pessoas que aparece para dar entrevista inclusive fala uma frase que eu ouço muito quando pedem uma opinião sobre o assunto, “Usa-se muito o termo ‘ah, eu entendo, eu aceito, mas isso não é normal'”. Como que alguém aceita uma coisa quando faz questão de dizer que ela não é normal? Como alguém respeita uma coisa quando faz questão de a deslegitimizar o tempo todo? 

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Outros dois pontos altos do episódio são quando Ellen Page e Ian Daniel entrevistam tanto Jean Wyllys (PSOL) e Jair Bolsonaro (PSC). A primeira entrevista acontece em um dos primeiros blocos, com Wyllys falando desde das contradições do brasileiro até do próprio Bolsonaro, como se fosse já uma introdução para a sua consequente entrada no documentário pela própria voz. O deputado é bem direto: “O que impede o avanço da cidadania, sobretudo à comunidade LGBT, é o fundamentalismo cristão. Porque faz parte de um senso comum construído historicamente de que os homossexuais são pecadores”. Enquanto Wyllys fala sobre Bolsonaro, eles já mostram clipes das famosas falas do deputado que são bem conhecidas aqui, como a sua fala de que quando você bate em uma criança que está “meio gayzinha” ela muda o comportamento. O encontro com Bolsonaro acontece no bloco seguinte e já começa com ele falando que foi posicionado como uma das maiores figuras homofóbicas do Brasil injustamente. Como de praxe, ele é tão hipócrita quanto sempre foi.

Ele nega ser homofóbico, falando que a sua “briga sempre foi e será contra a distribuição do material escolar para o público a partir de seis anos de idade” e Ellen discorda, apontando que ele já falou coisas que ela foi que são homofóbicas, como o fato dele falar que se deve bater em crianças para que elas deixem de ser gays. Ela questiona se ele acha que se ela tivesse sido espancada quando criança ela não seria gay hoje e Bolsonaro, em resposta, lhe passa uma cantada. Como esperado, para uma figura que além de homofóbica não consegue conter o machismo que exala. “Muito simpática. Se eu fosse cadete da academia das agulhas negras e te encontrasse na rua, eu iria assobiar para você. Tá ok? Muito bonita.” Tá de parabéns, Bolsonaro. É assim mesmo que se conversa com uma mulher que vai te entrevistar.

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Depois dessa pérola, ele continua falando as asneiras de sempre. Só é incrível ver a seriedade que ele usa para comentar essas coisas que são claros absurdos. Como, por exemplo, quando ele fala que “com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou-se bastante o número de homossexuais”. O seu argumento termina com ele falando que ele acredita que se o seu filho começar a andar com “certas pessoas que tem certos comportamentos”, ele vai ver aquele comportamento como normal. Para pessoas que tem um bom coração e não são tão capazes de preconceito quanto Bolsonaro, isso é uma ótima coisa. Para ele, acreditar que homossexuais ou pessoas da comunidade LGBTQ+ são normais é um absurdo. Inclusive, ele chega a olhar para a mulher que lhe está entrevistando e afirmar que ela “beira o absurdo” antes de continuar com o seu argumento incrivelmente limitado da procriação: “Até porque você com a sua companheira, né, não geram filhos. Se for gerar vai depender de algo doado por nós, né, nós heteros, nós homens. Eu não vou brigar contigo agora e te transformar em hétero e nem você me transformar em homo”.

Acredite se quiser: Nem todo mundo que é LGBTQ+ quer transformar as pessoas heterossexuais em gays ou qualquer outra orientação sexual. A resposta de Ellen Page para esse comentário é maravilhosa: “Bom, como uma pessoa gay, se eu posso te fazer se sentir melhor sobre esse medo que você parece ter, eu não quero que ninguém que não é gay seja gay. Eu quero que as pessoas gays que estão sofrendo, que estão dentro do armário, que estão com pensamentos suicidas fiquem bem e amem quem elas são. Mas eu não quero que pessoas que não são gays sejam gays. Exceto, talvez, a Kate Winslet”.

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Totalmente compreensível

Se eu fosse falar sobre todos os momentos importantes desse episódio, eu teria que falar de absolutamente todos os minutos dele. Toda a narrativa que eles escolhem passar sobre a dinâmica da comunidade LGBTQ+ no Rio de Janeiro é importantíssimo para a compreensão dela, mesmo que só se fale dos grupos L e G. O único momento fora do Rio é quando eles pegam um vôo para São Paulo e falam com a modelo e atriz transexual Carol Marra, que foi a primeira mulher trans a ter um relacionamento e um beijo na televisão brasileira. Eles conversam com ela enquanto ela faz um photoshoot feminino e sensual, uma coisa muito bonita de se ver tendo em vista que ela é uma mulher trans, um grupo que constantemente tem a sua identidade feminina negada. “Eu acho que o sexo [sic] não está ligado a uma genitália. Se você tem um pênis, você é homem. Se você tem uma vagina, você é mulher. Eu acho que o sexo [sic] ele transpõe uma genitália. Então no Brasil a gente não é respeitado por isso. Você é crucifixado, você é massacrado. Você é covardemente empurrado para a prostituição. Não te veem de uma outra forma, então as pessoas não te dão oportunidade para você desempenhar outras funções no seu trabalho”, aponta Marra no documentário.

Já no final do episódio vem a cena mais marcante de todas, a já divulgada pela Vice visita de Ellen e Ian a um ex-policial que assumidamente mata homossexuais – tanto assume ter feito durante o trabalho quanto depois de ter saído deste. Ele concedeu a entrevista em sigilo, então o seu rosto não aparece, sua voz não é mostrada de forma real e seu nome não é citado. Eu preferia ver o seu rosto, ouvir a sua voz e saber o seu nome. É sempre bom conseguir saber quem é um perigo para nós, para as pessoas que você ama e para aqueles que não conhece e ainda assim se importa. Ele não tem pudor em fazer declarações como “Pra mim, eles [os gays] são piores do que um bicho. Se entrar na minha frente, eu pego. Não quero nem saber o que vai acontecer, eu pego”. E isso me assusta mais do que qualquer atrocidade que algum político venha a dizer na vida dele. Sim, a violência instrumental em forma do estado é assustadora porque ela mantém pessoas como esse homem fora da justiça. Ela dá voz para ele. Mas ver o foco dessas palavras na tela é um medo muito mais visceral.

Afinal, Ellen e Ian assumem os riscos de dizer para o assassino que eles são gays, depois de discutirem entre si se devem ou não dizer. Mesmo protegidos por uma equipe de produção, pelas câmeras, pela ideia de que nem um homem desses iria fazer ameaças a dois estrangeiros, em um programa de televisão, há um medo palpável, claro. É um homem que diz que matava pessoas homossexuais – tais como eles – por prazer na frente deles. Ela questiona: “Nós somos gays e estamos nos perguntando se você acha que é melhor para o mundo que nós estejamos mortos”. No vídeo não há uma resposta direta para essa pergunta, mas não fica claro se ele deixa de responder ou se a resposta foi cortada na edição. Ian continua com o questionamento de porquê ele decidiu tomar esse rumo, ao que o homem responde que ele teve um caso na família de alguém que foi descoberto que era gay. “Foi aí que eu desgostei, porque até o momento ele não mostrava o que era”. A pessoa em questão teve que mudar de estado (ou ao menos é isso que o homem nos diz) porque ele sabia do seu objetivo.

Ao menos há uma coisa no relato do assassino que me deixa com o estômago menos embrulhado: Ele admite ter ódio. Ele admite que o que ele faz é motivado por ódio, apesar de também acreditar que o que faz é justificado. A admissão do ódio é importante, principalmente enquanto estamos em uma sociedade que diz que crimes LGBTfóbicos não são motivados por essa razão. O homem termina a entrevista com um alerta, “eles precisam saber que existem pessoas que se eles cruzarem o caminho pode ser uma ida sem volta”. A frustração de Ian no final da entrevista é palpável, ainda mais como uma pessoa que está vivendo nessa sociedade. Os seus questionamentos de uma falta de justiça, uma falta de proteção para essas pessoas na sociedade são os meus questionamentos toda vez que eu vejo uma nova notícia de outro de nós (sim, nós, eu não abdico da minha letra dentro dessa sopa) que foi assassinado. Parece que não há uma saída.

Mesmo assim, eu sempre vou acreditar que há uma saída.

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