O que o Universo ensinou?

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Ana Paula estava sentada em uma das mesas do grande salão onde acontecia aquela reunião escolar. Ela girava o dedo na borda do copo, a cabeça apoiada na outra mão enquanto se debruçava entediada na mesa. Ela não sabia muito bem o que estava fazendo aqui. Nunca tinha se identificado muito com essa escola e não fazia a menor questão de estar rodeada por esses seus ex-colegas de novo. Todos eles tinham feito o seu tempo no Universo um inferno e ela não queria reviver isso. Só que por algum motivo, Ana Paula queria vir nessa reunião.

Talvez fosse a ideia de reencontrar Maurício, sua antiga paixonite adolescente. Talvez fosse a vontade de ver como estava a Luísa, patricinha escolar que sempre tinha visto todos ao seu redor como súditos e não parecia entender que eram todos iguais a ela. Talvez ela só quisesse rever aqueles que tinham ficado do seu lado durante todo aquele tempo no Universo, todos aqueles anos infelizes de aprendizado escolar que não fizera a menor diferença no futuro. Ana Paula acabou seguindo um caminho totalmente distinto das aulas de química, matemática, física, português, etc. Qualquer uma daquelas matérias não lhe servia de nada e ela não fazia a menor ideia do porquê de ter passado tanto tempo lá.

A realidade era de que Ana Paula quisera voltar aqui para poder mostrar para todos aqueles que tinham lhe julgado que ela poderia ser melhor. Que ela tinha crescido e agora poderia colocar eles todos no chinelo. Mas a realidade era que nenhum deles fazia nenhuma ideia do seu sucesso, então já que ela precisava contar para todos eles do que estava fazendo não fazia a menor diferença. O ideal era que todos soubessem quem ela era e ela conseguisse ver seu nome pulsando na mente de todos aqueles que lhe trataram mal durante aqueles anos fatídicos. Só que ninguém sabia e isso só a deixara mais infeliz com toda a aura de reunião escolar que se estabelecia.

Ana Paula segurou o copo com força, apertado nos seus dedos com o vidro quase rangendo, enquanto via aquela silhueta se aproximar. Ela não levantou os olhos para ver João Paulo se aproximando da mesa e se sentando ao lado dela. Um dos bostinhas que tinha feito a sua vida inteira na escola um inferno e agora achava que poderiam os dois ser amiguinhos, curtindo as coisas que ela postava nas redes sociais, colocando bandeiras, expondo apoios. Ele pareceu pensar um pouco antes de falar, o que foi um alívio para a mulher que não queria ouvi-lo nem pintado de ouro.

— É Ana Paula agora, né?

A pergunta reverberou nos seus ouvidos enquanto aquele copo vibrava na mão dela, sabendo que esse era o tipo de questionamento que antecedia um desastre. Ela sabia que não deveria ter vindo, esse era o tipo de coisa que só iria lhe deixar exposta ao julgamento alheio, às pessoas que a tinham visto como uma pessoa fraca durante todo aquele tempo, uma pessoa que não servia para o mundo. O cachorrinho menor de uma ninhada, aquele que não ia crescer. E Ana Paula não merecia se sentir desse jeito, ela merecia se sentir como uma rainha, o que ela sempre foi, mesmo quando o mundo não a via dessa forma. Mesmo quando os outros a colocavam para baixo por ser diferente.

Mas uma coisa que o Universo tinha ensinado para Ana Paula é que a fraqueza que os outros viam nela estava neles mesmos. Ela era forte e sempre foi forte. Nos anos de repressão ela foi forte. Nos anos de depressão ela foi forte. Nos anos em que parecia que todos estavam lhe rodeando para a ver cair… Nesses anos ela tinha sido ainda mais forte. Era por essa força que ela estava aqui hoje, não pelas fraquezas que eles achavam que ela tinha. Não pelos insultos que os seus colegas lhe jogaram nos anos de escola, não pelas formas erradas que ela tinha sido chamada durante toda a sua vida, não pelos médicos que lhe trataram mal, não pelos olhares errados que recebia na rua. Achavam que ela era fraca por ela ser triste, mas na verdade ela era triste por ter tanta que usar tanta força para sobrepor a fraqueza de espírito dos outros ao seu redor.

Afinal, Ana Paula levantou os olhos para João Paulo, seu homônimo no inverso, e lhe deu um sorriso de canto.

— Sempre foi Ana Paula, João.

A festa não ficou melhor depois dessa revelação que ela já sabia há muito tempo, não seria algo provocado por João Paulo que iria lhe fazer querer mais participar daquela dinâmica. Mas o olhar confuso que ele lhe deu foi o suficiente para fazer com que ela desse uma risada estalada. Uma risada que ecoou pelo salão por baixo da batida de música. E aí, Ana Paula foi embora em toda a sua glória, sabendo que aquele ambiente tóxico não lhe merecia.

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