Crise de Criatividade

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Nevermore!

A palavra escrita no papel fazia com que ele sentisse alguma coisa vindo pelas suas entranhas, como se as palavras do antigo poeta fizessem alguma diferença na sua falta de ideia de como escrever e o que colocar no papel. Como se a força das palavras antigas criasse dentro dele uma nova imagem e uma nova forma, podendo esta se transformar em palavras que surgissem como uma história na sua mente. Ele apagou o cigarro que tinha pendendo nos lábios dentro do vaso de plantas que, ultimamente, vinha se tornando mais um cinzeiro. As folhas mortas na sua frente, sem água e sem brilho, lhe deixavam um pouco melancólico. No entanto, melancolia é algo bom para se escrever sobre, não? Todas as grandes histórias são sobre melancolia, são sobre tristeza. Se ele pudesse ver vocês, seus leitores, ele perguntaria se vocês conhecem alguma história marcante com um começo feliz ou que conte uma história de felicidade presente. Lázaro seria o primeiro a dizer que não há e o primeiro a dizer que não há necessidade de haver também. Histórias são escritas na base de lágrimas e de sentimento. Felicidade é um sentimento comum, é um sentimento que acontece na vida e que todos conhecem, não é a mesma coisa de descobrir um sentimento novo ou de desenterrar algo que vá te levar às lágrimas.

Talvez fosse isso que faltasse a ele para que conseguisse escrever. Um sentimento verdadeiramente avassalador, uma coisa que fizesse com que ele notasse que a verdade estava presente dentro de todas as coisas. Só que ele não sentia nada, ultimamente. Olhava a tela do computador onde escrevia, olhava aquelas palavras que se embaralhavam na sua mente, e não sentia nada. Seus cinquenta e sete anos batiam sobre a barriga de chopp que vazava por cima das calças e ele começava a sentir o peso dos vinte anos de cigarro nos pulmões. Ele, quando no bar, quando na rua, quando com os amigos, parecia uma pessoa comum, uma pessoa ordinária e normal. Nada muito diferente do que se espera de alguém que venha andando na rua na sua direção e passa ao seu lado sem te fazer pensar. O problema, na verdade, era que ele sentia como se fosse assim o tempo todo, como se ele sempre tivesse sido dessa maneira e com essa formação. Como se nada tivesse adiantado dentro da sua vida para que fosse algo diferente. Como se ele nunca tivesse sentido nada na vida, nada que fizesse diferença dentro das palavras de seus livros.

Ele sentia que nunca havia vivido de verdade.

Sentia como se tivesse deixado sua vida passar pela sua frente sem falar nada, sem fazer nenhuma resistência ou tentar mostrar que estavam errados. Mostrar que todos que falavam que ele tinha que sair de casa mais, que tinha que fazer mais amigos, que tinha que mudar seu jeito de ser estavam errados. Afinal, eles estavam certos.

Seu médico dizia que esses pensamentos eram sintomas da depressão que ele vinha tentando combater com remédios. Com aquelas doses fracas de prozac e zoloft, os remédios que faziam com que ele se sentisse tão vazio. Esses remédios o ajudavam a viver, de acordo com o médico que havia lhe passado o diagnóstico. Eles lhe ajudavam a não querer deixar as coisas do mesmo jeito, a não querer que as coisas continuassem iguais. Lázaro, no entanto, só achava que eles pioravam as coisas ao invés de melhorar. Eles o deixavam dormindo na maior parte do tempo, eles o deixavam sem conseguir sentir qualquer coisa que fosse. Seja o toque do mosquito que lhe picava o braço, fosse a dor por conta da borboleta azul presa na parede. Aquele azul lhe feria os olhos pela manhã, trazendo lembranças de volta a tona como um furação, como um tufão de sentimento. Ou ao menos costumava ser assim, costumava… Faz muito tempo. Faz quase tanto tempo quanto o que tinha feito que ela fora embora. Não era, uma mulher, uma amante ou uma esposa. Ela, sua mãe. Lázaro sentia falta de sua mãe, de sua amada companhia. Ela tinha morrido quando ele havia feito trina te tantos anos, mas parecia que havia sido ontem. Parecia que ela morria todos os dias de manhã e que continuava morrendo à medida que as horas passavam por ele. Parecia que ela continuava morrendo todos os minutos do seu dia. Ele pensava em tirar o quadro da parede, mas só de chegar perto dele, sentia seus dedos tremerem.

Enquanto isso, não conseguia escrever. Não conseguia colocar as palavras no papel como queria que estivessem. Não conseguia cumprir com os desejos do editor que queria um livro novo para colocar nas prateleiras da livraria. Até agora, só aquele gralhar do corvo havia sido colocado na folha figurativa do computador. Nevermore!, ele gralhava e Lázaro repetia as palavras na sua cabeça, pensando se pegar o livro do texto para ver se ele lhe trazia alguma ideia melhor. Aquele livro de Poe na sua estante com suas leituras preferidas, com sua escuridão preferida.

No entanto, ele só se colocou na frente da janela, puxando sua cadeira para sentar ali perto, enquanto via a vida passar e os pássaros de metal voarem no ar. O som do aeroporto ali perto fazia com que ele sentisse a vida entrando pelos seus pulmões, como se pudesse sentir a essência das pessoas indo e vindo. Pessoas encontrando suas famílias e se encontrando, pessoas indo embora e voltando, pessoas… Se movendo, crescendo, mudando, largando e pegando de volta.

Então a ideia veio.

E o som do teclado fez com que todos os outros sumissem na sua frente.

Nevermore!

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