A Evolução (?) das Mulheres em Doctor Who

Neste sábado, dia 23 de abril, foi anunciado que a nova companion de Doctor Who vai ser Pearl Mackie, com sua personagem chamada Bill. Em um vídeo de pouco mais de um minuto nós recebemos uma pequena amostra da personagem que vai acompanhar o Doctor-Calpadi nas suas próximas aventuras. E ela já me agradou bastante. Ela é uma mulher negra, com um black incrível, sem papas na língua para fazer as perguntas que nós queremos feitas desde o piloto (IT’S GOT A SUCKER ON IT?) e ainda apontando para o Doctor que, não, ele não explica nada direito. Foi um vídeo pequeno, mas foi o suficiente para me colocar animada com a próxima temporada – o que eu não sentia há algum tempo.

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Mas uma nova companion significa que temos uma nova personagem sob a gerência de Steven Moffat e, olha, eu não coloco muita fé de que ele consegue criar personagens novas boas, principalmente tendo em vista o que ele vem fazendo com a série nas últimas temporadas. Principalmente se ele continuar a não ouvir as críticas que são feitas em cima da sua escrita.

Eu imagino que se você leu esse texto até aqui, então você sabe o que é Doctor Who. Mas, por via das dúvidas, vamos explicar! Doctor Who é, em uma explicação bem rasa, uma série de ficção científica criada em 1963 e que vem passando até hoje pela BBC. O seu personagem principal tem o nome de Doctor e ele é um alienígena, um Time Lord do planeta Gallifrey. E o Doctor tem uma máquina do tempo, a TARDIS (Time And Relative Dimensions In Space), com a qual ele faz viagens no tempo e no espaço perseguindo coisas que sejam interessantes para atiçar o seu ânimo e curiosidade.

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TARDIS <3

Ele geralmente viaja acompanhado de um humano, referido como companion, que o ajuda em suas aventuras. Como parte do universo de ficção científica, a série está sempre em renovação à medida que, ao morrer, o Doctor pode trocar de rosto. Os companions, entretanto, vêm de uma renovação mais dolorosa, com sua saída da série geralmente sendo um momento bem dramático de perda. Mesmo assim, eles foram sempre personagens importantes para a guia da trama, uma vez que são os olhos leigos dentro do universo completamente novo. E um fator predominante dentro dessa figura é que geralmente são personagens femininas fazendo tal papel, principalmente no reinício da série em 2005.

Falar em personagens femininas dentro do universo da ficção científica sempre foi um problema. Com personagens altamente estereotipadas dentro de um gênero predominantemente masculino, era a coisa mais comum ver as personagens femininas sendo colocadas em segundo plano como as donzelas indefesas que precisavam de salvação ou como a figura do “sidekick”. Não é raro ver isso acontecendo hoje em dia, mesmo que tenhamos algumas grandes vitórias em Rey (The Force Awakens).

Entretanto, Doctor Who (me referindo especificamente ao reinício de 2005, a “série nova”) quase sempre soube equilibrar muito bem a imagem do leigo, o iniciado no universo novo, com a criação de personagens femininas importantes para o andamento da trama. Até agora foram cinco: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freyma Agyamen), Donna Noble (Catherine Tate), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

A série começa com Rose Tyler como a companion, uma garota de 19 anos, londrina, que trabalha em uma loja e que nunca se viu de maneira especial. Um evento que acontece natumblr_n9adfnklwz1txbdydo2_250 loja onde ela trabalha traz os olhos do Doctor para si, uma vez que ela se encontra envolvida e, ao final, salva o dia. Ela decide começar a viajar com o Doctor e emenda em duas temporadas da série. Sua família, seus amigos e o seu namorado (que não é tão namorado assim) aparecem durante a série, tendo inclusive papeis relevantes para o andamento da trama.

Ao final do seu arco, fica conhecida por todos os cantos do universo como “Rose Tyler, defender of the Earth”, um título de suma importância para uma personagem que começou se sentindo tão pequena. Ela tem um envolvimento romântico com o Doctor, mas, diferente do que acontece em diversos outros produtos do tipo, esse envolvimento nunca é levado de forma sexual ou até enfatizado dentro da série. Ele existe, mas não é intrínseco à trama. Apesar de haver algum destaque para tal, a série (ou a personagem) não gira em torno do romance entre os dois, que praticamente só ganha destaque na despedida, quando Rose fica presa em uma dimensão alternativa e nunca mais irá poder ver o Doctor de novo.

Martha Jones era uma médica em formação quando acontece um evento no hospital onde ela trabalhava que faz com que esse hospital seja posto em perigo. Mesmo sendo jovem, ela se coloca dentro de ação no episódio e acaba quase morrendo ao se sacrificar para ajudar o Doctor, colocando-se em perigo para ajudar a pessoa que poderia salvar todos dentro do hospital. Ela também começa a viajar com o Doctor e, ao final do seu arco, ele acaba sendo posto em perigo mortal e cabe a ela salvar a terra e ao próprio Doctor.

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Linda, tão linda <3

Mais uma vez, há uma personagem feminina – e dessa vez negra, também – colocada em uma posição extrema de poder e com grande responsabilidade e que, no final de tudo, é a grande heroína da série. Isso tudo “apesar” dela não ser a personagem principal e também “apesar” dela ser somente uma humana, uma pessoa que não conhece a imensidão do universo e essas outras criaturas que nos cercam. Martha, ainda além disso, decide abandonar a TARDIS para viver na terra, tomando as rédeas da sua própria vida para ficar com a sua família, que também é importante para a trama de Martha e para as suas decisões em geral.

Esse mesmo efeito de uma pessoa comum ser aquela de maior importância para a salvação da humanidade acontece com Donna Noble, a terceira companion. Seu primeiro aparecimento na série é em um episódio especial entre a última temporada da Rose e a primeira da Martha e depois só volta a aparecer depois que esta sai da série. Já ali ela era somente uma secretária temporária de uma empresa enorme, uma em um milhão, mas que se envolve em um evento conclusivo durante seu casamento. Ela, apesar de ser uma personagem de voz forte, se encontra presa em inseguranças e acaba entrando em uma armadilha por um cara fingia lhe amar. Esse episódio foi um filler, então Donna deixa de aparecer por uma temporada para só depois voltar a ser a companion da série. Quando ela retorna, afinal, a personagem já se encontra totalmente diferente.

Estando ciente do fato de que existem seres fora da terra, uma vida no espaço, Donna tumblr_n33w1so5a41rndtl6o3_250começa a investigar acontecimentos estranhos onde ela acredita que forças alienígenas podem estar envolvidas. Dessa maneira, ela entra em contato com o Doctor de novo e começa a viajar com ele, os dois se tornando melhores amigos e, na série nova, é a primeira vez que temos uma relação Doctor/Companion sem que exista qualquer envolvimento romântico. A participação de Donna na série termina com ela sendo tratada no título de pessoa mais importante de toda a criação depois de ter salvo o mundo diversas vezes durante a sua participação na série. Outro ponto importante para Donna é a sua família, que tem tantos fatores de impedimento quanto de incentivo para a sua viagem com o Doctor. O seu avô, em especial, é tão importante que ele volta a aparecer na série, desconexo da própria Donna – que somente está no episódio como um elemento de tensão.

Nesse ponto acontece uma mudança marcante no seriado, onde entra o novo showrunner, Steven Moffat, que guia a série até hoje (apesar de já ter anunciado que a 10ª temporada será a sua última). Nesse momento, o foco do seriado também muda de maneira drástica, com todos os episódios sendo grandiosos em efeitos especiais e em luzes e brilhos. Eu gosto de falar que eles escolheram trocar bons roteiros e boas temporadas por dinheiro para efeitos especiais. Isso, claro, aumentou muito a popularidade da série (O que é ótimo! Quanto mais gente melhor!), mas a que custo? O entretenimento da série se tornou somente por puro entretenimento, luzes, explosões, tramas grandiosas enquanto a crítica, o texto, os personagens foram deixados de lado. E isso, ainda mais do que em qualquer um, se mostrou muito especial nas companions seguintes.

Amy Pond é a primeira companion dessa nova fase e ela vem apresentada de uma maneira completamente diferente das anteriores. O Doctor a conhece quando criança, no momento em que sua TARDIS cai no quintal da casa da garota. Problemas acontecem e ele só volta a vê-la anos depois, 12 anos depois, quando ela começa a viajar com o Doctor, mesmo tendo passado esse tempo todo fazendo acompanhamento psicológico exatamente pelo trauma que ele lhe causou quando criança.

Ao final da primeira temporada dela, o que são 13 episódios de mais ou menos 45 minutos cada, nós não sabemos muito sobre ela. Sabemos que ela tem um noivo, Rory Williams, que ela não tem certeza se quer se casar ou não e esse é o motivo dela decidir viajar com o Doctor – ganhar tempo. Durante a série, ela, afinal, toma a decisão de voltar para o casamento e, mesmo isso parecendo muito marcante, nós não sabemos o que fez com que ela tomasse essa decisão e se apaixonasse pelo seu noivo. Sabemos que, por algum motivo, ela não tem pais ou qualquer responsável cuidando dela quando criança ou quando mais velha. Esse motivo, entretanto, não pareceu importante de ser explicado.

Amy é utilizada como uma guia da trama em muitos momentos, sem ter quase nenhuma força ativa nos acontecimentos. E, além disso, há graves problemas de desenvolvimento de personagem durante as suas duas temporadas e meia. Esses problemas culminam com o momento em que Amy fica grávida, tem o bebê, este é sequestrado… E ela nunca mais cita o assunto. O Doctor fala para ela que tudo irá ficar bem, que ele vai resolver a situação, e então Amy decide que isso não é mais um problema. Ela não tem trauma, ela não tem apreensão, ela não tem preocupações. Sua filha é roubada e transformada em uma assassina, mas isso não a deixa apreensiva ou lhe dá nenhum tipo de preocupação. Tudo passa quando não é mais necessário para a trama.

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Eu também fico com essa cara pensando nessa trama, tudo bem.

Ao final da entrada de Amy na série, ela é enviada para o passado e fica presa neste depois de se sacrificar para seguir Rory, depois dele ter sido preso naquela linha do tempo.

Entretanto, o grande problema com as personagens femininas em Doctor Who chegou ao seu ápice com Clara Oswald. Clara é envolvida em uma trama onde, ao final de tudo, ela é “a garota criada para salvar o Doctor”. Literalmente, essa é a frase dita durante a série, é a frase que resume a sua personagem. A sua primeira aparição ainda não é na forma de Clara Oswald, mas na de Oswin. Ela é uma personagem que somente aparece em um episódio, um filler, quando o Doctor é enviado para um planeta com a intenção de destruí-lo e lá a nave de Oswin desabou. O episódio termina com ela se sacrificando para que ele possa sair vivo. O segundo episódio que ela aparece ainda não é na sua personagem fixa, outro filler, ela aparece como uma babá da na época vitoriana e sua participação é nomeada somente de Clara. Ela morre, mais uma vez, como um andamento de trama para que o Doctor consiga derrotar seu inimigo a partir da morte dela.

Então, finalmente, no sexto episódio da temporada ela entra definitivamente como a figura de Clara Oswald, uma garota sem nenhuma definição ou características marcantes que, ao que tudo prova, não parece ter praticamente nenhum tipo de família atual ou relevante para sua vida – apesar deles fazerem algumas aparições no fundo, eles nunca são citados como impedimento ou como parte integrante da personagem. A família de Clara não parece notar que ela está convivendo com pessoas diferentes, está desaparecendo ou está agindo estranha. É como se eles não existissem.

Ela começa essa nova fase como babá de duas crianças e, subitamente, em um episódio aparece como professora, sem nenhuma explicação. Ela já queria ser professora antes? Ela fez faculdade? Ela fez algum curso? Como ela conseguiu esse emprego? Isso não parece ser importante, o que interessa era que a série precisava de algum link com uma escola, então Clara se tornou professora.

Mas o ponto mais relevante para o sexismo e o estereótipo da personagem feminina é a maneira como ela é lida pelo próprio Doctor. O Doctor leva Clara consigo para viajar, por assim dizer, por pura curiosidade. Ele quer saber como ela continua morrendo, porque ela é impossível. Ela é um mistério de quem ele começa a gostar. Isso, é claro, sem ele dizer para ela que ele está interessado nesse mistério. Sem ele lhe avisar o que está acontecendo (tal como ele tinha feito com a gravidez de Amy) ou fazer a menor menção sobre o fato de que para ele, ela é um mistério e não uma pessoa.

No último episódio da temporada se tem a solução desse mistério. Clara, em um ato para salvar o Doctor, entra na sua linha do tempo de maneira a impedir que ele seja morto em todos os momentos de sua vida por um vilão, A Grande Inteligência. Com isso, ela sacrifica cada segundo, cada minuto e cada dia de sua vida se tornando a garota nascida para salvar o Doctor. Ela está presente em todas as encarnações do Doctor, se tornando, provavelmente, a pessoa mais importante na vida inteira dele. Uma mulher que se dividiu em milhares para poder salvar aquele amigo que precisava. Mas, no final, tudo o que importa é que esse era o destino dela. Afinal, ela foi “criada” para esse papel.

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Ela acaba não morrendo, no final, pois o próprio personagem ressurge das cinzas – algo jamais explicado e que não faz o menor sentido – e a salva de lá, como se ele tivesse sido todo o herói da história. O que ele não é. Clara não deveria ter que morrer uma imensidão de vezes para salvar a vida dele e ele não deveria deixar isso acontecer. Ele, acima de tudo, não deveria sair disso o grande herói da história. Clara foi quem fez todo o trabalho! Ela quem o salvou, ela que se sacrificou para que ele vivesse!

Afinal, ela sobrevive e no episódio seguinte nada disso é mais falado, feijoada. Ela não tem nenhum tipo de trauma de ter morrido uma centena de vezes, ela não tem medo de continuar em aventuras com esse homem por quem ela morreu uma centena de vezes. Ela nem pede um tempo. Nada.

Na temporada seguinte, Clara interage com um novo Doctor, uma vez que ele se regenera em um episódio de Natal (um péssimo episódio de Natal) e, por um milagre, as coisas parecem melhorar um pouco para ela. Sua vida começa a criar mais cor, ela se destaca mais e até alguns pontos da sua personalidade são mais explicados. Clara se torna uma pessoa no lugar de ser só um mistério. Ela ainda tem muitos problemas como personagem, principalmente pelo fato dela ter sido usada como uma Manic Pixie Dream Girl (uma personagem que só existe para ajudar personagens homens na sua trajetória sem procurar qualquer tipo de satisfação pessoal) na temporada anterior.

Ela começou a desenvolver uma personalidade e criar uma persona para os escritores datumblr_n10avhqzuw1rlr2dlo7_250 série – o que depende muito de quem a está escrevendo, já que parece que alguns entendem a personagem e outros não fazem a menor ideia de quem ela é, como o próprio showrunner, Steven Moffat. Nessa leva, ela ganha mais liderança e características. Inclusive, um dos melhores episódios da série acontece com Clara praticamente sozinha (Flatline, S08E09). Eu escrevi um pouco sobre a Clara já, aqui no blog, falando de um dos episódios de Natal onde ela aparece, Last Christmas.

Clara Oswald ainda fica mais uma temporada com o Doctor antes dela ter o seu final, que tal como qualquer outra morte no Doctor Who de Steven Moffat é alterada de forma a que ninguém precise sentir o peso de uma tristeza eventual. Ela se torna imortal, pega a sua própria TARDIS e começa as suas próprias viagens – o que eu acharia um spin-off excelente!

Então, agora, chegamos a Bill, que nos foi apresentada tão recentemente e já criou tantas expectativas. Bill, também, que vai ser apresentada em uma temporada que será a última do showrunner, de Steven Moffat, que é tão criticado por essa escrita falha de personagens femininas. Uma amiga minha falou que ela acredita que a personagem não tenha sido escrita pelo Moffat, que ela já seja o novo showrunner colocando as mãos em cima da série, uma vez que ela (e nem eu) acredite que Moffat seja capaz de criar uma personagem que já demonstra tanta personalidade em um vídeo tão pequeno.

Ela sendo, ou não, escrita por ele, Bill já demonstrou muito mais naquele clipe do que algumas das companions de Moffat demonstraram em temporadas inteiras. Ela apresentou um humor, um sarcasmo, uma maneira interessante de ver o que estava acontecendo com ela que, pessoalmente, me deixou intrigada para saber mais sobre a sua personagem. Suas roupas são interessantes, sua persona é interessante, o jeito como ela interage com o Doctor é interessante. Com a expectativa alta e a ideia de que só iremos ter um episódio com ela no ano que vem, só nos basta esperar e não tentar criar muitas barreiras para que a personagem possa se desenvolver plenamente.

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