Português de Portugal

coca cola

Subindo as ladeiras de Lisboa até conseguir chegar no ponto turístico desejado: Castelo de São Jorge. Foram alguns bons minutos de subida, o suor mesmo no frio grudava na pele por baixo das três camadas de roupa. Havia pessoas de todos os tipos ao redor, gente diferente, gente igual. Pessoas cobertas da cabeça aos pés, outros usando mangas curtas como se o frio não lhes incomodasse de forma alguma. Eu, acostumada aos 40º, sentia um frio subir na espinha durante toda respirada. Mas isso não era o suficiente para continuar com os casacos, cachecol, luvas e gorro – todos saindo bem devagar durante a subida.

Chegando no topo: a fila. Não era longa, mas era o suficiente para o cansaço consumir um pouco mais. Nisso, eu olho ao redor enquanto minha amiga e nossos outros acompanhantes conversavam em um inglês corrido. Parei e olhei uma pequena porta aberta, uma vitrine e uma loja de conveniência. Parecia um pequeno bar, na verdade, mas acredito que teria várias coisas lá que não tem em bares aqui. Portugal é um país estranho para se comprar coisas, nos costumes brasileiros. Falei que iria até ali comprar alguma coisa para beber, qualquer coisa que fosse. E fui. Entrei na porta, olhei para uma geladeira que ficava logo na entrada e localizei: Coca Cola Zero. A bebida que só eu tomo já que todos detestam.

Era uma garrafinha, algo bem tranquilo. Bem simples. Cheguei no balcão e havia um senhor lá, ele me cumprimentou com bom humor.

— Bom dia, senhor! Quanto custa a garrafinha de coca zero?

Ele me olhou confuso e mal sabia eu que essa pergunta iria iniciar um debate muito confuso. Mal sabia eu. Mal sabia ele. Mal sabiam os brasileiros que a “verdadeira língua portuguesa” é tão diferente da verdadeira língua brasileira, hue br. Ele me olhou confuso, sem entender muito bem a pergunta e eu esperei, sem notar que ele não tinha entendido muito bem a minha pergunta. Parecia uma coisa bem clara, simples. Mas não era, no caso.

— 330 ou 500? — O senhor me respondeu com outra pergunta que eu fiquei ainda mais confusa com. Que números eram esses? O que eles significavam? Seria isso algum tipo de código que portugueses utilizavam para saber quem não era local?

— Hm, eu quero a garrafinha. — Respondi, de novo, querendo tentar passar a mensagem mais diretamente. Quem sabe eu fosse conseguir, quem sabe não. Ele pareceu ficar confuso do mesmo jeito e me fez a mesma pergunta novamente, aquela que eu não sabia como responder. — Eu quero aquela garrafinha, que está na geladeira, moço. — Já estava quase pedindo por favor quando ele finalmente entendeu e fez um barulho de compreensão.

Aquele som foi como o soar dos sinos de abertura dos céus.

Ele me falou o preço e eu paguei. Peguei minha garrafinha e fui embora, ainda extremamente confusa.

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Atravessar um Oceano de Avião é Muito Louco

viajar

Da primeira e última vez que eu escrevi sobre viajar sozinha eu comecei o texto falando como era uma sensação estranha a de estar tomando esse passo. Hoje, bastante tempo depois, eu peguei outra viagem sozinha. Não foi a primeira dessa sobre a qual escrevi, mas foi a primeira para fora do país. Não só para fora do Brasil como também para outro continente! Atravessei um oceano inteiro! Eu já comecei a ficar me sentindo uma vitoriosa só por ter conseguido ficar nove horas sentada em um avião, atravessando o oceano Atlântico inteiro. Era incrível, apesar dos temores de acidentes e explosões que uma pessoa que ouve notícias de jornal demais sempre deve ter. (Ao menos eu tenho, né, vai saber o que vai acontecer.)

Eu desci do avião em Madrid somente para fazer a transferência e só de respirar o oxigênio do outro lado do mundo. Era uma sensação estranha de desconhecimento. A língua que as pessoas falavam ao meu redor era diferente, todas correndo e me atravessando com diferentes sotaques e menções. O jeito como os objetos se colocavam no aeroporto eram diferentes. Olha, o aeroporto de Madrid tem até um trem dentro dele! Um trem que conecta as duas plataformas (ao menos eu acho que são, espanhol é difícil!) do aeroporto foi muito animador enquanto eu me preocupava se as minhas malas tinham sido perdidas e carregava todas as minhas coisas com um frio congelante. Como faz frio nesse inferno de lugar, por tudo que é mais sagrado!

Estar no aeroporto em solo espanhol foi uma sensação de nervoso atrás da outra. Primeiro nervoso sem saber pela minha bagagem, depois nervoso por estar ansiosa pelos questionamentos, depois não conseguir achar o portão de embarque para o próximo voo. Até uma máquina de suco de laranja automática estava me deixando nervosa por eu não saber se ela iria me dar troco de verdade ou só engolir o meu dinheiro. (ALIÁS QUE MÁQUINA MARAVILHOSA, pena que eu nem bebi dela.) Ao final, acabei não fazendo absolutamente nada além de ficar sentada na frente do meu portão esperando a hora de embarcar para o meu próximo voo, de Madrid para Lisboa.

Outro aeroporto logo depois e mais confusão. Apesar de Portugal e eu falarmos a mesma língua, eu não conseguia entender absolutamente nada do que as pessoas diziam. Todos pareciam estar correndo e falando com uma batata enorme na boca, mas acabei me acostumando à “verdadeira língua portuguesa” como a xenofobia local já me fez entender. Era tudo estranho e diferente, tudo complicado e acontecia com uma rapidez diferente do que eu estava acostumada a lidar com. E, olha, o Brasil é bem rápido! Só que aqui parecia haver uma rapidez lenta, uma maneira diferente de estarem todos correndo.

Eu me encaminhei andando com passos firmes e inquietos na direção do lugar onde pegaria a minha mala. Aqueles pensamentos comuns de que a minha mala certamente teria se perdido no trajeto me pegando pelo cangote, claro. Acho que não tem como você viajar sem ficar pensando nisso, mesmo que seja uma viagem pequena. Imagina em uma viagem grande! Parece repetitivo, mas eu CRUZEI O OCEANO! Esperei ao lado das esteiras por bastante tempo, inquietude tomando o lugar da calma que eu tentava transparecer. Com um barulho de queda, a mala despencou pela esteira rolante e eu lhe peguei como se ela pudesse ser roubada naquele instante. Minhas coisas, todas minhas!

Mas, no final, viajar sozinha foi uma sensação estranha, especialmente para uma viagem tão grande. Tudo parecia se revelar na minha frente como uma flor que se abre na primavera. E quando eu encontrei quem vinha me buscar nos portões do aeroporto e fomos tomar um starbucks, senti um alívio de quem tinha passado por uma espécie de vitória.

Melhor, Pior, Um pouco

melhor

Um pouco melhor do que ontem.

O dia seguinte sempre parece um pouco melhor do que ontem. Sempre parece um pouco diferente do que ontem. Sempre parece um pouco mais novo do que ontem. Mesmo que nada mude, mesmo que tudo fique igual. Mesmo que eu faça as mesmas coisas e mantenha a mesma rotina. Mesmo que eu não faça tudo o que eu disse que ia fazer, como antes. Mesmo que eu continue fazendo o que eu disse que não ia fazer.

Eu disse para mim mesma que iria parar de pensar em você. Porém, isso é algo que nunca muda do dia de ontem para o dia de hoje. É algo que eu nunca vou conseguir mudar, pelo meu entendimento da questão. Mas eu esperava que o conhecimento do fato fosse me ajudar em alguma coisa. Eu esperava que o saber dessa situação fosse me deixar, ao menos, mais confortável.

A sensação de nervoso, agora, toma conta. Um medo de que nada nunca vai poder ser como eu quero que seja, como eu gostaria que fosse. Uma ânsia de conseguir falar as coisas que não consigo falar – ou que não devo falar. Uma dor de estar presa dentro dessa situação da qual não conseguia me livrar ou me sentir suficiente para estar dentro. A sensação de inadequação de sempre me sentir a segunda opção. A agonia de sentir tanta coisa e não conseguir falar nada sobre, de sentir tanta coisa e saber que eu não devia falar sobre nada disso.

Como uma mão ao redor da minha garganta, eu só me sinto afogar dentro dessas sensações cada vez mais. Entretanto, ao mesmo tempo, eu me sinto melhor do que ontem. Como se, enquanto eu fazia isso tudo, eu só conseguisse criar mais um pouco de uma espécie de sensação de sobrevivência. Se eu podia sobreviver a isso, eu podia sobreviver a qualquer coisa.

Ultimato

ultimato

Eu queria conseguir fazer muitas coisas. Queria conseguir voar, às vezes. Poder escapar desses pés mundanos que me prendem no chão enquanto tudo que eu procuro parece estar em outro lugar. Queria conseguir ficar invisível, para poder fugir de todas as pessoas que me fazem mal, sem precisar contornar nada ou enfrentar nada. Queria conseguir ser capaz de não sentir nada. Não sentindo nada, você não sofre. E não sofrendo, você não sente. É um círculo que se completa, de uma maneira ou de outra. Se completa em dor, em desapontamento, em quebras, em silêncio e, acima de tudo, em um amor que machuca mais do que ama.

Eu queria poder não sentir isso por você mais. Eu queria poder voltar na época em que isso era uma coisa boa para mim. Em que eu me sentia bem por te amar e por você me amar de volta. Voltar a época em que eu ainda acreditava nessa falácia do desenvolvimento humano, na existência de um amor bom. Não há nada de bom nisso. Não há nada de bom em amar e só sofrer em resposta, em amar e não ser amado de volta. Em amar e só se sentir sendo colocado de lado o tempo todo. Eu preferia não sentir, sendo que é para sentir assim.

Preferia não sentir nada. Preferiria me sentir vazia.

Acima de tudo, o que eu queria conseguir fazer era conseguir impor as coisas que eu preciso fazer acima do que eu sinto. Eu queria conseguir me afastar de você, como eu sempre achei que precisei e como sempre me disseram para fazer. Eu queria conseguir ser uma amiga melhor para você, ser uma pessoa melhor. Só que eu não consigo ser nada enquanto estou presa dentro dessa esfera de dois lados completamente inversos. Não consigo deixar de me sentir mal por certas coisas que te deixam feliz e, ao mesmo tempo, não consigo me sentir feliz por você estar feliz. Não consigo me desprender e… Viver.

Me sinto presa e cada vez mais presa dentro disso.

Ao final, tudo o que eu queria poder fazer era poder te dar um ultimato. Poder te dizer que é isso ou isso e ponto final, que não irá mais haver nada depois disso. Dizer que ou você me escolhe ou você me deixa ir, me deixa em paz.

Entretanto, mesmo querendo, mesmo desejando, mesmo tendo as palavras prontas na ponta da língua… Não vou falar nada. O medo de que escolha a opção de me abandonar é maior demais para que eu faça qualquer coisa. Medo que paralisa, que congela e que faz com que essa espiral não pareça tão ruim assim. Porque, no final de tudo, é melhor sofrer e ter algum pedaço de ti do que sofrer e não ter nenhum.

Menor Invisível

menor invisivel

Um garoto estava sentado no ponto de ônibus. Ele usava a camisa do uniforme, branca e com traços azuis. O símbolo da prefeitura do Rio de Janeiro no peito. Ele tem uns shorts rasgados na barra e um tênis velho, uma mochila no ombro e um cabelo cortado bem rente. O ponto de ônibus é em São Conrado, ele está indo para a escola. São seis e meia da manhã e ele já está atrasado e impaciente. Sentado no ponto de ônibus, ele balança as pernas enquanto esperava que o seu ônibus chegue. Atrás do Fashion Mall, shopping chique demais, e do outro lado a avenida.

O ponto estava meio cheio, mas à medida que os minutos passavam e os outros entravam em ônibus que não serviam para o garoto. Moleque, ele queria o ônibus de ar condicionado que antes era cinco reais e agora é três, que nem todos os outros. Queria o ônibus chique, só de ostentação. Então ele balança as pernas sentado e espera. Mesmo estando atrasado, dava tempo. O ônibus ia passar logo. Sobrou só ele e uma outra pessoa no ponto de ônibus. E o ônibus-ostentação-ar-condicionado vem chegando bem rápido. O garoto levanta e pede para o motorista parar.

O motorista não para.

Ele volta a se sentar no ponto de ônibus, se perguntando o porquê dessa sacanagem. Do lado dele, uma moça está sentada. Ela também tem uma mochila, também usa shorts e uma blusa branca. Só que na blusa branca dela tem um símbolo em inglês e a mochila é Jansport. O sapato dela é Arezzo, o short da Zara e o celular iPhone. Ela tem cabelos longos e com luzes nas pontas, passando do marrom para o loiro. É mais velha que o garoto, deve estar no último ano da escola bilíngue. Ele acha estranho, porque na cabeça dele gente rica tem motorista.

Mas ele volta a olhar esperando o ônibus porque não tem nada a ver com isso. Já tem notícia ruim no jornal demais para ele ficar encarando moça rica em ponto de ônibus. Ficar encarando gente riquinha nunca é uma boa ideia para gente sem nome que nem esse garoto, anônimo negro estudante de escola pública. Vai saber quem é o próximo que é apreendido e culpado por morte de ciclista na Lagoa, ou assalto à celular no Leblon. Mais um menor para justificar uma ideia de justiça e vingança.

O garoto preferia focar no ônibus ostentação que ele estava esperando. Continuou balançando os pés e esperando, então, enquanto olhava para frente. Enquanto ele fazia isso, uma viatura de polícia passou na sua frente. As rodas da viatura rodaram e começaram a rodar mais devagar, até que pararam, alguns metros na frente. Então elas rodaram para o outro lado e a viatura parou na frente do ponto de ônibus. Os dois policiais desceram, um deles com uma arma grandona presa ao redor do corpo dele. Não estava portando, só carregando. O garoto não olhou para eles, mas ele já sabia o que ia rolar. O que não estava armado chegou nele, assustando a menina do lado.

– Deixa eu ver o que ‘cê tem nessa mochila, garoto.

Não era um pedido, era uma ordem. O garoto tirou a mochila do ombro e a menina levantou, o ônibus ostentação estava chegando. Ela fez sinal e mesmo com aquele auê todo acontecendo no ponto, o ônibus parou e ela entrou. Lá dentro o motorista perguntou para ela o que tinha acontecido e ela falou que os policiais tinham visto aquele pivete e ela nem tinha reparado que ele estava lá.

No ponto, o garoto só passou para o policial a mochila dele, sem marca e com um dos zíperes quebrados. Agora ele ia chegar atrasado na aula e a tia não ia deixar ele entrar. Sacanagem. O policial abriu a mochila e revirou tudo lá dentro. Estava procurando faca, tesoura, canivete, arma, droga. Qualquer coisa. O garoto nem sabia mais direito o que poderiam estar procurando. O policial colocou a mochila do garoto no banco e pediu para ele levantar. Revistou e não achou nada, estava tudo limpo. Algumas perguntas depois, os dois voltaram a entrar na viatura e foram embora.

Nisso o outro ônibus ostentação passou e o garoto fez sinal de novo. O motorista passou direto de novo. Tinha tido assalto a ônibus passando na televisão ontem. O próximo ônibus sem ostentação, sem ar condicionado, sem nada que passou o garoto pegou. Ia perder o primeiro tempo da aula, mas ao menos ia chegar. Se chegasse não tinha como sair no jornal que ele tinha abandonado a escola. A professora ia reclamar que não tinha tesoura sem ponta, ela tinha pedido na semana passada, mas sem ter tesoura não tinha como aparecer na televisão que o menor estava portando uma tesoura.