You’re Terminated!

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Quem é mais assustador, afinal?

Quem me conhece sabe que eu sou aficionada por O Exterminador do Futuro. Eu vi todos os filmes, li todas as informações que eu poderia colocar as mãos em, vi o seriado (que até hoje é um dos meus seriados favoritos).21 de Abril de 2011 foi um dia em que eu realmente fiquei preocupada e quando não havia nenhuma menção a um ataque a todas as nações do mundo na mídia, eu fiz o sensato e fui fazer uma maratona de todos os filmes de novo.

Em resumo, eu gosto muito de Exterminador do Futuro. Quer dizer…

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Passando por isso, eu só posso dizer que eu fiquei muito feliz em conseguir pegar o livro em capa dura com a cara linda do T800 para ler, aquele maravilhoso da Darkside Books que eu (ao menos eu, não sei vocês) sempre fiquei babando nas livrarias. Quer dizer, existe alguma coisa melhor do que explorar ainda mais um universo que você já gosta? É como receber um bilhete premiado pra uma loteria que você já sabe que vai ganhar. Até porque mesmo que fosse um livro ruim, eu iria conseguir tirar alguma coisa de importante ou relevante lá de dentro.

No caso, não é um livro ruim. É um livro incrível! Desde a edição e a formatação do livro, a forma como os capítulos são iniciados e as interrupções da interface do Exterminado nas páginas, até o texto que conta a história em uma versão romantizada do roteiro original, de 1984. Esse fato faz com que não haja muitas diferenças de trama ou de andamento, claro. Não há grandes surpresas no conteúdo e no seu andamento. Isso, inclusive, é uma coisa que me fez achar que o livro pode se comunicar com até o leitor que não conhece a saga, aquela pessoa que, por algum motivo, nunca viu nenhum dos filmes. Ou seja, estava presa dentro de uma caverna. Só pode ser, né?

Para a pessoa que já conhece a história e, ainda por cima, conhece o primeiro filme muito bem o livro pode parecer um pouco monótono. Afinal, nada é mudado. As falas são iguais, os cenários se repetem, os personagens se movem da mesma forma. Mas o jeito como é desenvolvido o ambiente faz com que o livro seja um grande acréscimo, um adendo muito importante para quem aprecia essa história, principalmente na questão da recriação do universo em que o filme está inserido. No caso, esse universo é o ano de 1984. Desde a citação de marcas, estilos musicais, filmes e todo o espírito que havia nos anos 80, o livro faz questão de te imergir nessa década e nesse ano. Isso acontece, principalmente, pelas narrações de Sarah Connor que, acima de tudo, é uma garota criada naquela época e que está sendo inserida em uma época muito maior. Tal como no filme, Sarah é uma pessoa comum. Ela tem um trabalho comum, uma vida comum, se veste que nem uma garota comum e está tendo um dia de cão.

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#VDM

Essa pra mim é uma das melhores partes do Exterminador original, tanto filme quanto neste livro: O fato de que Sarah Connor nada mais é do que uma pessoa comum presa em um trama inimaginável. Afinal, não é todo dia que uma mulher descobre que a sua vida está em perigo porque ela, no futuro, vai ser mãe do escolhido para salvar a raça humana do apogeu das máquinas. É o tipo de coisa que faz você surtar um bocado, ter certeza que essas pessoas estão malucas e ainda fazer questão de tentar ao menos conseguir saber se há alguma possibilidade daquilo ser verdade.

O fato de Sarah ser uma mulher normal, uma pessoa comum, para muitos pode ser um clichê ou um problema. Inclusive, o livro apela para alguns clichês bem desnecessários que demonstram, talvez, uma incapacidade dos autores de entender como mulheres funcionam. Como, por exemplo, a citação de uma espécie de “consciência” externalizada para Sarah no formato das chamadas “Sarinhas”. Eu imagino que na cabeça do escritor todas as mulheres talvez tenham pequenas versões delas mesmas em desenho animado dando opinião sobre as coisas ou sapateando – algo bem Anastasia Steele, diga-se de passagem -, mas, ao menos, as Sarinhas não fazem muitas aparições na história. Poderiam ter sido cortadas na edição que só deixariam o livro melhor.

Apesar delas, o fato de que Sarah é uma mulher comum (com futilidades, vulnerabilidades, problemas de autoestima, etc) só faz com que a personagem cresça muito mais do que personagens que já nascem sendo grandes. Sarah teve que aprender tudo o que ela passou para frente – sozinha. Ela saiu da sua vida comum, onde tudo estava ao seu alcance, para uma onde ela tinha que lutar contra pessoas (ou ciborgues) que estavam tentando lhe matar. Ela saiu do seu emprego de garçonete para ter que aprender a lutar, manejar armas, fazer curativos, dirigir agressivamente e viver fugindo. Isso tudo enquanto ainda cria um filho e o prepara para o apocalipse impossível de parar.

Afinal, o Judgement Day vai acontecer independente do que ela fizer ou deixar de fazer. Não existe como impedir o Judgement Day ou o apogeu das máquinas. Isso vai acontecer no universo de Terminator. (E eu, infelizmente, também acredito que vai acontecer no nosso universo, é uma daquelas coisas que me deixa mais interessada ainda por essa história e mais apavorada ainda quando eu leio notícias de inteligencias artificiais sendo criadas e coisas loucas assim.)

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O que o Judgement Day diz toda vez que falam que ele acabou ^

Esse desenvolvimento da Sarah é o que dá mais gosto de ler o livro para acompanhar. No filme, ele está presente, mas ele é sutil. No livro é claro enquanto acompanhamos o seu ponto de vista e vivemos a sua agonia em ver todo o seu universo desabar. Sarah Connor se torna muito mais do que uma mulher fantástica, ela se torna uma guia para que nós mesmos consigamos entrar no mundo do Exterminador. Este que, inclusive, é a causa e efeito para todas essas mudanças. Afinal, se ele não tivesse vindo até o passado caçar Sarah, então Reese também não teria vindo salvá-la. Então John Connor não teria nascido. Mas, ao mesmo tempo, sem o Exterminador em 1984 a Cyberdyne Systems não teria sido criada e a Skynet não existiria do jeito como ela existiu.

O paradoxo já é presente em todos os filmes da saga, tanto nos bons quanto nos ruins, mas é ainda mais claro no livro enquanto os autores tentam explicar como ele funciona. Ao mesmo tempo, corre pelas palavras do texto a ideia de que esse futuro é inevitável. Que apesar deles repetirem que nós fazemos o nosso próprio destino, que até Sarah poderia fazer o seu próprio destino, isso não é exatamente real. Afinal, se há pessoas vindo do futuro para mudar coisas, o quanto desse futuro já não está marcado em aço? Como eles poderiam ir ao passado tentar alterar o futuro sem danificar as suas próprias existências? Ou será que os eventos da vinda do Exterminador para 1984 só agilizaram o Judgement Day? Será que os eventos do livro só modificaram o inevitável ou criaram o inevitável?

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Essa foto, afinal, que importância ela tinha no tempo e do espaço?

Como Sarah mesmo aponta: Dá para enlouquecer pensando nesse paradoxo.

Mas depois de Sarah a melhor parte do livro é o grande criador de toda essa confusão. O Exterminador e as suas cenas, as suas interações, trazem vida à história – apesar dele ser uma criatura só meio viva. O ciborgue, muito bem explicado pelos autores, é apresentado da forma mais visceral que eu poderia esperar ler. Ele é uma máquina e em nenhum momento se supõe diferente. O texto que o engloba é lido de uma forma diferente, as palavras são manuseadas de maneira diferente, formando frases que passam a frieza dos atos do Exterminador. Mesmo quando há aquelas frases de efeito já esperadas para esse tipo de personagem e esse tipo de franquia, ela é feita de forma maquinal.

O melhor exemplo disso par amim é um dos seus últimos capítulos, onde o Exterminador está fazendo uma checagem de seus danos e calculando quanto tempo ele ainda pode durar com a sua célula de energia nuclear. O capítulo termina de uma forma bem simples: “O Exterminador ainda duraria muito, muito tempo. As moscas, já se fartando da pele em decomposição do ciborgue, ficariam felizes em ouvir isso”. É sutil lembrar que o Exterminador é uma máquina, é simples, é abordado o tempo todo. Mas o elemento humano que o rodeia é o que mais destaca na sua criação. Afinal, o Exterminador é uma máquina de morte, mas mesmo ele precisa de uma sobrepele humana. Precisa carregar essa pele morta, esse sangue injetado, essa vida morta que lhe dá uma aparência e lhe confere a habilidade (falha) de se mesclar ao nosso redor.

Ao final do livro, quando ele começa a morrer, você se pergunta o que afinal significaria estar vivo para um Exterminador. A sua pele era um tecido vivo, mas que não tinha nenhum ligamento com o metal morto que ele carregava. O seu objetivo, matar Sarah Connor, era somente isso, mas também era algo que estava lhe guiando. Algo que estava lhe fazendo levantar e seguir. De certa forma, uma subvida que tinha sido dada a ele por uma ordem superior. No fim das contas, o Exterminador é, de certa forma, como a vida, imagino. Um ser que não pode ser barganhado com, que não sente piedade ou remorso ou medo e que absolutamente não vai parar até que você esteja morto.

Meio mórbido, mas interessante. O contraste entre a Sarah e o Exterminador, antagonistas completos, forma um arco excelente e uma leitura tão boa quanto uma experiência vendo o filme.

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Filme de Espião

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O trem corria pelo seu caminho determinado, cortando a mata e o campo que já tinham sido cortados para ele antes. Trens sempre pareciam estar abrindo caminho, imponentes e determinados a ultrapassar velocidades, mas na verdade eles só estavam percorrendo a mesma coisa que outros fizeram antes. Seguindo um caminho determinado – um trilho – e chamando aquele caminho de seu. Trens são grandes plagiadores, de certa forma. Ou era isso que refletia Marília enquanto olhava pela janela. Ela não tinha nenhuma intenção de estar naquele veículo, mas não tivera muita escolha. Era onde estava agora e nada poderia mudar.

Pessoas passaram do outro lado da porta da cabine privativa que ela estava dividindo com aquele estranho e Marília levantou os olhos para acompanhar os vultos. Seus dedos foram para o colar que tinha enrolado ao redor do pescoço. O pingente parecia parte da corrente, ele parecia ser uma grande continuação daquele ferro gelado. Era lindo, mas, ao mesmo tempo, uma lembrança incômoda de outros tempos para os quais ela nunca iria poder voltar. Ela e o estranho estavam buscando novos caminhos e, também, estavam sendo obrigados a buscar. Ela pelo simples fato de que a vida como ela conhecia não existia mais. Ele porque era o seu trabalho. Marília suspirou passando as mãos pelo cabelo em um gesto de confusão e o homem, sentado na sua frente, levantou os olhos azuis para lhe encarar.

— What’s wrong, Marília? — Ele questionou, seu sotaque saindo de um filme que ela tinha visto há muito tempo. O inglês era intragável para ela, pensando em português, sentindo em português, respirando em outro sentido completo. Marília estava completamente deslocada de qualquer coisa que pudesse conhecer. Ele não falava a sua língua, ela falava a dele por um simples fator de globalização. Se pudesse escolher, nunca teria saído do Brasil. Não pudera escolher, agora estava envolvida nessa história. Espionagem, mistério, vingança, agentes secretos. Tudo começou em uma tarde quando Marília estava escrevendo, na sua casa. Ela só queria poder voltar para aquela tarde e não ter feito nenhuma daquelas palavras vir a vida.

Bond, James Bond; era como ele tinha se apresentado. Como em todos os filmes e novelas, ela logo se viu envolta naquela trama de mistério que não poderia escapar. Apesar dos seus motivos não serem muito claros, ela lhe acompanhou para outro continente e foi com ele tentar desvendar aquela história, aquele crime. Marília era uma Bond Girl por obrigação literária. Estava presa em uma história escrita por outras pessoas, pessoas que não faziam a menor ideia como mulheres funcionavam. Ela suspirou, pensando em todas as coisas que poderia estar fazendo naquele momento. No lugar, ela estava escrita que deveria ter tensão sexual com James acontecendo. Então Marília piscou longamente, seus cílios avantajados pelos postiços brilhando enquanto olhava para o homem à sua frente com um olhar desejoso.

Ela não sentia nada disso, mas a mão divina escrevendo a cena queria. Então acontecia. Marília, infelizmente, não tinha escolha.

— James. — Ela lhe chamou, sua voz soando como veludo, bem diferente do timbre que Marília geralmente teria. Ela tinha uma voz sonora, sim, mas era esguia, firme, pontiaguda. Não esse tipo de voz que seduz, que abraça o ego de um homem com carinho. Marília não tinha paciência para o ego de homens. Mas o escritor queria que ela tivesse, então, naquele momento, ela teve. Ela passou uma das mãos pelo lado do cabelo, colocando uma mecha que tampava a sua visão para trás da orelha. Seus dedos encostaram no seu rosto enquanto descia, de leve, passando os olhos pelo homem na sua frente. Ele tinha um corpo bem cuidado, porém comum. Era um herói de cinema comum. Mas o escritor queria que ela o achasse incrível, então ela achava.

Suspirou novamente, resignada. Adiantava lutar quando tinha sido sugada da sua realidade plena para uma realidade bidimensional? Quando tinha deixado de ser uma mulher de carne e osso para se tornar uma versão de escrita pobre em um blockbuster? Como isso aconteceu não faz diferença nesse ponto, não para Marília. Ela só queria voltar ao seu normal. Mas isso talvez só acontecesse ao final do mistério. Ou nem acontecesse. Afinal, o que acontece com Bond Girls nos novos filmes? Elas morrem muito. Marília não queria morrer, mas também não queria estar aqui. Ela não tinha nenhum controle da sua narrativa mais. Tudo isso estava com o escritor. — I’m not controlling any of my moves, James. What can I do? —, confessou em um questionamento. Talvez Bond, o grande agente secreto, pudesse resolver o seu problema.

Ele lhe sorriu, como se tivesse ouvido uma coisa totalmente diferente. Talvez fosse o tom romântico que ela tinha dito, um tom forçado dentro daquela estética. O escritor queria que fosse assim, então era assim. Afinal, James levantou e colocou uma das mãos ao lado do seu ombro no banco. Ele tinha um sorriso sedutor no rosto e Marília se perguntou se ele também não queria fazer aquilo. Se ele também estava sendo obrigado a fazer pela mão que tudo escreve. Novamente, ela colocou a mão sobre o colar, como se ele guardasse a chave para que saísse dessa realidade. Talvez ele tivesse um broche da mesma forma que também fosse o que lhe prendia a esse plano. Bond lhe roubou um beijo e a trilha sonora sobe, emitindo que é a hora para a cena romântica do filme. Do jeito como o roteirista quer.

Crise de Criatividade

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Nevermore!

A palavra escrita no papel fazia com que ele sentisse alguma coisa vindo pelas suas entranhas, como se as palavras do antigo poeta fizessem alguma diferença na sua falta de ideia de como escrever e o que colocar no papel. Como se a força das palavras antigas criasse dentro dele uma nova imagem e uma nova forma, podendo esta se transformar em palavras que surgissem como uma história na sua mente. Ele apagou o cigarro que tinha pendendo nos lábios dentro do vaso de plantas que, ultimamente, vinha se tornando mais um cinzeiro. As folhas mortas na sua frente, sem água e sem brilho, lhe deixavam um pouco melancólico. No entanto, melancolia é algo bom para se escrever sobre, não? Todas as grandes histórias são sobre melancolia, são sobre tristeza. Se ele pudesse ver vocês, seus leitores, ele perguntaria se vocês conhecem alguma história marcante com um começo feliz ou que conte uma história de felicidade presente. Lázaro seria o primeiro a dizer que não há e o primeiro a dizer que não há necessidade de haver também. Histórias são escritas na base de lágrimas e de sentimento. Felicidade é um sentimento comum, é um sentimento que acontece na vida e que todos conhecem, não é a mesma coisa de descobrir um sentimento novo ou de desenterrar algo que vá te levar às lágrimas.

Talvez fosse isso que faltasse a ele para que conseguisse escrever. Um sentimento verdadeiramente avassalador, uma coisa que fizesse com que ele notasse que a verdade estava presente dentro de todas as coisas. Só que ele não sentia nada, ultimamente. Olhava a tela do computador onde escrevia, olhava aquelas palavras que se embaralhavam na sua mente, e não sentia nada. Seus cinquenta e sete anos batiam sobre a barriga de chopp que vazava por cima das calças e ele começava a sentir o peso dos vinte anos de cigarro nos pulmões. Ele, quando no bar, quando na rua, quando com os amigos, parecia uma pessoa comum, uma pessoa ordinária e normal. Nada muito diferente do que se espera de alguém que venha andando na rua na sua direção e passa ao seu lado sem te fazer pensar. O problema, na verdade, era que ele sentia como se fosse assim o tempo todo, como se ele sempre tivesse sido dessa maneira e com essa formação. Como se nada tivesse adiantado dentro da sua vida para que fosse algo diferente. Como se ele nunca tivesse sentido nada na vida, nada que fizesse diferença dentro das palavras de seus livros.

Ele sentia que nunca havia vivido de verdade.

Sentia como se tivesse deixado sua vida passar pela sua frente sem falar nada, sem fazer nenhuma resistência ou tentar mostrar que estavam errados. Mostrar que todos que falavam que ele tinha que sair de casa mais, que tinha que fazer mais amigos, que tinha que mudar seu jeito de ser estavam errados. Afinal, eles estavam certos.

Seu médico dizia que esses pensamentos eram sintomas da depressão que ele vinha tentando combater com remédios. Com aquelas doses fracas de prozac e zoloft, os remédios que faziam com que ele se sentisse tão vazio. Esses remédios o ajudavam a viver, de acordo com o médico que havia lhe passado o diagnóstico. Eles lhe ajudavam a não querer deixar as coisas do mesmo jeito, a não querer que as coisas continuassem iguais. Lázaro, no entanto, só achava que eles pioravam as coisas ao invés de melhorar. Eles o deixavam dormindo na maior parte do tempo, eles o deixavam sem conseguir sentir qualquer coisa que fosse. Seja o toque do mosquito que lhe picava o braço, fosse a dor por conta da borboleta azul presa na parede. Aquele azul lhe feria os olhos pela manhã, trazendo lembranças de volta a tona como um furação, como um tufão de sentimento. Ou ao menos costumava ser assim, costumava… Faz muito tempo. Faz quase tanto tempo quanto o que tinha feito que ela fora embora. Não era, uma mulher, uma amante ou uma esposa. Ela, sua mãe. Lázaro sentia falta de sua mãe, de sua amada companhia. Ela tinha morrido quando ele havia feito trina te tantos anos, mas parecia que havia sido ontem. Parecia que ela morria todos os dias de manhã e que continuava morrendo à medida que as horas passavam por ele. Parecia que ela continuava morrendo todos os minutos do seu dia. Ele pensava em tirar o quadro da parede, mas só de chegar perto dele, sentia seus dedos tremerem.

Enquanto isso, não conseguia escrever. Não conseguia colocar as palavras no papel como queria que estivessem. Não conseguia cumprir com os desejos do editor que queria um livro novo para colocar nas prateleiras da livraria. Até agora, só aquele gralhar do corvo havia sido colocado na folha figurativa do computador. Nevermore!, ele gralhava e Lázaro repetia as palavras na sua cabeça, pensando se pegar o livro do texto para ver se ele lhe trazia alguma ideia melhor. Aquele livro de Poe na sua estante com suas leituras preferidas, com sua escuridão preferida.

No entanto, ele só se colocou na frente da janela, puxando sua cadeira para sentar ali perto, enquanto via a vida passar e os pássaros de metal voarem no ar. O som do aeroporto ali perto fazia com que ele sentisse a vida entrando pelos seus pulmões, como se pudesse sentir a essência das pessoas indo e vindo. Pessoas encontrando suas famílias e se encontrando, pessoas indo embora e voltando, pessoas… Se movendo, crescendo, mudando, largando e pegando de volta.

Então a ideia veio.

E o som do teclado fez com que todos os outros sumissem na sua frente.

Nevermore!

A diferença entre argumentos e “lacração”

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Como uma pessoa que tem o costume de entrar em discussões na internet, eu acho que convivo um pouco com algumas coisas que considero as piores coisas da internet inteira. É chuva de gente falando coisas completamente absurdas e disfarçando aquilo de opinião, de gente não sabendo argumentar, de gente atacando os outros em prol dos seus próprios preceitos (e esquecendo que do outro lado da tela tem uma pessoa de verdade que tem sentimentos de verdade). Mas, acima de tudo, eu geralmente me esforço para argumentar com as pessoas com quem eu estou discutindo e tentar fazer elas entenderem o porquê de eu estar discutindo com elas.

Não faz muita diferença para mim se eu consigo mudar a mentalidade da pessoa, desde que ela entenda porquê eu tirei tempo do meu dia para discutir com ela. Ou seja, que essa pessoa seja capaz de entender que a opinião dela fez com que algum dos meus valores tenha sido afetado pelo seu comentário. No caso, vale dizer que eu geralmente discuto na internet porque alguém está sendo LGBTfóbico ou machista, esses dois são os principais motivos que me levam a discutir com os outros. Especialmente no grande reino chamado de Sessão dos Comentários em Portais de Notícias.

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Isso é uma pessoa falando bosta pra eu discutir?

Mas esse texto não é para falar sobre como eu faço discussões na internet, porque eu tenho a consciência limpa sobre a forma com que eu falo com as pessoas. Ok, sou um pouco grossa as vezes, mas eu tento ao menos. Esse texto é para falar de 5 coisas que sempre que eu vejo sendo usadas em ativismo online eu tenho vontade de abandonar a internet para nunca mais voltar. Essas 5 coisas que, inclusive, são usadas por pessoas que geralmente eu concordo com, mas que, acima de tudo, não são argumentos. Essas coisas são, no caso, frases de efeito que viraram quase tema em discussão na internet. São frases “lacradoras” que as pessoas usam achando que estão tacando o microfone no chão e sendo fenomenais – só que na verdade estão deixando de argumentar em prol de likes e de se achar.

Sem mais delongas, elas são:

  1. “Seja menas”.
  2. “Não estou aqui para dar biscoito para macho”.
  3. “Vai estudar”.
  4. “Chora mais” e todas as suas infinitas variações.
  5. “Cala a boca, macho” e as suas também infinitas variações.

Qual é o problema dessas coisas? De boa? Elas enfraquecem um diálogo. Uma coisa que muita gente não parece entender sobre ativismo online (e, de boa, eu não sou a rainha do ativismo e nem estou aqui para ditar as regras da internet, mas isso é bem óbvio) é que você nunca vai conseguir passar a sua mensagem enquanto está hostilizando a outra pessoa. Se o seu objetivo é, como o meu, fazer a pessoa entender o porquê de você estar discutindo com ela, então falar “seja menas, linda” não vai te ajudar em nada. Você não deu nenhum argumento para essa pessoa, você só fez com que ela se sentisse hostilizada sem saber porque. Se o seu objetivo é fazer com que a pessoa entenda o porquê dela estar recebendo esse puxão de orelha, então falar “chora mais” não vai ajudar em nada. Essa pessoa só vai se sentir atacada e, assim, se bloquear para qualquer aprendizado.

O meu problema com “vai estudar” é um pouco mais complexo. Até porque esse comentário não só acaba com qualquer capacidade de debate como ele também pode fazer com que a pessoa realmente vá estudar e estude errado. Não custa nada além de um pouco de paciência explicar para as pessoas as coisas no lugar de mandar ela ir estudar sozinha. Até porque, se você quer provar um ponto, explicar para a pessoa só vai ajudar ao seu ponto passar mais fácil, não é? No mundo utópico é isso o que acontece, mas no mundo real nem sempre depois de você explicar bonitinho a pessoa entende. Isso é um saco, eu entendo. Mas aí você tem a oportunidade de sair dessa discussão tendo feito a sua parte e, isso, as vezes é tão importante quanto fazer com que a outra pessoa entenda o seu ponto. Mas, além disso, tem grandes chances de que quando você manda uma pessoa “ir estudar”, ela talvez vá usar a maravilhosa forma de comunicação que é pesquisar no google. Quem garante que pesquisando no Google essa pessoa vai achar as informações certas?

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Um exemplo prático. O motivo que muitas vezes me faz discutir na internet é por conta de pessoas sendo afóbicas (ou acefóbicas, que denomina pessoas que são preconceituosas contra assexuais), o que muitas vezes acontece por ignorância das outras pessoas diante da assexualidade. Já tive que discutir com gente que falava que assexualidade era doença, que assexualidade era parte de trauma psicológico, que assexualidade é “uma pessoa que não conseguiu achar ninguém e ai arranjou essa desculpa”. Tudo isso é um saco, claro, mas eu prefiro achar que essas pessoas são só ignorantes diante do que é assexualidade. Principalmente porque em muitas dessas discussões as pessoas não usavam nem assexual para se referir às pessoas dessa orientação sexual, mas usavam “assexuado”. Você já pesquisou “assexuado” no Google? Eu já. É menos ruim do que eu esperava, mas ainda tem um monte de informação errada sendo propagada.

Dessa forma, ao mandar a pessoa “ir estudar”, eu estaria mandando a pessoa se informar em locais que poderiam muito bem estar dando as informações todas erradas. Enquanto isso, eu, uma pessoa perfeitamente apta para lhe explicar, estaria ali “lacrando” com a resposta bombástica.

Então chegamos aos dois últimos termos que estão presentes, principalmente, em discussões dentro de espaços feministas: “cala a boca macho” e “não estou aqui para dar biscoito para macho” com as suas variações. Eu tenho um problema muito sério com esses termos porque, de novo, eles hostilizam no lugar de fazer qualquer bem. Como eu já disse, em uma discussão, quando você hostiliza a outra pessoa, ela para de ouvir e somente responde de forma hostil. Nada mais vai entrar na cabeça daquela pessoa, o debate acabou naquele momento. Mas é um pouco além disso, quando se usa esse tipo de resposta, você não está nem tentando defender e nem tentando argumentar nada. Não tem nada sendo dito por isso, só um desejo de hostilizar aquela outra pessoa – o ‘macho’.

Ao mesmo tempo, o que me incomoda mais nesses argumentos não é o fato de que esses comentários são feitos geralmente sem nem ouvir o que a outra pessoa está dizendo. São feitos só porque é um homem. E, honestamente, esse tipo de ativismo que exclui os outros do debate não é o meu tipo de ativismo. Eu acho que, sim, existe o protagonismo que é necessário, mas a conversa tem que abranger todo mundo. E, como eu já fico repetindo o texto todo, esse tipo de comentário só exclui a pessoa, hostiliza a pessoa. Esse tipo de comentário só faz com que a pessoa crie ainda mais um bloqueio a esse tipo de conversa. Feminismo vira sinônimo de odiar homens porque ao invés de lhes explicar o porquê de que a opinião de mulheres é mais importante, a gente manda eles irem embora de uma forma violenta.

No fim das contas, provavelmente nenhuma das pessoas que usa esse argumento vai concordar ou talvez nem mesmo pensar no que eu estou dizendo. Talvez esse post receba uma chuva de comentários falando que eu tenho que parar de querer dar biscoito para macho.

Mas, na real, eu só quero um espaço melhor na internet onde as pessoas que estão “do meu lado” nessas brigas sejam capazes de argumentar sem usar jargões dignos do Zorra Total.

O que o Universo ensinou?

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Ana Paula estava sentada em uma das mesas do grande salão onde acontecia aquela reunião escolar. Ela girava o dedo na borda do copo, a cabeça apoiada na outra mão enquanto se debruçava entediada na mesa. Ela não sabia muito bem o que estava fazendo aqui. Nunca tinha se identificado muito com essa escola e não fazia a menor questão de estar rodeada por esses seus ex-colegas de novo. Todos eles tinham feito o seu tempo no Universo um inferno e ela não queria reviver isso. Só que por algum motivo, Ana Paula queria vir nessa reunião.

Talvez fosse a ideia de reencontrar Maurício, sua antiga paixonite adolescente. Talvez fosse a vontade de ver como estava a Luísa, patricinha escolar que sempre tinha visto todos ao seu redor como súditos e não parecia entender que eram todos iguais a ela. Talvez ela só quisesse rever aqueles que tinham ficado do seu lado durante todo aquele tempo no Universo, todos aqueles anos infelizes de aprendizado escolar que não fizera a menor diferença no futuro. Ana Paula acabou seguindo um caminho totalmente distinto das aulas de química, matemática, física, português, etc. Qualquer uma daquelas matérias não lhe servia de nada e ela não fazia a menor ideia do porquê de ter passado tanto tempo lá.

A realidade era de que Ana Paula quisera voltar aqui para poder mostrar para todos aqueles que tinham lhe julgado que ela poderia ser melhor. Que ela tinha crescido e agora poderia colocar eles todos no chinelo. Mas a realidade era que nenhum deles fazia nenhuma ideia do seu sucesso, então já que ela precisava contar para todos eles do que estava fazendo não fazia a menor diferença. O ideal era que todos soubessem quem ela era e ela conseguisse ver seu nome pulsando na mente de todos aqueles que lhe trataram mal durante aqueles anos fatídicos. Só que ninguém sabia e isso só a deixara mais infeliz com toda a aura de reunião escolar que se estabelecia.

Ana Paula segurou o copo com força, apertado nos seus dedos com o vidro quase rangendo, enquanto via aquela silhueta se aproximar. Ela não levantou os olhos para ver João Paulo se aproximando da mesa e se sentando ao lado dela. Um dos bostinhas que tinha feito a sua vida inteira na escola um inferno e agora achava que poderiam os dois ser amiguinhos, curtindo as coisas que ela postava nas redes sociais, colocando bandeiras, expondo apoios. Ele pareceu pensar um pouco antes de falar, o que foi um alívio para a mulher que não queria ouvi-lo nem pintado de ouro.

— É Ana Paula agora, né?

A pergunta reverberou nos seus ouvidos enquanto aquele copo vibrava na mão dela, sabendo que esse era o tipo de questionamento que antecedia um desastre. Ela sabia que não deveria ter vindo, esse era o tipo de coisa que só iria lhe deixar exposta ao julgamento alheio, às pessoas que a tinham visto como uma pessoa fraca durante todo aquele tempo, uma pessoa que não servia para o mundo. O cachorrinho menor de uma ninhada, aquele que não ia crescer. E Ana Paula não merecia se sentir desse jeito, ela merecia se sentir como uma rainha, o que ela sempre foi, mesmo quando o mundo não a via dessa forma. Mesmo quando os outros a colocavam para baixo por ser diferente.

Mas uma coisa que o Universo tinha ensinado para Ana Paula é que a fraqueza que os outros viam nela estava neles mesmos. Ela era forte e sempre foi forte. Nos anos de repressão ela foi forte. Nos anos de depressão ela foi forte. Nos anos em que parecia que todos estavam lhe rodeando para a ver cair… Nesses anos ela tinha sido ainda mais forte. Era por essa força que ela estava aqui hoje, não pelas fraquezas que eles achavam que ela tinha. Não pelos insultos que os seus colegas lhe jogaram nos anos de escola, não pelas formas erradas que ela tinha sido chamada durante toda a sua vida, não pelos médicos que lhe trataram mal, não pelos olhares errados que recebia na rua. Achavam que ela era fraca por ela ser triste, mas na verdade ela era triste por ter tanta que usar tanta força para sobrepor a fraqueza de espírito dos outros ao seu redor.

Afinal, Ana Paula levantou os olhos para João Paulo, seu homônimo no inverso, e lhe deu um sorriso de canto.

— Sempre foi Ana Paula, João.

A festa não ficou melhor depois dessa revelação que ela já sabia há muito tempo, não seria algo provocado por João Paulo que iria lhe fazer querer mais participar daquela dinâmica. Mas o olhar confuso que ele lhe deu foi o suficiente para fazer com que ela desse uma risada estalada. Uma risada que ecoou pelo salão por baixo da batida de música. E aí, Ana Paula foi embora em toda a sua glória, sabendo que aquele ambiente tóxico não lhe merecia.