Outlander: La Dame Blanche

Desde quando comecei a assistir Outlander, eu me apaixonei pela série. Pela forma como apresentam os personagens, pela visão feminina que existe na série toda, pela produção que se encaixa em cada episódio. Continuo amando a série, mas, como um choque de realidade, a gente lembra que nada pode ser perfeito. E como em outras produções, isso vem em uma cena de estupro.

O assunto não é incomum para a série. Há ameaças de estupro pela primeira temporada toda, há assédio pelas duas temporadas inteiras e há um estupro no final da primeira temporada. No caso, há uma diferença com o problema congênito que nós temos com estupros na televisão. Em Outlander, a pessoa que é estuprada é o homem, Jamie Fraser, e não a mulher, sempre a vítima nessas situações.

A série, diferente do que o esperado, tratou bem a situação nessa cena. É forte, é uma cena pesada, há triggers sendo abordados e merece um grande TW antes de acontecer. Mas não é explícita. Ninguém vê o que aconteceu, ninguém precisa ver o que aconteceu para acreditar que aconteceu. Jamie é estuprado e nós vemos o antes e o depois disso, as consequências para ele disso tudo.

Até aí… Tudo bem.

A questão sobre cenas de estupro não é que elas não precisam acontecer nunca, jamais, estão todas proibidas. A questão é que elas são muitas vezes utilizadas pelo fato de choque no lugar de serem apresentadas na série como algo que traz um desenvolvimento para um personagem ou que faz parte da trama em questão. O melhor exemplo de estupros como fator de choque é, claro, Game Of Thrones. Não vou me estender no assunto porque o Lugar de Mulher já falou muito bem sobre isso, o Spoilers também falou umas coisas bem legais e todo mundo já sabe da história, né?

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E onde é isso? Na lua?

De qualquer maneira, então chegamos ao episódio “La Dame Blanche”, que é o quarto da segunda temporada, e novamente temos um estupro. Porém, dessa vez, é de uma menina. Enquanto Claire Fraser, Murtagh e Mary Hawkins estão voltando para a casa dos Fraser depois da carruagem delas ter quebrado, um grupo de homens com os rostos cobertos ataca os três. Eles nocauteiam Murtagh, prensam Claire (grávida) contra a parede e, depois de um deles perceber que Mary era virgem, um deles estupra a menina. No final da cena, eles fogem ao ver quem era Claire, que tinha recebido uma fama de ser bruxa (ou algo parecido) pela cidade.

Para piorar a situação, Mary foi levada para a casa dos Fraser, onde estava acontecendo um jantar. Por conta da trama da temporada, eles não podiam parar o jantar, então Claire dá um sonífero para Mary e a deixa sob os cuidados do garoto por quem a própria Mary já tinha falado ter sentimentos e ele também parecia gostar dela, etc. Ela e Jamie são boas pessoas, sim, e eles se sentem muito mal por tratar Mary desse jeito. Mas, como Claire diz, o dano já estava feito. Agora era tentar amenizar o dano na menina e, ao mesmo tempo, tentar não destruir tudo o que eles estavam tentando fazer para ajudar o povo de Jamie e toda a trama da temporada.

Pois bem. Mary acorda em um lugar estranho, que ela não conhece, do lado de um homem (que, sim, ela conhece, mas até perceber que era aquela pessoa, considerando o trauma, né), nas suas roupas de baixo. Obviamente, ela tem um surto, sai correndo. Ele sai correndo atrás dela, querendo impedi-la de se machucar ou de invadir o salão. Só que ele acaba a imobilizando no chão (com a melhor das intenções) e a cena fica, bom, muito fácil de ser mal compreendida para os que haviam ouvido os gritos.

Essa trama, em específico, é um desastre por motivos bem diferentes dos que fazem o estupro da Sansa ser um desastre. É uma trama que não aconteceu simplesmente pelo fator de choque, ela tem uma conexão com o que está acontecendo na série. Eu duvido muito que vai ser algo esquecido pelos roteiristas, certamente o acontecido vai ser muito bem abordado dentro da série. O motivo pelo qual a cena do estupro da Mary se destacou para mim como um grande desastre foi exatamente quando colocamos ela em comparação com o outro que aconteceu na série.

Por que o estupro de Mary precisava ser tão explícito se a própria série já fez um estupro antes que não precisou disso tudo? Jamie é um dos personagens principais da série, um dos personagens com o qual o espectador está mais conectado. Com ele, não mostramos. Mary é uma personagem secundária e extremamente unidimensional – a grande caracterização dela até agora tinha sido como uma mulher virgem que teme o sexo mais do que tudo (o que só faz o acontecido ainda pior, convenhamos) – e que não tinha demonstrado ter tanta relevância para a trama dos Frasers até o momento em que ela é estuprada.

Se ela é tão coadjuvante assim, por que mostrar a menina sendo estuprada? Por que fazer desse ato um fator tão explícito em cena? Há inúmeras maneiras de se deixar aquilo implícito, foi uma escolha nos fazer ver Mary sendo estuprada, nos fazer vê-la sofrendo. E foi uma escolha rude, uma escolha feia e desnecessária.

Mas, o que só deixa as coisas piores, qual vai ser o peso disso para Mary? A série é abordada pela visão dos Frasers, principalmente a visão de Claire. Então nós iremos ver o sofrimento dela pelos olhos de Claire, os olhos de um terceiro que estava presente quando aquilo aconteceu. Mas a dor de Mary será de Mary? Ou a dor de Mary será de Claire? Se a menina continuar tão pouco desenvolvida na série, ela não vai ter o destaque necessário para fazer essa trama valer a pena. Se ela se desenvolver na série, isso terá acontecido só por conta do seu estupro?

Afinal, essa trama foi colocada na série (e, acredito, nos livros também, apesar de não ter chegado a esse ponto ainda) com um objetivo. Como eles já tinham abordado as consequências de um estupro antes, não acredito que seja por esse objetivo. Acredito que tenha algum fundamento na trama e que este seja na trama dos Frasers enquanto na França. Isso, no caso, faz com que o estupro de Mary seja relevante para a história de Claire e Jamie.

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Usar um estupro como plot device é uma das piores decisões narrativas que alguém pode tomar, honestamente. desenvUsar um ataque sexual como uma forma de desenvolver a trama de um terceiro é uma coisa que eu não gosto de pensar em seriados, filmes ou livros. Uma coisa que eu, pessoalmente, acredito que seja dispensável para qualquer forma de ficção.

No final, eu continuo adorando Outlander e estou esperando ansiosamente para o episódio da semana que vem. Mas poderia ter passado sem essa, né?

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Um Dia de Ana

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Ana nunca andava de saias, shorts ou vestidos em transporte público. Utilizava calças, sempre. Porém, calças bem soltas, para não deixar curvas. Blusas também bem soltas, para não deixar marcas, decote ou qualquer possibilidade de sedução. Geralmente, mesmo no calor, um grande casaco que lhe cobrisse quase toda, para que ela nem parecesse mulher, ao longe. Ela tinha medo de excitar o homem com seu ser. Então fazia o melhor possível para ficar o menos atraente possível. Escondia o corpo, deixava de usar as roupas que queria usar, deixava de sair de casa em horas inapropriadas, deixava de sair de casa como queria. Tudo para poupar o homem da tristeza de vê-la bonita e feliz e não poder fazer parte disso pelo simples fato dela não querer. Como ela não pode querer? O homem, na sua superioridade, obviamente tem a dominância e quem é essa Ana para poder lhe negar? Então, dentro desse pensamento, Ana tenta só não atrair os olhares.

Ninguém na vida de Ana tinha sido estuprada, só conviviam com os abusos normais do trem cheio. Ela tinha várias tias, mas sua mãe sempre foi uma grande influência. Sua mãe que lhe dizia que era melhor assim, que ela não podia se vestir vulgar. Não podia se dar por fácil por ai, porque isso era errado nos olhos do Senhor. Esse com S maiúsculo, sempre lembrando a todos da sua superioridade e da sua habilidade de julgar a todos pelos seus valores. Tenha os errados e vá para o inferno, Ele disse. E a mãe de Ana somente repetia o tempo todo. Não só pelos olhos do Senhor, mas pelos olhos dos senhores do dia-a-dia. Senhores com s minúsculo, dessa vez, porque, apesarem de serem onipresentes e superiores, esses senhores são somente humanos.

Não use essas calças, Ana, elas estão muito justas.

Vai sair com esse vestido, Aninha? Tem certeza? Meio curtinho, não é?

Fica colocando esses decotes, não se dá ao respeito! Ai depois é abusada na rua e fica chorando!

O pai de Ana fazia coro com a mãe todas as vezes que a filha saia de casa, o que era muito pouco. Ela só podia sair de casa quando fosse conveniente para o pai de família. Quando ele soubesse para onde ela ia, o que ela ia fazer, com quem iria estar, quando iria voltar, com quem iria voltar, o que iria acontecer. Não havia nenhuma possibilidade de espontaneidade, porque caso isso acontecesse um perigo óbvio iria pairar em cima da cabeça de Ana que faria seu pai ter que lhe tirar daquele ambiente imediatamente. Porque, afinal, se ela saísse na rua ela estaria sujeita a todo tipo de perigo possível e imaginável. Pasme: Ela poderia ir para a casa do namorado, se tivesse um. Absurdo! Um choque dentro da sociedade! Como assim, minha filha se dando tão baixo de ir para a casa do namorado?! Não, não, claro que isso não pode acontecer.

Ana ficava em casa, então, olhando pela janela a vida passar e esperando o dia em que as coisas iriam ser melhores. Só esperando.