Todas as regras devem ser respeitadas?

Eu estudei em colégio católico quase a minha vida inteira. Primeiro em um colégio, depois em outro colégio da mesma linha e então em uma faculdade católica. Os três tinham regras muito claras sobre a conduta dos alunos, apesar da faculdade sempre ter sido muito mais tranquila do que os colégios. Mas estudar nesse lugar, especificamente no Colégio Santo Agostinho, fez com que eu entendesse com clareza que nem toda regra tem que ser respeitada. Há regras que você tem que bater de frente até que elas sejam mudadas. Há regras que são tão retrógradas e tão problemáticas que elas tem que mudar – independente de onde você está naquele momento.

Essa ideia ficou presa na minha cabeça desde que eu vi a notícia de que o Colégio Salesiano Santa Rosa, também católico, estava oprimindo estudantes. Isso não me veio como nenhuma surpresa, considerando o ambiente em que ele estava inserido. Com a minha experiência em um colégio de formato parecido com o dele, eu não poderia esperar menos do que isso da instituição. Só que lendo os comentários que vinham na postagem, eu notei que as pessoas não parecem saber o quão é problemático um colégio estar oprimindo um grupo do colegiado. Entre comentários bifóbicos, LGBTfóbicos e ofensivos de todo o tipo, havia um pensamento comum que me deixou muito intrigada. Várias pessoas partilhavam da mesma ideia – a de que o garoto deveria entender que no ambiente em que ele estava ele não poderia ser quem ele é por ter que respeitar a conduta do local. Conduta LGBTfóbica e opressora, claro.

Esse comentário acontecia tanto na postagem do estudante, no seu perfil pessoal, quando na postagem do Jornal Extra, onde os comentários são sempre uma área perigosa de se estar. E as vezes havia respostas no próprio comentário apontando como isso é uma coisa completamente maluca. Independente de se estar em um colégio religioso, a liberdade individual da pessoa deve ser respeitada. Ela tem o direito de ser quem ela é, de agir do jeito como ela age, de ter seu cabelo e seu estilo pessoal mantidos de uma forma libertária. Escola não é exército – e nem o exército deveria impedir que as pessoas tenham liberdade individual.

Regras homofóbicas e repressoras devem ser combatidas. Regras que obrigam os estudantes a serem menos do que eles deveriam ser devem ser combatidas. Regras que prendem os estudantes a um estereótipo que não lhes pertencem devem ser combatidas. Regras que obrigam as pessoas a deixarem de serem elas mesmas devem ser combatidas.

Mas essa introdução toda foi para falar um pouco do projeto Escola Sem Partido.

O famoso projeto que recentemente teve uma consulta pública aberta na página do Senado, propõe fazer uma educação “neutra” e impedir a “doutrinação” dos estudantes. Como o site do próprio movimento (o que já denota uma ideologia, porque movimentos tem uma ideologia, mas eles parecem não entender o que isso significa) fala, o Escola Sem Partido luta pela “descontaminação” política e ideológica das escolas, pelo respeito a “integridade intelectual e moral” dos estudantes e pelo “respeito ao direito dos pais de dar aos seus filhos a educação moral que esteja de acordo com as suas próprias convições“. Tudo isso é muito bonito, de fato.

Só que então você vai olhar as coisas que eles propõe proibir nas escolas e tudo se torna muito feio bem rapidamente.

Primeiro porque o projeto Escola Sem Partido não parece saber que no momento em que eles estão querendo a descontaminação política e ideológica das escolas, eles estão pregando uma ideologia. Tudo é ideológico. Quando você fala bolsomito, você está emitindo uma ideologia. Quando você pensa que ter “Deus é fiel” nas notas do dinheiro brasileiro é maneiríssimo, você está emitindo uma ideologia. Então, no momento em que você impede que ideologias sejam discutidas na sala de aula, você está emitindo uma ideologia que, invariavelmente, vai ser conservadora e restringente. Conservadora porque ela vai de acordo com o status-quo (ou seja, não é diferente do senso comum) e restringente porque ela não permite a propagação de outras ideologias diferentes.

Então, por exemplo, em um dos artigos da lei que propõe implantar esse projeto está “O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual (sic) dos alunos e nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade em harmonia com a respectiva identidade biológica do sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação de postulados da teoria ou ideologia de gênero”. Ou seja, não pode conversar sobre gênero nas escolas. Crianças e adolescentes que são transexuais nunca vão receber o acolhimento necessário das escolas, porque eles estão vedados de pensarem sobre a transexualidade. Mulheres nunca serão estimuladas a serem iguais aos homens nas escolas porque isso está vedado de acordo com a proibição da temida “ideologia de gênero”.

O mais engraçado é que o texto da lei parece partir do suposto de que isso está impedindo a propagação ideológica da ideia de gênero, mas, na realidade, esse texto está implantando outra ideologia. E por que essa ideologia do texto da lei é mais certa do que a ideia de ensinar gênero nas escolas? Por que ensinar gênero nas escolas faz com que as crianças ‘virem’ transexuais? Ensinar sobre dinossauros nas escolas faz com que as crianças virem dinossauros? As pessoas precisam começar a entender que ninguém vai te fazer virar uma coisa que você não é. Ninguém ‘vira’ transexual ou LGB+ porque disseram isso para eles na escola. A pessoa já é isso. E então ela se liberta de uma ideologia heteronormativa e cisnormativa ao aprender coisas novas e entender coisas diferentes.

A realidade é que o que se precisa no Brasil não é uma “Escola Sem Partido” que, na realidade, é uma Escola Com Partido Conservador, mas um ensino crítico. Precisa-se ensinar aos estudantes que eles podem, sim, questionar o que o professor está lhes dizendo. Eles podem interferir naquela narrativa e aceitar outra narrativa, se isso funcionar melhor para a vivência deles. E, acima de tudo, é necessário ensinar outras vivências. É necessário que, em colégios onde só há pessoas brancas, se ensine sobre privilégio branco, meritocracia, sobre como há racismo (e muito!) no mundo. É necessário que se ensine sobre a realidade das comunidades mais pobres, sobre como funciona a desigualdade social no Brasil, sobre como esse tipo de coisa é acobertada o tempo todo. É necessário ensinar sobre violência policial. É necessário ensinar sobre como as discriminações de gênero existem no mundo e como nós devemos sempre respeitar os outros.

A Escola Sem Partido propõe que só se ensine as coisas da ideologia deles.

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O que o Universo ensinou?

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Ana Paula estava sentada em uma das mesas do grande salão onde acontecia aquela reunião escolar. Ela girava o dedo na borda do copo, a cabeça apoiada na outra mão enquanto se debruçava entediada na mesa. Ela não sabia muito bem o que estava fazendo aqui. Nunca tinha se identificado muito com essa escola e não fazia a menor questão de estar rodeada por esses seus ex-colegas de novo. Todos eles tinham feito o seu tempo no Universo um inferno e ela não queria reviver isso. Só que por algum motivo, Ana Paula queria vir nessa reunião.

Talvez fosse a ideia de reencontrar Maurício, sua antiga paixonite adolescente. Talvez fosse a vontade de ver como estava a Luísa, patricinha escolar que sempre tinha visto todos ao seu redor como súditos e não parecia entender que eram todos iguais a ela. Talvez ela só quisesse rever aqueles que tinham ficado do seu lado durante todo aquele tempo no Universo, todos aqueles anos infelizes de aprendizado escolar que não fizera a menor diferença no futuro. Ana Paula acabou seguindo um caminho totalmente distinto das aulas de química, matemática, física, português, etc. Qualquer uma daquelas matérias não lhe servia de nada e ela não fazia a menor ideia do porquê de ter passado tanto tempo lá.

A realidade era de que Ana Paula quisera voltar aqui para poder mostrar para todos aqueles que tinham lhe julgado que ela poderia ser melhor. Que ela tinha crescido e agora poderia colocar eles todos no chinelo. Mas a realidade era que nenhum deles fazia nenhuma ideia do seu sucesso, então já que ela precisava contar para todos eles do que estava fazendo não fazia a menor diferença. O ideal era que todos soubessem quem ela era e ela conseguisse ver seu nome pulsando na mente de todos aqueles que lhe trataram mal durante aqueles anos fatídicos. Só que ninguém sabia e isso só a deixara mais infeliz com toda a aura de reunião escolar que se estabelecia.

Ana Paula segurou o copo com força, apertado nos seus dedos com o vidro quase rangendo, enquanto via aquela silhueta se aproximar. Ela não levantou os olhos para ver João Paulo se aproximando da mesa e se sentando ao lado dela. Um dos bostinhas que tinha feito a sua vida inteira na escola um inferno e agora achava que poderiam os dois ser amiguinhos, curtindo as coisas que ela postava nas redes sociais, colocando bandeiras, expondo apoios. Ele pareceu pensar um pouco antes de falar, o que foi um alívio para a mulher que não queria ouvi-lo nem pintado de ouro.

— É Ana Paula agora, né?

A pergunta reverberou nos seus ouvidos enquanto aquele copo vibrava na mão dela, sabendo que esse era o tipo de questionamento que antecedia um desastre. Ela sabia que não deveria ter vindo, esse era o tipo de coisa que só iria lhe deixar exposta ao julgamento alheio, às pessoas que a tinham visto como uma pessoa fraca durante todo aquele tempo, uma pessoa que não servia para o mundo. O cachorrinho menor de uma ninhada, aquele que não ia crescer. E Ana Paula não merecia se sentir desse jeito, ela merecia se sentir como uma rainha, o que ela sempre foi, mesmo quando o mundo não a via dessa forma. Mesmo quando os outros a colocavam para baixo por ser diferente.

Mas uma coisa que o Universo tinha ensinado para Ana Paula é que a fraqueza que os outros viam nela estava neles mesmos. Ela era forte e sempre foi forte. Nos anos de repressão ela foi forte. Nos anos de depressão ela foi forte. Nos anos em que parecia que todos estavam lhe rodeando para a ver cair… Nesses anos ela tinha sido ainda mais forte. Era por essa força que ela estava aqui hoje, não pelas fraquezas que eles achavam que ela tinha. Não pelos insultos que os seus colegas lhe jogaram nos anos de escola, não pelas formas erradas que ela tinha sido chamada durante toda a sua vida, não pelos médicos que lhe trataram mal, não pelos olhares errados que recebia na rua. Achavam que ela era fraca por ela ser triste, mas na verdade ela era triste por ter tanta que usar tanta força para sobrepor a fraqueza de espírito dos outros ao seu redor.

Afinal, Ana Paula levantou os olhos para João Paulo, seu homônimo no inverso, e lhe deu um sorriso de canto.

— Sempre foi Ana Paula, João.

A festa não ficou melhor depois dessa revelação que ela já sabia há muito tempo, não seria algo provocado por João Paulo que iria lhe fazer querer mais participar daquela dinâmica. Mas o olhar confuso que ele lhe deu foi o suficiente para fazer com que ela desse uma risada estalada. Uma risada que ecoou pelo salão por baixo da batida de música. E aí, Ana Paula foi embora em toda a sua glória, sabendo que aquele ambiente tóxico não lhe merecia.