A Evolução (?) das Mulheres em Doctor Who

Neste sábado, dia 23 de abril, foi anunciado que a nova companion de Doctor Who vai ser Pearl Mackie, com sua personagem chamada Bill. Em um vídeo de pouco mais de um minuto nós recebemos uma pequena amostra da personagem que vai acompanhar o Doctor-Calpadi nas suas próximas aventuras. E ela já me agradou bastante. Ela é uma mulher negra, com um black incrível, sem papas na língua para fazer as perguntas que nós queremos feitas desde o piloto (IT’S GOT A SUCKER ON IT?) e ainda apontando para o Doctor que, não, ele não explica nada direito. Foi um vídeo pequeno, mas foi o suficiente para me colocar animada com a próxima temporada – o que eu não sentia há algum tempo.

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Mas uma nova companion significa que temos uma nova personagem sob a gerência de Steven Moffat e, olha, eu não coloco muita fé de que ele consegue criar personagens novas boas, principalmente tendo em vista o que ele vem fazendo com a série nas últimas temporadas. Principalmente se ele continuar a não ouvir as críticas que são feitas em cima da sua escrita.

Eu imagino que se você leu esse texto até aqui, então você sabe o que é Doctor Who. Mas, por via das dúvidas, vamos explicar! Doctor Who é, em uma explicação bem rasa, uma série de ficção científica criada em 1963 e que vem passando até hoje pela BBC. O seu personagem principal tem o nome de Doctor e ele é um alienígena, um Time Lord do planeta Gallifrey. E o Doctor tem uma máquina do tempo, a TARDIS (Time And Relative Dimensions In Space), com a qual ele faz viagens no tempo e no espaço perseguindo coisas que sejam interessantes para atiçar o seu ânimo e curiosidade.

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TARDIS <3

Ele geralmente viaja acompanhado de um humano, referido como companion, que o ajuda em suas aventuras. Como parte do universo de ficção científica, a série está sempre em renovação à medida que, ao morrer, o Doctor pode trocar de rosto. Os companions, entretanto, vêm de uma renovação mais dolorosa, com sua saída da série geralmente sendo um momento bem dramático de perda. Mesmo assim, eles foram sempre personagens importantes para a guia da trama, uma vez que são os olhos leigos dentro do universo completamente novo. E um fator predominante dentro dessa figura é que geralmente são personagens femininas fazendo tal papel, principalmente no reinício da série em 2005.

Falar em personagens femininas dentro do universo da ficção científica sempre foi um problema. Com personagens altamente estereotipadas dentro de um gênero predominantemente masculino, era a coisa mais comum ver as personagens femininas sendo colocadas em segundo plano como as donzelas indefesas que precisavam de salvação ou como a figura do “sidekick”. Não é raro ver isso acontecendo hoje em dia, mesmo que tenhamos algumas grandes vitórias em Rey (The Force Awakens).

Entretanto, Doctor Who (me referindo especificamente ao reinício de 2005, a “série nova”) quase sempre soube equilibrar muito bem a imagem do leigo, o iniciado no universo novo, com a criação de personagens femininas importantes para o andamento da trama. Até agora foram cinco: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freyma Agyamen), Donna Noble (Catherine Tate), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

A série começa com Rose Tyler como a companion, uma garota de 19 anos, londrina, que trabalha em uma loja e que nunca se viu de maneira especial. Um evento que acontece natumblr_n9adfnklwz1txbdydo2_250 loja onde ela trabalha traz os olhos do Doctor para si, uma vez que ela se encontra envolvida e, ao final, salva o dia. Ela decide começar a viajar com o Doctor e emenda em duas temporadas da série. Sua família, seus amigos e o seu namorado (que não é tão namorado assim) aparecem durante a série, tendo inclusive papeis relevantes para o andamento da trama.

Ao final do seu arco, fica conhecida por todos os cantos do universo como “Rose Tyler, defender of the Earth”, um título de suma importância para uma personagem que começou se sentindo tão pequena. Ela tem um envolvimento romântico com o Doctor, mas, diferente do que acontece em diversos outros produtos do tipo, esse envolvimento nunca é levado de forma sexual ou até enfatizado dentro da série. Ele existe, mas não é intrínseco à trama. Apesar de haver algum destaque para tal, a série (ou a personagem) não gira em torno do romance entre os dois, que praticamente só ganha destaque na despedida, quando Rose fica presa em uma dimensão alternativa e nunca mais irá poder ver o Doctor de novo.

Martha Jones era uma médica em formação quando acontece um evento no hospital onde ela trabalhava que faz com que esse hospital seja posto em perigo. Mesmo sendo jovem, ela se coloca dentro de ação no episódio e acaba quase morrendo ao se sacrificar para ajudar o Doctor, colocando-se em perigo para ajudar a pessoa que poderia salvar todos dentro do hospital. Ela também começa a viajar com o Doctor e, ao final do seu arco, ele acaba sendo posto em perigo mortal e cabe a ela salvar a terra e ao próprio Doctor.

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Linda, tão linda <3

Mais uma vez, há uma personagem feminina – e dessa vez negra, também – colocada em uma posição extrema de poder e com grande responsabilidade e que, no final de tudo, é a grande heroína da série. Isso tudo “apesar” dela não ser a personagem principal e também “apesar” dela ser somente uma humana, uma pessoa que não conhece a imensidão do universo e essas outras criaturas que nos cercam. Martha, ainda além disso, decide abandonar a TARDIS para viver na terra, tomando as rédeas da sua própria vida para ficar com a sua família, que também é importante para a trama de Martha e para as suas decisões em geral.

Esse mesmo efeito de uma pessoa comum ser aquela de maior importância para a salvação da humanidade acontece com Donna Noble, a terceira companion. Seu primeiro aparecimento na série é em um episódio especial entre a última temporada da Rose e a primeira da Martha e depois só volta a aparecer depois que esta sai da série. Já ali ela era somente uma secretária temporária de uma empresa enorme, uma em um milhão, mas que se envolve em um evento conclusivo durante seu casamento. Ela, apesar de ser uma personagem de voz forte, se encontra presa em inseguranças e acaba entrando em uma armadilha por um cara fingia lhe amar. Esse episódio foi um filler, então Donna deixa de aparecer por uma temporada para só depois voltar a ser a companion da série. Quando ela retorna, afinal, a personagem já se encontra totalmente diferente.

Estando ciente do fato de que existem seres fora da terra, uma vida no espaço, Donna tumblr_n33w1so5a41rndtl6o3_250começa a investigar acontecimentos estranhos onde ela acredita que forças alienígenas podem estar envolvidas. Dessa maneira, ela entra em contato com o Doctor de novo e começa a viajar com ele, os dois se tornando melhores amigos e, na série nova, é a primeira vez que temos uma relação Doctor/Companion sem que exista qualquer envolvimento romântico. A participação de Donna na série termina com ela sendo tratada no título de pessoa mais importante de toda a criação depois de ter salvo o mundo diversas vezes durante a sua participação na série. Outro ponto importante para Donna é a sua família, que tem tantos fatores de impedimento quanto de incentivo para a sua viagem com o Doctor. O seu avô, em especial, é tão importante que ele volta a aparecer na série, desconexo da própria Donna – que somente está no episódio como um elemento de tensão.

Nesse ponto acontece uma mudança marcante no seriado, onde entra o novo showrunner, Steven Moffat, que guia a série até hoje (apesar de já ter anunciado que a 10ª temporada será a sua última). Nesse momento, o foco do seriado também muda de maneira drástica, com todos os episódios sendo grandiosos em efeitos especiais e em luzes e brilhos. Eu gosto de falar que eles escolheram trocar bons roteiros e boas temporadas por dinheiro para efeitos especiais. Isso, claro, aumentou muito a popularidade da série (O que é ótimo! Quanto mais gente melhor!), mas a que custo? O entretenimento da série se tornou somente por puro entretenimento, luzes, explosões, tramas grandiosas enquanto a crítica, o texto, os personagens foram deixados de lado. E isso, ainda mais do que em qualquer um, se mostrou muito especial nas companions seguintes.

Amy Pond é a primeira companion dessa nova fase e ela vem apresentada de uma maneira completamente diferente das anteriores. O Doctor a conhece quando criança, no momento em que sua TARDIS cai no quintal da casa da garota. Problemas acontecem e ele só volta a vê-la anos depois, 12 anos depois, quando ela começa a viajar com o Doctor, mesmo tendo passado esse tempo todo fazendo acompanhamento psicológico exatamente pelo trauma que ele lhe causou quando criança.

Ao final da primeira temporada dela, o que são 13 episódios de mais ou menos 45 minutos cada, nós não sabemos muito sobre ela. Sabemos que ela tem um noivo, Rory Williams, que ela não tem certeza se quer se casar ou não e esse é o motivo dela decidir viajar com o Doctor – ganhar tempo. Durante a série, ela, afinal, toma a decisão de voltar para o casamento e, mesmo isso parecendo muito marcante, nós não sabemos o que fez com que ela tomasse essa decisão e se apaixonasse pelo seu noivo. Sabemos que, por algum motivo, ela não tem pais ou qualquer responsável cuidando dela quando criança ou quando mais velha. Esse motivo, entretanto, não pareceu importante de ser explicado.

Amy é utilizada como uma guia da trama em muitos momentos, sem ter quase nenhuma força ativa nos acontecimentos. E, além disso, há graves problemas de desenvolvimento de personagem durante as suas duas temporadas e meia. Esses problemas culminam com o momento em que Amy fica grávida, tem o bebê, este é sequestrado… E ela nunca mais cita o assunto. O Doctor fala para ela que tudo irá ficar bem, que ele vai resolver a situação, e então Amy decide que isso não é mais um problema. Ela não tem trauma, ela não tem apreensão, ela não tem preocupações. Sua filha é roubada e transformada em uma assassina, mas isso não a deixa apreensiva ou lhe dá nenhum tipo de preocupação. Tudo passa quando não é mais necessário para a trama.

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Eu também fico com essa cara pensando nessa trama, tudo bem.

Ao final da entrada de Amy na série, ela é enviada para o passado e fica presa neste depois de se sacrificar para seguir Rory, depois dele ter sido preso naquela linha do tempo.

Entretanto, o grande problema com as personagens femininas em Doctor Who chegou ao seu ápice com Clara Oswald. Clara é envolvida em uma trama onde, ao final de tudo, ela é “a garota criada para salvar o Doctor”. Literalmente, essa é a frase dita durante a série, é a frase que resume a sua personagem. A sua primeira aparição ainda não é na forma de Clara Oswald, mas na de Oswin. Ela é uma personagem que somente aparece em um episódio, um filler, quando o Doctor é enviado para um planeta com a intenção de destruí-lo e lá a nave de Oswin desabou. O episódio termina com ela se sacrificando para que ele possa sair vivo. O segundo episódio que ela aparece ainda não é na sua personagem fixa, outro filler, ela aparece como uma babá da na época vitoriana e sua participação é nomeada somente de Clara. Ela morre, mais uma vez, como um andamento de trama para que o Doctor consiga derrotar seu inimigo a partir da morte dela.

Então, finalmente, no sexto episódio da temporada ela entra definitivamente como a figura de Clara Oswald, uma garota sem nenhuma definição ou características marcantes que, ao que tudo prova, não parece ter praticamente nenhum tipo de família atual ou relevante para sua vida – apesar deles fazerem algumas aparições no fundo, eles nunca são citados como impedimento ou como parte integrante da personagem. A família de Clara não parece notar que ela está convivendo com pessoas diferentes, está desaparecendo ou está agindo estranha. É como se eles não existissem.

Ela começa essa nova fase como babá de duas crianças e, subitamente, em um episódio aparece como professora, sem nenhuma explicação. Ela já queria ser professora antes? Ela fez faculdade? Ela fez algum curso? Como ela conseguiu esse emprego? Isso não parece ser importante, o que interessa era que a série precisava de algum link com uma escola, então Clara se tornou professora.

Mas o ponto mais relevante para o sexismo e o estereótipo da personagem feminina é a maneira como ela é lida pelo próprio Doctor. O Doctor leva Clara consigo para viajar, por assim dizer, por pura curiosidade. Ele quer saber como ela continua morrendo, porque ela é impossível. Ela é um mistério de quem ele começa a gostar. Isso, é claro, sem ele dizer para ela que ele está interessado nesse mistério. Sem ele lhe avisar o que está acontecendo (tal como ele tinha feito com a gravidez de Amy) ou fazer a menor menção sobre o fato de que para ele, ela é um mistério e não uma pessoa.

No último episódio da temporada se tem a solução desse mistério. Clara, em um ato para salvar o Doctor, entra na sua linha do tempo de maneira a impedir que ele seja morto em todos os momentos de sua vida por um vilão, A Grande Inteligência. Com isso, ela sacrifica cada segundo, cada minuto e cada dia de sua vida se tornando a garota nascida para salvar o Doctor. Ela está presente em todas as encarnações do Doctor, se tornando, provavelmente, a pessoa mais importante na vida inteira dele. Uma mulher que se dividiu em milhares para poder salvar aquele amigo que precisava. Mas, no final, tudo o que importa é que esse era o destino dela. Afinal, ela foi “criada” para esse papel.

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Ela acaba não morrendo, no final, pois o próprio personagem ressurge das cinzas – algo jamais explicado e que não faz o menor sentido – e a salva de lá, como se ele tivesse sido todo o herói da história. O que ele não é. Clara não deveria ter que morrer uma imensidão de vezes para salvar a vida dele e ele não deveria deixar isso acontecer. Ele, acima de tudo, não deveria sair disso o grande herói da história. Clara foi quem fez todo o trabalho! Ela quem o salvou, ela que se sacrificou para que ele vivesse!

Afinal, ela sobrevive e no episódio seguinte nada disso é mais falado, feijoada. Ela não tem nenhum tipo de trauma de ter morrido uma centena de vezes, ela não tem medo de continuar em aventuras com esse homem por quem ela morreu uma centena de vezes. Ela nem pede um tempo. Nada.

Na temporada seguinte, Clara interage com um novo Doctor, uma vez que ele se regenera em um episódio de Natal (um péssimo episódio de Natal) e, por um milagre, as coisas parecem melhorar um pouco para ela. Sua vida começa a criar mais cor, ela se destaca mais e até alguns pontos da sua personalidade são mais explicados. Clara se torna uma pessoa no lugar de ser só um mistério. Ela ainda tem muitos problemas como personagem, principalmente pelo fato dela ter sido usada como uma Manic Pixie Dream Girl (uma personagem que só existe para ajudar personagens homens na sua trajetória sem procurar qualquer tipo de satisfação pessoal) na temporada anterior.

Ela começou a desenvolver uma personalidade e criar uma persona para os escritores datumblr_n10avhqzuw1rlr2dlo7_250 série – o que depende muito de quem a está escrevendo, já que parece que alguns entendem a personagem e outros não fazem a menor ideia de quem ela é, como o próprio showrunner, Steven Moffat. Nessa leva, ela ganha mais liderança e características. Inclusive, um dos melhores episódios da série acontece com Clara praticamente sozinha (Flatline, S08E09). Eu escrevi um pouco sobre a Clara já, aqui no blog, falando de um dos episódios de Natal onde ela aparece, Last Christmas.

Clara Oswald ainda fica mais uma temporada com o Doctor antes dela ter o seu final, que tal como qualquer outra morte no Doctor Who de Steven Moffat é alterada de forma a que ninguém precise sentir o peso de uma tristeza eventual. Ela se torna imortal, pega a sua própria TARDIS e começa as suas próprias viagens – o que eu acharia um spin-off excelente!

Então, agora, chegamos a Bill, que nos foi apresentada tão recentemente e já criou tantas expectativas. Bill, também, que vai ser apresentada em uma temporada que será a última do showrunner, de Steven Moffat, que é tão criticado por essa escrita falha de personagens femininas. Uma amiga minha falou que ela acredita que a personagem não tenha sido escrita pelo Moffat, que ela já seja o novo showrunner colocando as mãos em cima da série, uma vez que ela (e nem eu) acredite que Moffat seja capaz de criar uma personagem que já demonstra tanta personalidade em um vídeo tão pequeno.

Ela sendo, ou não, escrita por ele, Bill já demonstrou muito mais naquele clipe do que algumas das companions de Moffat demonstraram em temporadas inteiras. Ela apresentou um humor, um sarcasmo, uma maneira interessante de ver o que estava acontecendo com ela que, pessoalmente, me deixou intrigada para saber mais sobre a sua personagem. Suas roupas são interessantes, sua persona é interessante, o jeito como ela interage com o Doctor é interessante. Com a expectativa alta e a ideia de que só iremos ter um episódio com ela no ano que vem, só nos basta esperar e não tentar criar muitas barreiras para que a personagem possa se desenvolver plenamente.

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A diferença entre argumentos e “lacração”

respira fundo miga

Como uma pessoa que tem o costume de entrar em discussões na internet, eu acho que convivo um pouco com algumas coisas que considero as piores coisas da internet inteira. É chuva de gente falando coisas completamente absurdas e disfarçando aquilo de opinião, de gente não sabendo argumentar, de gente atacando os outros em prol dos seus próprios preceitos (e esquecendo que do outro lado da tela tem uma pessoa de verdade que tem sentimentos de verdade). Mas, acima de tudo, eu geralmente me esforço para argumentar com as pessoas com quem eu estou discutindo e tentar fazer elas entenderem o porquê de eu estar discutindo com elas.

Não faz muita diferença para mim se eu consigo mudar a mentalidade da pessoa, desde que ela entenda porquê eu tirei tempo do meu dia para discutir com ela. Ou seja, que essa pessoa seja capaz de entender que a opinião dela fez com que algum dos meus valores tenha sido afetado pelo seu comentário. No caso, vale dizer que eu geralmente discuto na internet porque alguém está sendo LGBTfóbico ou machista, esses dois são os principais motivos que me levam a discutir com os outros. Especialmente no grande reino chamado de Sessão dos Comentários em Portais de Notícias.

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Isso é uma pessoa falando bosta pra eu discutir?

Mas esse texto não é para falar sobre como eu faço discussões na internet, porque eu tenho a consciência limpa sobre a forma com que eu falo com as pessoas. Ok, sou um pouco grossa as vezes, mas eu tento ao menos. Esse texto é para falar de 5 coisas que sempre que eu vejo sendo usadas em ativismo online eu tenho vontade de abandonar a internet para nunca mais voltar. Essas 5 coisas que, inclusive, são usadas por pessoas que geralmente eu concordo com, mas que, acima de tudo, não são argumentos. Essas coisas são, no caso, frases de efeito que viraram quase tema em discussão na internet. São frases “lacradoras” que as pessoas usam achando que estão tacando o microfone no chão e sendo fenomenais – só que na verdade estão deixando de argumentar em prol de likes e de se achar.

Sem mais delongas, elas são:

  1. “Seja menas”.
  2. “Não estou aqui para dar biscoito para macho”.
  3. “Vai estudar”.
  4. “Chora mais” e todas as suas infinitas variações.
  5. “Cala a boca, macho” e as suas também infinitas variações.

Qual é o problema dessas coisas? De boa? Elas enfraquecem um diálogo. Uma coisa que muita gente não parece entender sobre ativismo online (e, de boa, eu não sou a rainha do ativismo e nem estou aqui para ditar as regras da internet, mas isso é bem óbvio) é que você nunca vai conseguir passar a sua mensagem enquanto está hostilizando a outra pessoa. Se o seu objetivo é, como o meu, fazer a pessoa entender o porquê de você estar discutindo com ela, então falar “seja menas, linda” não vai te ajudar em nada. Você não deu nenhum argumento para essa pessoa, você só fez com que ela se sentisse hostilizada sem saber porque. Se o seu objetivo é fazer com que a pessoa entenda o porquê dela estar recebendo esse puxão de orelha, então falar “chora mais” não vai ajudar em nada. Essa pessoa só vai se sentir atacada e, assim, se bloquear para qualquer aprendizado.

O meu problema com “vai estudar” é um pouco mais complexo. Até porque esse comentário não só acaba com qualquer capacidade de debate como ele também pode fazer com que a pessoa realmente vá estudar e estude errado. Não custa nada além de um pouco de paciência explicar para as pessoas as coisas no lugar de mandar ela ir estudar sozinha. Até porque, se você quer provar um ponto, explicar para a pessoa só vai ajudar ao seu ponto passar mais fácil, não é? No mundo utópico é isso o que acontece, mas no mundo real nem sempre depois de você explicar bonitinho a pessoa entende. Isso é um saco, eu entendo. Mas aí você tem a oportunidade de sair dessa discussão tendo feito a sua parte e, isso, as vezes é tão importante quanto fazer com que a outra pessoa entenda o seu ponto. Mas, além disso, tem grandes chances de que quando você manda uma pessoa “ir estudar”, ela talvez vá usar a maravilhosa forma de comunicação que é pesquisar no google. Quem garante que pesquisando no Google essa pessoa vai achar as informações certas?

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Um exemplo prático. O motivo que muitas vezes me faz discutir na internet é por conta de pessoas sendo afóbicas (ou acefóbicas, que denomina pessoas que são preconceituosas contra assexuais), o que muitas vezes acontece por ignorância das outras pessoas diante da assexualidade. Já tive que discutir com gente que falava que assexualidade era doença, que assexualidade era parte de trauma psicológico, que assexualidade é “uma pessoa que não conseguiu achar ninguém e ai arranjou essa desculpa”. Tudo isso é um saco, claro, mas eu prefiro achar que essas pessoas são só ignorantes diante do que é assexualidade. Principalmente porque em muitas dessas discussões as pessoas não usavam nem assexual para se referir às pessoas dessa orientação sexual, mas usavam “assexuado”. Você já pesquisou “assexuado” no Google? Eu já. É menos ruim do que eu esperava, mas ainda tem um monte de informação errada sendo propagada.

Dessa forma, ao mandar a pessoa “ir estudar”, eu estaria mandando a pessoa se informar em locais que poderiam muito bem estar dando as informações todas erradas. Enquanto isso, eu, uma pessoa perfeitamente apta para lhe explicar, estaria ali “lacrando” com a resposta bombástica.

Então chegamos aos dois últimos termos que estão presentes, principalmente, em discussões dentro de espaços feministas: “cala a boca macho” e “não estou aqui para dar biscoito para macho” com as suas variações. Eu tenho um problema muito sério com esses termos porque, de novo, eles hostilizam no lugar de fazer qualquer bem. Como eu já disse, em uma discussão, quando você hostiliza a outra pessoa, ela para de ouvir e somente responde de forma hostil. Nada mais vai entrar na cabeça daquela pessoa, o debate acabou naquele momento. Mas é um pouco além disso, quando se usa esse tipo de resposta, você não está nem tentando defender e nem tentando argumentar nada. Não tem nada sendo dito por isso, só um desejo de hostilizar aquela outra pessoa – o ‘macho’.

Ao mesmo tempo, o que me incomoda mais nesses argumentos não é o fato de que esses comentários são feitos geralmente sem nem ouvir o que a outra pessoa está dizendo. São feitos só porque é um homem. E, honestamente, esse tipo de ativismo que exclui os outros do debate não é o meu tipo de ativismo. Eu acho que, sim, existe o protagonismo que é necessário, mas a conversa tem que abranger todo mundo. E, como eu já fico repetindo o texto todo, esse tipo de comentário só exclui a pessoa, hostiliza a pessoa. Esse tipo de comentário só faz com que a pessoa crie ainda mais um bloqueio a esse tipo de conversa. Feminismo vira sinônimo de odiar homens porque ao invés de lhes explicar o porquê de que a opinião de mulheres é mais importante, a gente manda eles irem embora de uma forma violenta.

No fim das contas, provavelmente nenhuma das pessoas que usa esse argumento vai concordar ou talvez nem mesmo pensar no que eu estou dizendo. Talvez esse post receba uma chuva de comentários falando que eu tenho que parar de querer dar biscoito para macho.

Mas, na real, eu só quero um espaço melhor na internet onde as pessoas que estão “do meu lado” nessas brigas sejam capazes de argumentar sem usar jargões dignos do Zorra Total.

Não Quero Flor

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Hoje é o Dia Internacional das Mulheres, um dia especial que eu não comemoro há muito tempo. A data começou a ser comemorada no dia 8 de março nos anos 60, como uma forma de ter um símbolo da série de reivindicações e conquistas dos direitos das mulheres. Há, inclusive, a associação do motivo da escolha do 8 de março como a data com um incêndio intencional que matou quem trabalhavam em uma fábrica têxtil, em 1857. Na realidade, não há relato de um incêndio nessa data, mas há um de tão grandes proporções no dia 25 de março de 1911, onde 125 mulheres e 21 homens morreram.Por conta de comuns levantes contra as precárias condições de trabalho na época, os donos das fábricas costumavam trancar os trabalhadores dentro. Então, quando o incêndio começou, estavam todos trancados, o que potencializou as mortes.

Independente do que causou a escolha do dia 8 de março, o mais importante era o significado dessa data. Um dia para celebrar mulheres, não importando quem elas fossem. Infelizmente, esse dia virou uma data comercial, como muitas outras que já conhecemos bem. É um dia que recebemos vários e-mails de promoções de lingerie, máquina de lavar, geladeira, filmes de romance em DVD e várias congratulações de empresas que não fazem a menor ideia de como congratular uma mulher pelo “seu dia”. Recebemos flores nos restaurantes, na entrada de lojas, dos homens presentes. O que uma flor sem significado vai fazer para uma mulher que sente todos os dias um mundo de homens?

Ontem eu ouvi que como homem você só deve dar flores “para as suas mulheres” depois que este foi confrontado com ideia de que esse feriado é hipócrita por dar flores para mulheres quando a sociedade só lhes faz mal. Dessa forma, o homem só daria flores para as mulheres que ele faz bem, sendo estas as suas. Afinal, você não destrata a sua mãe, filha, esposa, irmã e outras mulheres “suas”, não é? Essa frase já foi o suficiente para atestar outra hipocrisia: nos tornamos cada vez mais mulheres dos outros. Eu só deveria receber flores do meu namorado, meu pai, meu avô. Do resto, posso continuar recebendo assédio enquanto caminho na rua. E para esse homem não interessa o fato de que esse pensamento faz com que os outros homens – outros da sua classe – irão ver as “suas mulheres” como alguém que eles não precisam respeitar. Afinal, eles só precisam respeitar as deles.

A flor que os respectivos homens que “me controlam” me dão deve ser o suficiente para que eu fique feliz, um presente para me calar por mais um ano. E isso se tornou parte de uma festa adotada no mundo inteiro.

O Dia Internacional da Mulher poderia ser um dia para nos libertar mais uma vez, mas é um dia que nos prende cada vez mais aos homens que nos teriam como donos. Pois bem, eu não sou pertencente a ninguém. Eu não quero flores, eu não quero parabéns, eu não quero comemorações e palavras bonitas. Não quero anúncios em tom de rosa, vendendo eletrodomésticos. Não quero promoção de artigos de cozinha. Não quero maquiagem com 50% de desconto, muito menos perfume. Eu quero respeito todos os dias do ano. Isso é um presente muito melhor do que flor hoje e tapa amanhã.

35 =/= 25

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Mais um filme para comemorar a minha grande maratona dos Oscars, yay! Joy foi um dos primeiros que eu vi para essa temporada de filmes. Ele se passa nos anos noventa e conta a história (real) da criadora do miracle mop (esfregão milagroso, em tradução literal) e da sua trajetória para conseguir fazer com que aquele produto fosse um sucesso. Joy Mangano (Jennifer Lawrence) tinha uma vida medíocre com seu ex-marido morando no seu porão, sua mãe presa na cama, seu pai (que é separado da sua mãe) vindo morar também no seu porão (e ele detesta o ex-marido) e seus filhos sem ter muitos cuidados ou dinheiro para receber esses cuidados. Ela tinha uma péssima autoestima, um trabalho ruim e ela não consegue se libertar daquela situação.

Porém, ela tem uma ideia. E essa ideia se torna uma força de vontade impassível e indestrutível, levando Joy a um caminho cheio de obstáculos e pequenas vitórias. Ela tem a ideia do miracle mop, um esfregão que você pode colocar na máquina de lavar roupas e limpar sem nem tocar na parte suja do mesmo. É prático e muito fácil de usar, mas apesar das melhorias que viriam para donas de casa, Joy tem uma dificuldade enorme de fazer com que seu produto se torne um sucesso. Os seus desafios criam uma trama muito interessante de acompanhar, especialmente por ser uma mulher na frente do projeto – o que é bem raro nesse tipo de filme.

Como os outros filmes que eu gostei e foram dirigidos pelo David O. Russell a trama é simples e direta, tudo que acontece tem um objetivo e um fundamento. O filme não perde tempo com firulas que poderiam deixar o longa mais artístico, mas a simplicidade do mesmo faz com que ele seja tão divertido quanto simples de assistir. É um bom passatempo, uma boa forma de passar o tempo. Não é a melhor atuação da Lawrence (mas é a melhor dentro dos filmes do Russell), não é o melhor filme dele e não é a melhor personagem que está indicada para Melhor Atriz no Oscar. Eu não duvido que Jennifer ganhe, tendo em vista o fato dos Oscars serem completamente aficionados por ela por motivos que superam a minha compreensão.

Porque, cá entre nós, ela é boa, mas não é isso tudo.

 Só verdades.

O principal ponto a ser discutido sobre esse filme, entretanto, não faz parte do filme em si. É o apagamento de mulheres “mais velhas” no cinema. Joy é uma personagem de uns trinta e poucos anos, uma mulher bem mais velha do que Lawrence que tem vinte e cinco anos atualmente. Quando eu ouvi várias pessoas comentando sobre isso na mídia, falando sobre como era um problema para atrizes mais velhas que já tem problemas para serem colocadas em papéis de protagonismo. E é um grande problema. Há uma espécie de data de validade para mulheres em Hollywood. Isso faz com que mulheres “mais velhas” – o que nem precisa ser tão mais velhas assim, passando da imagem de garotinha já não conta mais – sejam colocadas em papéis diferentes dos homens com a mesma idade.

Essa chamada data de validade de mulheres na indústria gerou essa esquete maravilhosa da Amy Schumer com a Tina Fey, Julia Louis-Dreyfus e a Patricia Arquette:

Isso é um problema porque cria uma ideia de que mulheres mais velhas não conseguem ser atraentes e precisam, a todo custo, serem substituídas pelo “modelo mais novo”. Só que, felizmente, mulheres não são carros ou aparelhos de celular. Mulheres fora do padrão – seja de idade, estético, sexual, etc – existem e precisam estar representadas. O pior é que quando eu digo mulheres fora do padrão de idade geralmente o pensamento vai diretamente para mulheres mais idosas, mas as atrizes em questão são as que estão entre a faixa de idade dos 30, 40 ou até 50. Mulheres que não são idosas, mas também não estão na flor da idade para serem as garotas sexualmente atraentes que podem e devem ser parceiras de homens atraentes independente das idades.

O Buzzfeed fez um post maravilhoso sobre isso, trocando as diferenças de idade que as mulheres em filmes tem para os seus respectivos parceiros homens pelo inverso. É impressionante como os pares com as mulheres mais velhas do que os homens ficam muito estranhos para a gente, que estamos tão acostumados a ver casais como o Jack Nicholson (60 anos) com a Helen Hunt (34 anos) em Melhor É Impossível.

Não há nenhum problema com a atuação da Jennifer Lawrence no filme. Mas por que ela foi escolhida e não uma atriz com a idade mais qualificada para a personagem de Joy, que tinha entre 34 e 44 anos durante o período do filme? Por que não Kate Winslet, Charlize Theron, Drew Barrymore, Eva Longoria ou Judy Greer? Elas tem 40 anos. Eva Green, Kristen Bell, Laura Prepon, Michelle Williams e a Olivia Munn tem 35 anos. Por que temos que sair desse filme com a imagem mental de que uma mulher entre seus 30 e 40 anos tem a aparência de uma mulher de 25 anos?

 
COLOQUEM MULHERES MAIS VELHAS EM FILMES DE PROTAGONISMO

Era de Ultron e o sexismo: Viúva Negra

Algo bastante comum quando se vê um filme mais de uma vez é encontrar detalhes que não tinham te chamado atenção antes.  Quando você vê pela primeira vez – ou somente uma vez – há aquele entusiasmo marcante de estreante. Você está animado com o filme e isso acaba te fazendo deixar coisas passarem. Especialmente quando não se vai a sessão com o pensamento de analise, especialmente quando se é leigo, como eu ainda me considero, em análise de cinema. Então, quando eu fui ver o novo filme dos Vingadores no cinema pela primeira vez, eu saí incomodada da sala, mas não o suficiente para pensar em reativar esse espaço com um texto sobre ele.

Hoje eu fui ver Vingadores: Era de Ultron pela segunda vez. E dessa vez eu achei bastante necessário fazer uma entrada no blog ligeiramente largado às moscas. Não porque eu acho que a minha opinião realmente vá fazer alguma diferença, mas porque eu preciso tirar um bolo que está entalado dentro da minha garganta sobre esse filme. E também aproveito essa breve introdução para falar que eu não sou uma leitora dos quadrinhos de nenhum dos personagens ou de quadrinhos em geral, então estarei falando somente do universo cinematográfico da série. E, claro, esse texto contém spoilers.

Eu gostei do filme, para começo de conversa. Gostei muito da história, gostei muito dos personagens novos, gostei muito de tudo que ele abriu de espaço para os próximos filmes.

Eu não gostei do sexismo presente em toda a história. Não gostei do tratamento que a Viúva Negra recebeu tanto dentro quanto fora das telas – pela equipe de publicidade, pelos outros atores, por tudo. Não gostei do fato de que no filme são nove personagens que participam da equipe – Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Visão, Pietro e Wanda Maximoff – e somente duas são mulheres (além de não ter nenhuma pessoa não caucasiana, ignorando que o Visão literalmente não é humano). Não gostei que as duas personagens femininas da equipe terminam o filme sendo salvas.

Em resumo, eu não gostei de muitas coisas e eu gostaria de falar sobre elas aqui.

O meu primeiro ponto é a caracterização da Viúva Negra. Para quem não conhece a personagem, esse é o codinome de Natasha Romanoff (em inglês, Black Widow) que é uma agente da SHIELD quando nós a temos apresentada nos primeiros filmes onde ela aparece (Homem de Ferro 2, Os Vingadores, Capitão América 2 e Era de Ultron). No primeiro filme dos Vingadores ela está na formação da equipe e continua assim durante os seguintes, mesmo depois da dissolução da SHIELD em Capitão América 2 e no seriado Agentes da SHIELD.

Em Era de Ultron a personagem aparece novamente como uma parte da equipe – a única mulher – e ela é introduzida em uma espécie de relacionamento com o alterego do Hulk, o cientista Bruce Banner. Não há nenhum problema em duas pessoas terem um relacionamento, mas quando a única mulher em uma equipe repleta de homens é introduzida de cabeça em um relacionamento com um desses da equipe há de se perguntar qual é a necessidade disso. Por que é necessário que exista um relacionamento? Por que Natasha tem que estar apaixonada? Por que a única mulher na equipe tem que ter uma história romântica?

Esse romance é primeiramente desenvolvido com o fato de que ela dominou uma técnica para adormecer o Hulk e trazer de volta o cientista, chamado no filme de “lullaby” (canção de ninar, em tradução literal). Não há nenhum problema nisso, claro. Também não há nenhum problema nos dois se aproximarem por conta disso, uma vez que Natasha seria a única a ser capaz de “dominar” a fera. Mas aí, novamente, vem o questionamento: Por que ela? A única resposta que me vêm à cabeça é que era necessário alguém que fosse capaz de ser gentil. Por que a personagem feminina é a que é religiosamente sempre vista como a mais gentil?

Durante o filme, o relacionamento entre Natasha e Bruce se estreita até que chegamos em uma conversa dos dois depois que eles foram manipulados por Wanda e estão na casa da família do Gavião Arqueiro (Clint Barton). A manipulação de Wanda nos deu um primeiro aspecto, uma leitura leve, sobre o que vem por trás de Natasha e da figura da Viúva Negra. Uma ‘backstory’ da personagem. Isso era necessário chegar em algum momento até porque – apesar dos pedidos do fandom – a Marvel não viu a necessidade de nos dar um filme da única mulher dentro da equipe cinematográfica dos Vingadores. E, abalada pela lembrança da sua história, Natasha e Bruce tem uma conversa sobre irem embora, sobre deixarem todo esse negócio de salvarem o mundo.

No meio dessa conversa Natasha fala uma coisa que me fez, mesmo na primeira vez que eu vi o filme, ficar bastante irritada. Ela fala que fizeram ela ficar estéril durante o seu treinamento como espiã e que isso faz dela um monstro, tal como o Hulk. Quando eu ouvi ela falando isso eu tive que chacoalhar a cabeça para tentar não me levantar e ir embora. Como assim ser uma mulher e ser estéril te faz um monstro? Eu entenderia se ela estivesse dizendo que as pessoas que fizeram isso com ela são monstros porque isso é uma óbvia violação do corpo de uma mulher. Só que desde quando nós ainda vemos mulheres que não podem (ou não querem) ter filhos como monstros? Desde quando uma mulher voltou a ser única e originalmente um receptáculo para uma prole ao ponto de que quando ela é incapaz de gerar filhos por intervenção externa ela se torna equivalente a uma criatura verde enorme que literalmente destrói uma cidade durante o filme?

Pelo que eu entendi, isso poderia ter duas explicações e as duas me parecem tão ofensivas quanto possível. A primeira é que Natasha realmente se considera um monstro por ser estéril. E isso, em um filme, toca toda e qualquer mulher que não possa ou não queira ter filhos. Eu não quero ter filhos e eu me senti terrivelmente ofendida por essa explicação – isso diz que por eu não querer ter filhos (mesmo não sendo estéril) então eu sou pior que um monstro. A segunda é que a esterilização fez com que ela tivesse mais facilidade em fazer o que a organização para qual ela trabalhava, em matar, e isso é tão ofensivo quanto. Isso é a mesma coisa que dizer que toda mulher na TPM é incontrolável. É você dizer que os seus hormônios controlam tudo o que você é e ainda que toda mulher estéril é uma pessoa menos capaz de se conectar com outros seres humanos a ponto de matar.

É completamente absurdo.

Além disso, eu fiquei completamente embasbacada em sequer descobrir que uma personagem que nunca tinha dado nenhum indício de querer ter uma vida normal, filhos, uma casa no campo e um cachorro tinha esses desejos. Mas acho que não é importante para o espectador ter uma caracterização de personagem convincente, certo? Não é importante que nós conheçamos mais sobre a única personagem feminina que faz parte dos Vingadores, certo? Não é importante que as suas motivações e seus desejos fiquem mais claros para o espectador, não é? Até porque ela é uma mulher e todo mundo sabe que toda mulher quer ter uma casa e uma família, porque toda mulher quer ter filhos. É para isso que nós fomos feitas, afinal.

De qualquer maneira, eu consegui manejar continuar a assistir o filme sem vomitar. Até porque eu estava realmente gostando da história e não queria estragar a minha experiência. A trama se segue e chegamos em um momento que Natasha é sequestrada pelo vilão, Ultron. Ela é levada para o lugar onde ele está manifestando seus planos e… Fica lá até ser resgatada pelo cientista Bruce Banner. Eu não contei quanto tempo de filme se passa sem que a trama ache necessário nos mostrar sobre como está Natasha está. Ela aparece sendo trancada em uma jaula, depois aparece mandando uma mensagem por código Morse à Clint (que não sabemos como chegou a ele, deve ser a magia da espionagem) e depois aparece quando é resgatada. Mas a primeira coisa que me veio a cabeça quando vi que ela só conseguiu sair durante um resgate foi por que? Por que a única mulher da equipe teve que ser resgatada por um dos homens? Por que a única mulher da equipe teve que ser sequestrada? Por que a única mulher da equipe ficou sentada esperando o resgate? Afinal, eles não tiveram nenhuma necessidade de nos mostrar que ela tentou escapar, então imagino que ela tenha ficado sentada lá esperando. Talvez na versão estendida exista alguma cena desse tipo que ao menos nos mostre Natasha tentando. Mas no filme o que parece é que ela era a donzela indefesa presa na torre.

Outro problema que eu vi nesse filme foi o mesmo que eu já vi na participação dela em outros filmes da Marvel. Natasha é, novamente, uma bengala para o desenvolvimento do personagem masculino, dessa vez voltado para o Bruce. Só que isso não foi um problema tão grande nesse filme porque ao menos ela teve algum desenvolvimento, ao menos ela também recebeu um tratamento na trama, enquanto nos outros ela é uma folha em branco esperando a necessidade de ser usada. Ela teve mais desenvolvimento nesse filme do que em todos os outros em que ela apareceu. Como um amigo meu falou enquanto discutia esse filme, ela “foi bem desenvolvida no filme, teve falas e personalidade, chutou bundas, mostrou um senso de humor, foi misteriosa, teve chances de se mostrar forte, de ser vulnerável”.

Eu não achei nada ruim, então, os últimos momentos da Natasha no filme. Não achei ruim ela ter sido salva pelo Hulk na batalha final – principalmente porque o Clint teve que ser salvo também. Eu também não me incomodei dela ter tido toda aquela conversa com o Hulk antes dele desaparecer com o avião. Aquilo foi super bem posicionado na trama e, bom, se você está envolvida emocionalmente com alguém, você quer ajudar essa pessoa a superar os obstáculos. E muito menos eu me incomodei quando Natasha seguiu em frente depois do Bruce ter decidido ir embora. Ela não ficou em um canto chorando, ela não ficou sofrendo com o seu coração partido. Ela levantou a cabeça, lidou com isso e seguiu em frente.

Então é aquela coisa, né. O filme não foi perfeito, não foi 100% incrível e fenomenal. Foi um bom filme, mas tem seus problemas. Só que diferente do que o Tumblr parece achar isso não é exclusivamente um problema com o Joss Whedon. Eu não vou defender ele, mas preciso ser o advogado do diabo um pouquinho. Ele escreveu o roteiro, sim. Ele dirigiu o filme, sim. Mas até que ponto ele esteve sobre controle da edição desse filme? Até que ponto nós sabemos se alguém “de cima” chegou e mandou fazer diferente? Até que ponto ele tem um controle criativo completo e absoluto? A Marvel não é uma empresa santa. Já faz algum tempo que diversos diretores e atores tem falado coisas ruins sobre a empresa, que diversos diretores, inclusive, tem deixado a empresa.

Terrence Howard, Edward Norton, Mickey Rourke foram os três grandes nomes de atores que deixaram os filmes e já deram entrevistas bastante controversas sobre a Marvel. Terrence Howard saiu por problemas com o seu pagamento nas continuações da franquia do Homem de Ferro, que iria ser singularmente diminuído ao que parece para dar mais ao Robert Downey Jr. Edward Norton se recusou a fazer parte da publicidade para o seu filme do Hulk depois da grande maioria das cenas que ele escreveu tentando dar um desenvolvimento maior ao personagem foram cortadas na edição. Mickey Rourke teve o mesmo problema em Homem de Ferro 2.

No grupo de diretores o Jon Favreau deixou a Marvel depois do desastre com Homem de Ferro 2, mas continuou como produtor de outros filmes franqueados pela empresa. Ao explicar a sua saída, ele disse que queria trabalhar em coisas novas e diferentes, em projetos que não viessem com expectativas. Mas há diversas sugestões que isso tenha ocorrido pela forma como a Marvel agressivamente interferiu na produção do filme e na edição. Kenneth Branagh, diretor de Thor, afirmou que não iria voltar a dirigir a franquia porque não conseguia arranjar espaço na sua agenda e, também, por diferenças criativas. Patty Jenkins iria ser a primeira mulher a dirigir um filme de super-heróis para a Marvel com Thor 2, mas ela também deixou a produção por diferenças criativas. Alan Taylor, o diretor de Thor 2, foi um grande crítico do filme falando que ele não teve controle sobre a versão final da história e, sem nenhuma surpresa, não deve voltar a trabalhar com a Marvel.

Tendo esse histórico em consideração, em até que ponto podemos dizer que esse tratamento é inteiramente, 100%, total culpa do Joss Whedon, diretor e roteirista de Vingadores: Era de Ultron? Levando em consideração que as publicidades e merchandising do filme não tem tido nem a participação da Viúva Negra, em grande parte, como podemos esperar que essa empresa nos dê uma edição digna dela no filme? Também levando em consideração que apesar da Viúva ter a terceira maior quantidade de tempo de tela, ela só tem 24 brinquedos retratados (enquanto o Homem de Ferro tem mais de 400)? E eu nem estou falando de figurinhas de ação (até porque se alguém me responder que mimimimi meninas não compram figurinhas de ação eu vou só rir), mas de ursinhos de pelúcia, inclusive:

Não estou defendendo completamente o Whedon, até porque o roteiro é dele, o filme é dele. Mas até que ponto a empresa, a Marvel, não teve um dedo a discutir isso? Acho muito inocente apontar o dedo para uma pessoa em uma megaprodução, em um blockbuster, e falar que ele foi feio, bobo, chato e fedorento.

Eu ainda pretendo fazer uma outra postagem falando especificamente sobre a Wanda e as outras três personagens femininas de destaque que há na trama: a agente Maria Hill, a esposa e dona de casa Laura Barton e a doutora Helen Cho.