You’re Terminated!

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Quem é mais assustador, afinal?

Quem me conhece sabe que eu sou aficionada por O Exterminador do Futuro. Eu vi todos os filmes, li todas as informações que eu poderia colocar as mãos em, vi o seriado (que até hoje é um dos meus seriados favoritos).21 de Abril de 2011 foi um dia em que eu realmente fiquei preocupada e quando não havia nenhuma menção a um ataque a todas as nações do mundo na mídia, eu fiz o sensato e fui fazer uma maratona de todos os filmes de novo.

Em resumo, eu gosto muito de Exterminador do Futuro. Quer dizer…

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Passando por isso, eu só posso dizer que eu fiquei muito feliz em conseguir pegar o livro em capa dura com a cara linda do T800 para ler, aquele maravilhoso da Darkside Books que eu (ao menos eu, não sei vocês) sempre fiquei babando nas livrarias. Quer dizer, existe alguma coisa melhor do que explorar ainda mais um universo que você já gosta? É como receber um bilhete premiado pra uma loteria que você já sabe que vai ganhar. Até porque mesmo que fosse um livro ruim, eu iria conseguir tirar alguma coisa de importante ou relevante lá de dentro.

No caso, não é um livro ruim. É um livro incrível! Desde a edição e a formatação do livro, a forma como os capítulos são iniciados e as interrupções da interface do Exterminado nas páginas, até o texto que conta a história em uma versão romantizada do roteiro original, de 1984. Esse fato faz com que não haja muitas diferenças de trama ou de andamento, claro. Não há grandes surpresas no conteúdo e no seu andamento. Isso, inclusive, é uma coisa que me fez achar que o livro pode se comunicar com até o leitor que não conhece a saga, aquela pessoa que, por algum motivo, nunca viu nenhum dos filmes. Ou seja, estava presa dentro de uma caverna. Só pode ser, né?

Para a pessoa que já conhece a história e, ainda por cima, conhece o primeiro filme muito bem o livro pode parecer um pouco monótono. Afinal, nada é mudado. As falas são iguais, os cenários se repetem, os personagens se movem da mesma forma. Mas o jeito como é desenvolvido o ambiente faz com que o livro seja um grande acréscimo, um adendo muito importante para quem aprecia essa história, principalmente na questão da recriação do universo em que o filme está inserido. No caso, esse universo é o ano de 1984. Desde a citação de marcas, estilos musicais, filmes e todo o espírito que havia nos anos 80, o livro faz questão de te imergir nessa década e nesse ano. Isso acontece, principalmente, pelas narrações de Sarah Connor que, acima de tudo, é uma garota criada naquela época e que está sendo inserida em uma época muito maior. Tal como no filme, Sarah é uma pessoa comum. Ela tem um trabalho comum, uma vida comum, se veste que nem uma garota comum e está tendo um dia de cão.

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#VDM

Essa pra mim é uma das melhores partes do Exterminador original, tanto filme quanto neste livro: O fato de que Sarah Connor nada mais é do que uma pessoa comum presa em um trama inimaginável. Afinal, não é todo dia que uma mulher descobre que a sua vida está em perigo porque ela, no futuro, vai ser mãe do escolhido para salvar a raça humana do apogeu das máquinas. É o tipo de coisa que faz você surtar um bocado, ter certeza que essas pessoas estão malucas e ainda fazer questão de tentar ao menos conseguir saber se há alguma possibilidade daquilo ser verdade.

O fato de Sarah ser uma mulher normal, uma pessoa comum, para muitos pode ser um clichê ou um problema. Inclusive, o livro apela para alguns clichês bem desnecessários que demonstram, talvez, uma incapacidade dos autores de entender como mulheres funcionam. Como, por exemplo, a citação de uma espécie de “consciência” externalizada para Sarah no formato das chamadas “Sarinhas”. Eu imagino que na cabeça do escritor todas as mulheres talvez tenham pequenas versões delas mesmas em desenho animado dando opinião sobre as coisas ou sapateando – algo bem Anastasia Steele, diga-se de passagem -, mas, ao menos, as Sarinhas não fazem muitas aparições na história. Poderiam ter sido cortadas na edição que só deixariam o livro melhor.

Apesar delas, o fato de que Sarah é uma mulher comum (com futilidades, vulnerabilidades, problemas de autoestima, etc) só faz com que a personagem cresça muito mais do que personagens que já nascem sendo grandes. Sarah teve que aprender tudo o que ela passou para frente – sozinha. Ela saiu da sua vida comum, onde tudo estava ao seu alcance, para uma onde ela tinha que lutar contra pessoas (ou ciborgues) que estavam tentando lhe matar. Ela saiu do seu emprego de garçonete para ter que aprender a lutar, manejar armas, fazer curativos, dirigir agressivamente e viver fugindo. Isso tudo enquanto ainda cria um filho e o prepara para o apocalipse impossível de parar.

Afinal, o Judgement Day vai acontecer independente do que ela fizer ou deixar de fazer. Não existe como impedir o Judgement Day ou o apogeu das máquinas. Isso vai acontecer no universo de Terminator. (E eu, infelizmente, também acredito que vai acontecer no nosso universo, é uma daquelas coisas que me deixa mais interessada ainda por essa história e mais apavorada ainda quando eu leio notícias de inteligencias artificiais sendo criadas e coisas loucas assim.)

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O que o Judgement Day diz toda vez que falam que ele acabou ^

Esse desenvolvimento da Sarah é o que dá mais gosto de ler o livro para acompanhar. No filme, ele está presente, mas ele é sutil. No livro é claro enquanto acompanhamos o seu ponto de vista e vivemos a sua agonia em ver todo o seu universo desabar. Sarah Connor se torna muito mais do que uma mulher fantástica, ela se torna uma guia para que nós mesmos consigamos entrar no mundo do Exterminador. Este que, inclusive, é a causa e efeito para todas essas mudanças. Afinal, se ele não tivesse vindo até o passado caçar Sarah, então Reese também não teria vindo salvá-la. Então John Connor não teria nascido. Mas, ao mesmo tempo, sem o Exterminador em 1984 a Cyberdyne Systems não teria sido criada e a Skynet não existiria do jeito como ela existiu.

O paradoxo já é presente em todos os filmes da saga, tanto nos bons quanto nos ruins, mas é ainda mais claro no livro enquanto os autores tentam explicar como ele funciona. Ao mesmo tempo, corre pelas palavras do texto a ideia de que esse futuro é inevitável. Que apesar deles repetirem que nós fazemos o nosso próprio destino, que até Sarah poderia fazer o seu próprio destino, isso não é exatamente real. Afinal, se há pessoas vindo do futuro para mudar coisas, o quanto desse futuro já não está marcado em aço? Como eles poderiam ir ao passado tentar alterar o futuro sem danificar as suas próprias existências? Ou será que os eventos da vinda do Exterminador para 1984 só agilizaram o Judgement Day? Será que os eventos do livro só modificaram o inevitável ou criaram o inevitável?

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Essa foto, afinal, que importância ela tinha no tempo e do espaço?

Como Sarah mesmo aponta: Dá para enlouquecer pensando nesse paradoxo.

Mas depois de Sarah a melhor parte do livro é o grande criador de toda essa confusão. O Exterminador e as suas cenas, as suas interações, trazem vida à história – apesar dele ser uma criatura só meio viva. O ciborgue, muito bem explicado pelos autores, é apresentado da forma mais visceral que eu poderia esperar ler. Ele é uma máquina e em nenhum momento se supõe diferente. O texto que o engloba é lido de uma forma diferente, as palavras são manuseadas de maneira diferente, formando frases que passam a frieza dos atos do Exterminador. Mesmo quando há aquelas frases de efeito já esperadas para esse tipo de personagem e esse tipo de franquia, ela é feita de forma maquinal.

O melhor exemplo disso par amim é um dos seus últimos capítulos, onde o Exterminador está fazendo uma checagem de seus danos e calculando quanto tempo ele ainda pode durar com a sua célula de energia nuclear. O capítulo termina de uma forma bem simples: “O Exterminador ainda duraria muito, muito tempo. As moscas, já se fartando da pele em decomposição do ciborgue, ficariam felizes em ouvir isso”. É sutil lembrar que o Exterminador é uma máquina, é simples, é abordado o tempo todo. Mas o elemento humano que o rodeia é o que mais destaca na sua criação. Afinal, o Exterminador é uma máquina de morte, mas mesmo ele precisa de uma sobrepele humana. Precisa carregar essa pele morta, esse sangue injetado, essa vida morta que lhe dá uma aparência e lhe confere a habilidade (falha) de se mesclar ao nosso redor.

Ao final do livro, quando ele começa a morrer, você se pergunta o que afinal significaria estar vivo para um Exterminador. A sua pele era um tecido vivo, mas que não tinha nenhum ligamento com o metal morto que ele carregava. O seu objetivo, matar Sarah Connor, era somente isso, mas também era algo que estava lhe guiando. Algo que estava lhe fazendo levantar e seguir. De certa forma, uma subvida que tinha sido dada a ele por uma ordem superior. No fim das contas, o Exterminador é, de certa forma, como a vida, imagino. Um ser que não pode ser barganhado com, que não sente piedade ou remorso ou medo e que absolutamente não vai parar até que você esteja morto.

Meio mórbido, mas interessante. O contraste entre a Sarah e o Exterminador, antagonistas completos, forma um arco excelente e uma leitura tão boa quanto uma experiência vendo o filme.

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Batman V Superman: Man Pain

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Então, né, gente. Cá estamos.

Vou começar o texto já falando o que o título deixa bem claro: Eu não gostei do filme. Eu sai dele me perguntando porquê eu tinha perdido o meu tempo com esse filme quando eu poderia estar assistindo qualquer outro em cartaz. E, olha, ingresso de cinema está caro. De qualquer maneira, eu fui ver o filme e tentei ser imparcial assistindo. Já tinha lido as reviews que falavam mal dele – várias delas, muitas mesmo – e já tinha me divertido com a ideia de que seria um filme que iria marcar uma geração com uma grande falta de trama. Só que eu realmente tentei aproveitar o filme, tentei aproveitar a grande trama que eles estavam tentando criar e, acima de tudo, tentei aproveitar a ideia de ver dois super-heróis que eu não particularmente gosto se batendo.

Depois de 1h30 de filme e nada tendo acontecido, eu desisti de aproveitar o filme e de ficar falando para mim mesma ‘ok, agora vai melhorar!’. Não vai melhorar, não melhora.

Batman v Superman praticamente peca de todas as formas que um filme de super-heróis peca para mim. O primeiro ponto é o que eu gosto de chamar de um filme que se esforça muito para ser DARK and EDGY and DRAMATIC, o que pode ser traduzido por um filme que você consegue ver que ele está tentando muito ser aquele filme super sério que vai fazer todos ficarem pensando no final do filme e refletindo filosoficamente. O filme tenta muito, muito mesmo, ser esse filme. Quase 2h33 de falas dramáticas, ângulos dramáticos, frases fortes e cheias de efeito moral, alucinações que são feitas para nos ensinar morais e lembranças de um passado sombrio (como o fato de nós termos que ver DE NOVO os pais do Bruce Wayne serem mortos).

O filme inteiro gira ao redor do argumento de que talvez, algum dia, o Superman se torne uma força fora de controle e vira um combatente da raça humana e eles repetem tantas vezes que isso é muito provável e que ele poderia aniquilar toda a nossa raça que você quase acredita que seja uma possibilidade real. Como o próprio Bruce diz em um desses grandes momentos dramáticos: se há no mínimo 1% de dúvida sobre se isso aconteceria é preciso que medidas sejam tomadas. Só que, de verdade, quem realmente sentiu o efeito de que isso era uma possibilidade? Dói em mim ter que defender o Superman – uma vez que eu detesto o Superman -, mas o jeito como o Batman fica ‘vilanizando’ ele o filme inteiro sem nenhum motivo faz com que eu pense que ele estava, na verdade, de recalque.

O Bruce começava a falar sobre o Superman e eu começava a pensar ‘mas você tá tão chateadinho assim porque ele ganha umas manchetes de jornal boas?’. O Batman tinha aquelas cenas marcantes de combate com o Superman e eu só conseguia pensar: ‘isso é realmente sobre a Man Pain do Batman?’.

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Quando o grande dilema do filme é resolvido pelo fato de que o Bruce e o Clark tem mães com o mesmo nome e então o Batman decide salvar a mãe do Clark SÓ PORQUE ELAS TEM O MESMO NOME, eu cheguei a conclusão que era recalque sim. Batman estava com ciuminho porque os jornais não gostaram da abordagem dele de bandido bom é bandido torturado e marcado para morrer na prisão. Ele deveria vir conversar com os leitores brasileiros de jornais que iriam adorar essa abordagem, como se pode ver diariamente em comentários de portais de notícias. Se o Batman nessa abordagem estivesse no Brasil, ele provavelmente iria ser aclamado o grande salvador da pátria e homenageado pelas incríveis bancadas da bala espalhadas pelas assembleias do país.

Aliás, além de recalcado o Batman desse filme é um hipócrita. Ele pode sair por ai torturando e matando as pessoas e o Superman tem que ser punido porque ele acidentalmente quase demoliu a cidade inteira enquanto estava tentando salvar a cidade? Tipo, gente? Batsy, você não tem moral para falar do Supes, ok? Você tá matando todo mundo aí. Você arremessou um carro em cima de outro carro com o Batmóvel. Você tem uma metralhadora com balas de verdade acoplada no Batmóvel. Você está deliberadamente torturando e marcando as pessoas com um morcego enquanto sabe plenamente que isso vai fazer com que elas sejam mortas na prisão. Isso não é o tipo de atitude de alguém que pode julgar outra pessoa por matar, ainda mais mortes que foram acidentais.

No final de tudo, eu juro que eu fiquei tentando entender esse filme, mas ele não fez o menor sentido. E, no final, Batman v Superman foi sobre o Batman tendo uma grande Man Pain, sobre o Lex Luthor sendo megalomaníaco, sobre o Superman tendo nenhum desenvolvimento no filme, sobre como a Louis ama o Superman demais mesmo ele só tendo biquinho e sobre como a Wonder Woman vai ser uma personagem maravilhosa quando se derem ao trabalho de dar uma personalidade para ela.

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Maravilhosa demais mesmo sem personalidade nenhuma <3

No fim, eu só tenho que lembrar ao leitor casual que eu não sou exatamente fã de quadrinhos e não os leio. Então se você quiser uma opinião de alguém que é tão viciado em quadrinhos que fez a monografia sobre quadrinhos e tem um vlog sobre quadrinhos, deixo um vídeo aqui no final.

Aliás, vamos lembrar que logo vai sair um filme maravilhoso do morcegão!

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Um Quarto e o Mundo

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Eu quero me dedicar a escrever personagens, criar personalidades e, por fim, histórias. Querer ter essa aspiração me faz admirar ainda mais quando eu vejo um personagem instigante, ainda mais quando ele é criado em tão pouco tempo de tela – como em um filme. Talvez, pelas resenhas já apresentadas aqui no blog, vocês tenham notado que eu gosto bastante de televisão. As vezes, bem mais de televisão do que de cinema. Isso se dá principalmente porque hoje em dia tem existido um espaço muito maior para personagens instigantes na televisão do que no cinema, que se enrolou em métodos fáceis e fórmulas previsíveis.

Esse parágrafo foi basicamente uma grande introdução sobre porquê eu me apaixonei por O Quarto de Jack (Room), filme que está indicado ao Oscar em quatro categorias. São elas Melhor Filme, Melhor Atriz (Brie Larson, pelo papel de Joy Newsome, a mãe), Melhor Direção (Lenny Abrahamson) e Melhor Roteiro Adaptado (Emma Donoghue, que está adaptando o seu próprio livro para o cinema!). Antes de assistir o filme, eu acreditava que quatro indicações eram o suficiente. Depois que saí do cinema, acredito que sejam menos do que o merecido. Principalmente considerando que o filme provavelmente só levará a estátua de melhor atriz, com Brie Larson brilhando no papel.

O filme conta a história da Mãe e do Jack que vivem dentro do Quarto. A Mãe é uma moça chamada Joy Newsome que foi sequestrada por um estranho aos 17 anos. Ele lhe disse que seu cachorro estava doente e ela foi tentar ajudar, como muitas meninas que são ensinadas a serem gentis e ajudarem a todos acabam fazendo. Ela está em cativeiro há sete anos quando o filme começa e Jack, seu filho com o raptor (e estuprador), está fazendo seu aniversário de cinco anos. Todos os dias eles acordam, tomam café da manhã, arrumam o Quarto, tomam banho, assistem televisão e veem o Mundo da Televisão. Alguns dias Jack dorme com a Mãe, outros dias ele tem que dormir no Armário, pois o Velho Nick está vindo visitar e trazer mantimentos que ele pega por magia da televisão.

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Bom dia, claraboia.

Esse é o mundo que a Mãe cria para Jack, para que ele possa sobreviver. Um mundo onde o lado de fora – fora do Quarto – não existe, tudo é Espaço. O Velho Nick consegue a comida e as coisas que ele leva por magia, que ele usa para tirar tudo de dentro da televisão. Até porque as coisas que estão na televisão não existem de verdade. O oceano não existe, porque ele seria grande demais para caber no Quarto, por exemplo. Há um mundo novo extraordinário criado, um habitat natural para que Jack pudesse crescer sem sentir falta do que ele estava crescendo. Esse mundo toma tanta conta dele que, ao se libertar do cativeiro, uma das primeiras perguntas que ele faz é: Nós estamos em outro planeta?

De certa forma, estavam em outro planeta. Os dois estavam em outra vivência e agora, tanto Mãe quanto Jack, precisavam aprender a viver nesse novo mundo. Jack tinha que aprender as coisas novas, aprender que tudo que ele sabia sobre a vida estava errado e tudo que ele conhecia era tão pequeno quanto uma formiga em uma grande floresta. Mas, ao mesmo tempo, ele está descobrindo tudo pela primeira vez. Como a criança que ele é, Jack está animado com a perspetiva do Mundo – um não-Quarto. Com medo, porém animado. Para a Mãe tudo é diferente, principalmente o jeito como ela tem que encarar as coisas. Ele está correndo para o exterior, ela está caminhando para o retorno à vida que lhe foi arrancada.

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Isso tudo é pesado para a Mãe, para Joy. Ela não sabe como lidar com o peso dessa situação e o peso de tudo que esperam que ela seja ou que ela faça e que ela seja. Joy tem que lidar com o seu pai, sua mãe, seu padrasto, a mídia, a polícia e todas as expectativas que se colocam sobre a sua cabeça. Ter ficado presa por tanto tempo não fez só com que ela perdesse tempo no Mundo (o “mundo real”, fora do Quarto), mas também que ela perdesse contato com quem ela era antes do sequestro. Ela não é mais a mesma pessoa e ao mesmo tempo que algumas pessoas esperam que ela fosse a mesma, outras esperam que ela seja alguém totalmente diferente de quem ela é. O Mundo, de certa forma, é demais para ela, é muito estímulo e muitas coisas que ela tem que lidar com.

Eu comecei a falar sobre personagens para desenvolver o motivo pelo qual eu gostei da Mãe, gostei da forma como o filme lhe narra pelos olhos de Jack. Acima de tudo, Mãe é uma personagem fantástica. Ela é a idolatria em pessoa pelos olhos de Jack, ela é uma mártir pelos olhos do expectador, ela é uma falácia pelos olhos dela mesma. Várias facetas que a sufocam a cada segundo de cada dia que ela passa fora do Quarto. Dentro, ela só precisava sobreviver. Fora, ela precisa viver. Tudo isso parece demais para ela até que ela quebra. E todas essas nuances podem ser captadas pela interpretação fantástica de Brie Larson, que abraça cada pedaço dessa personagem.

No final do filme, todos nós só queremos dizer adeus para o Quarto.

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35 =/= 25

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Mais um filme para comemorar a minha grande maratona dos Oscars, yay! Joy foi um dos primeiros que eu vi para essa temporada de filmes. Ele se passa nos anos noventa e conta a história (real) da criadora do miracle mop (esfregão milagroso, em tradução literal) e da sua trajetória para conseguir fazer com que aquele produto fosse um sucesso. Joy Mangano (Jennifer Lawrence) tinha uma vida medíocre com seu ex-marido morando no seu porão, sua mãe presa na cama, seu pai (que é separado da sua mãe) vindo morar também no seu porão (e ele detesta o ex-marido) e seus filhos sem ter muitos cuidados ou dinheiro para receber esses cuidados. Ela tinha uma péssima autoestima, um trabalho ruim e ela não consegue se libertar daquela situação.

Porém, ela tem uma ideia. E essa ideia se torna uma força de vontade impassível e indestrutível, levando Joy a um caminho cheio de obstáculos e pequenas vitórias. Ela tem a ideia do miracle mop, um esfregão que você pode colocar na máquina de lavar roupas e limpar sem nem tocar na parte suja do mesmo. É prático e muito fácil de usar, mas apesar das melhorias que viriam para donas de casa, Joy tem uma dificuldade enorme de fazer com que seu produto se torne um sucesso. Os seus desafios criam uma trama muito interessante de acompanhar, especialmente por ser uma mulher na frente do projeto – o que é bem raro nesse tipo de filme.

Como os outros filmes que eu gostei e foram dirigidos pelo David O. Russell a trama é simples e direta, tudo que acontece tem um objetivo e um fundamento. O filme não perde tempo com firulas que poderiam deixar o longa mais artístico, mas a simplicidade do mesmo faz com que ele seja tão divertido quanto simples de assistir. É um bom passatempo, uma boa forma de passar o tempo. Não é a melhor atuação da Lawrence (mas é a melhor dentro dos filmes do Russell), não é o melhor filme dele e não é a melhor personagem que está indicada para Melhor Atriz no Oscar. Eu não duvido que Jennifer ganhe, tendo em vista o fato dos Oscars serem completamente aficionados por ela por motivos que superam a minha compreensão.

Porque, cá entre nós, ela é boa, mas não é isso tudo.

 Só verdades.

O principal ponto a ser discutido sobre esse filme, entretanto, não faz parte do filme em si. É o apagamento de mulheres “mais velhas” no cinema. Joy é uma personagem de uns trinta e poucos anos, uma mulher bem mais velha do que Lawrence que tem vinte e cinco anos atualmente. Quando eu ouvi várias pessoas comentando sobre isso na mídia, falando sobre como era um problema para atrizes mais velhas que já tem problemas para serem colocadas em papéis de protagonismo. E é um grande problema. Há uma espécie de data de validade para mulheres em Hollywood. Isso faz com que mulheres “mais velhas” – o que nem precisa ser tão mais velhas assim, passando da imagem de garotinha já não conta mais – sejam colocadas em papéis diferentes dos homens com a mesma idade.

Essa chamada data de validade de mulheres na indústria gerou essa esquete maravilhosa da Amy Schumer com a Tina Fey, Julia Louis-Dreyfus e a Patricia Arquette:

Isso é um problema porque cria uma ideia de que mulheres mais velhas não conseguem ser atraentes e precisam, a todo custo, serem substituídas pelo “modelo mais novo”. Só que, felizmente, mulheres não são carros ou aparelhos de celular. Mulheres fora do padrão – seja de idade, estético, sexual, etc – existem e precisam estar representadas. O pior é que quando eu digo mulheres fora do padrão de idade geralmente o pensamento vai diretamente para mulheres mais idosas, mas as atrizes em questão são as que estão entre a faixa de idade dos 30, 40 ou até 50. Mulheres que não são idosas, mas também não estão na flor da idade para serem as garotas sexualmente atraentes que podem e devem ser parceiras de homens atraentes independente das idades.

O Buzzfeed fez um post maravilhoso sobre isso, trocando as diferenças de idade que as mulheres em filmes tem para os seus respectivos parceiros homens pelo inverso. É impressionante como os pares com as mulheres mais velhas do que os homens ficam muito estranhos para a gente, que estamos tão acostumados a ver casais como o Jack Nicholson (60 anos) com a Helen Hunt (34 anos) em Melhor É Impossível.

Não há nenhum problema com a atuação da Jennifer Lawrence no filme. Mas por que ela foi escolhida e não uma atriz com a idade mais qualificada para a personagem de Joy, que tinha entre 34 e 44 anos durante o período do filme? Por que não Kate Winslet, Charlize Theron, Drew Barrymore, Eva Longoria ou Judy Greer? Elas tem 40 anos. Eva Green, Kristen Bell, Laura Prepon, Michelle Williams e a Olivia Munn tem 35 anos. Por que temos que sair desse filme com a imagem mental de que uma mulher entre seus 30 e 40 anos tem a aparência de uma mulher de 25 anos?

 
COLOQUEM MULHERES MAIS VELHAS EM FILMES DE PROTAGONISMO

Toques e Sutilezas

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Carol é um filme complicado de descrever, complicado de criticar e ainda mais complicado de explicar o porquê de eu ter adorado tanto. O filme conta a história de amor entre duas mulheres Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) na Nova Iorque dos anos 50. Carol é uma mulher no meio de um divórcio que tem uma pequena filha e sabe da sua orientação sexual, do seu direcionamento para um gênero diferente do que seria aceito na época. Therese é uma simples trabalhadora de loja. Ela tem um namorado que ela não ama e um sonho de uma vida mais interessante.

Nisso, ela encontra a Carol, que está comprando um presente para a sua filha na loja onde Therese trabalha. Uma troca de olhares poderosa, algumas palavras trocadas e nada mais. Em um mundo tão heteronormativo e tão hipersexualizado quanto o que vivemos atualmente, esse pode ser o começo de um filme muito chato. Um filme que não acontece nada, um filme “paradão”. Se você achou isso de Carol, meus pêsames. A realidade é que esse filme é um pouco de tudo que me fascina em histórias de amor bem contadas, histórias de amor onde se leva tempo para a imersão do espectador e a compreensão daqueles personagens.

Carol é um filme sobre olhares, toques, inspirações e suspiros. É um filme de pequenos toques e que, pouco a pouco, vai ganhando um carisma e uma satisfação tocável de assistir. A sutileza de cada um daqueles toques e daqueles olhares que vão atraindo Therese à Carol, que vão fazendo com que essa menina que nunca tinha pensado na possibilidade de se envolver com uma mulher se coloque dentro do carro dela e depois do seu quarto. As duas se aproximam como se a própria gravidade as atraísse, como se Therese fosse um planeta e Carol fosse o seu sol. O próprio talento para fotografia da morena flui quando Carol está envolvida, cresce como se ela se alimentasse da energia que Carol emana.

Pode parecer um filme parado, na superfície. Há a impressão de que seja uma história chata enquanto não há grandes gestos de amor. A questão é que nós estamos muito cheios dessas histórias. Grandes atos de amor, grandes cenas de sexo, grandes romances onde todos vão sacrificar tudo um pelo outro. Há um excesso disso na indústria, um acúmulo de Nicholas Sparks e de filmes sobre casais heterossexuais brancos que tem romances memoráveis e correm um na direção do outro com bedroom eyes.

 

Você vai me dizer que não TEM BEDROOM EYES NESSE FILME?

 

Pois bem, Carol tem tudo isso. Tem um romance exemplar entre Carol e Therese, tem um dilema, tem embate, tem tensão. Tem até tensão sexual! Tudo bem que não é uma tensão sexual heteronormativa. Carol e Therese não são um casal lésbico para homem ver e se divertir. A cena de sexo delas não é para causar atração sexual, não é uma cena para ser usada de token pelos outros de como são progressistas. E é impressionante de apesar de ser explícita, a cena é tão sutil quanto o resto do filme.

Um fato é que esse filme merecia mais indicações ao Oscar, merecia a indicação de Melhor Filme. Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante não são o suficiente. 6 indicações não são suficientes enquanto Melhor Filme, Melhor Diretor e outras tão importantes e tão relevantes para esse filme foram deixadas de lado. Quem sabe se o final do filme fosse mais infeliz, quem sabe se Carol e Therese não pudessem ter a chance de terminarem juntas (o que nem explícito é feito), quem sabe se uma delas tivesse morrido. Talvez com essas circunstâncias, esse filme fosse mais indicado. Talvez se ele fosse mais fácil para os espectadores não LGBT+, espectadores que não fazem parte do grupo de mulheres lésbicas que se relacionam tanto com as duas, então o filme seria mais indicado.

Mas Carol merece ser visto, independente de qual letra é a sua na grande sopa de letrinhas de orientações sexuais e identidades de gênero. Visto com paciência e com cabeça aberta. Visto com a ideia de que esse filme vai te abrir os olhos em outra perspectiva.