You’re Terminated!

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Quem é mais assustador, afinal?

Quem me conhece sabe que eu sou aficionada por O Exterminador do Futuro. Eu vi todos os filmes, li todas as informações que eu poderia colocar as mãos em, vi o seriado (que até hoje é um dos meus seriados favoritos).21 de Abril de 2011 foi um dia em que eu realmente fiquei preocupada e quando não havia nenhuma menção a um ataque a todas as nações do mundo na mídia, eu fiz o sensato e fui fazer uma maratona de todos os filmes de novo.

Em resumo, eu gosto muito de Exterminador do Futuro. Quer dizer…

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Passando por isso, eu só posso dizer que eu fiquei muito feliz em conseguir pegar o livro em capa dura com a cara linda do T800 para ler, aquele maravilhoso da Darkside Books que eu (ao menos eu, não sei vocês) sempre fiquei babando nas livrarias. Quer dizer, existe alguma coisa melhor do que explorar ainda mais um universo que você já gosta? É como receber um bilhete premiado pra uma loteria que você já sabe que vai ganhar. Até porque mesmo que fosse um livro ruim, eu iria conseguir tirar alguma coisa de importante ou relevante lá de dentro.

No caso, não é um livro ruim. É um livro incrível! Desde a edição e a formatação do livro, a forma como os capítulos são iniciados e as interrupções da interface do Exterminado nas páginas, até o texto que conta a história em uma versão romantizada do roteiro original, de 1984. Esse fato faz com que não haja muitas diferenças de trama ou de andamento, claro. Não há grandes surpresas no conteúdo e no seu andamento. Isso, inclusive, é uma coisa que me fez achar que o livro pode se comunicar com até o leitor que não conhece a saga, aquela pessoa que, por algum motivo, nunca viu nenhum dos filmes. Ou seja, estava presa dentro de uma caverna. Só pode ser, né?

Para a pessoa que já conhece a história e, ainda por cima, conhece o primeiro filme muito bem o livro pode parecer um pouco monótono. Afinal, nada é mudado. As falas são iguais, os cenários se repetem, os personagens se movem da mesma forma. Mas o jeito como é desenvolvido o ambiente faz com que o livro seja um grande acréscimo, um adendo muito importante para quem aprecia essa história, principalmente na questão da recriação do universo em que o filme está inserido. No caso, esse universo é o ano de 1984. Desde a citação de marcas, estilos musicais, filmes e todo o espírito que havia nos anos 80, o livro faz questão de te imergir nessa década e nesse ano. Isso acontece, principalmente, pelas narrações de Sarah Connor que, acima de tudo, é uma garota criada naquela época e que está sendo inserida em uma época muito maior. Tal como no filme, Sarah é uma pessoa comum. Ela tem um trabalho comum, uma vida comum, se veste que nem uma garota comum e está tendo um dia de cão.

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#VDM

Essa pra mim é uma das melhores partes do Exterminador original, tanto filme quanto neste livro: O fato de que Sarah Connor nada mais é do que uma pessoa comum presa em um trama inimaginável. Afinal, não é todo dia que uma mulher descobre que a sua vida está em perigo porque ela, no futuro, vai ser mãe do escolhido para salvar a raça humana do apogeu das máquinas. É o tipo de coisa que faz você surtar um bocado, ter certeza que essas pessoas estão malucas e ainda fazer questão de tentar ao menos conseguir saber se há alguma possibilidade daquilo ser verdade.

O fato de Sarah ser uma mulher normal, uma pessoa comum, para muitos pode ser um clichê ou um problema. Inclusive, o livro apela para alguns clichês bem desnecessários que demonstram, talvez, uma incapacidade dos autores de entender como mulheres funcionam. Como, por exemplo, a citação de uma espécie de “consciência” externalizada para Sarah no formato das chamadas “Sarinhas”. Eu imagino que na cabeça do escritor todas as mulheres talvez tenham pequenas versões delas mesmas em desenho animado dando opinião sobre as coisas ou sapateando – algo bem Anastasia Steele, diga-se de passagem -, mas, ao menos, as Sarinhas não fazem muitas aparições na história. Poderiam ter sido cortadas na edição que só deixariam o livro melhor.

Apesar delas, o fato de que Sarah é uma mulher comum (com futilidades, vulnerabilidades, problemas de autoestima, etc) só faz com que a personagem cresça muito mais do que personagens que já nascem sendo grandes. Sarah teve que aprender tudo o que ela passou para frente – sozinha. Ela saiu da sua vida comum, onde tudo estava ao seu alcance, para uma onde ela tinha que lutar contra pessoas (ou ciborgues) que estavam tentando lhe matar. Ela saiu do seu emprego de garçonete para ter que aprender a lutar, manejar armas, fazer curativos, dirigir agressivamente e viver fugindo. Isso tudo enquanto ainda cria um filho e o prepara para o apocalipse impossível de parar.

Afinal, o Judgement Day vai acontecer independente do que ela fizer ou deixar de fazer. Não existe como impedir o Judgement Day ou o apogeu das máquinas. Isso vai acontecer no universo de Terminator. (E eu, infelizmente, também acredito que vai acontecer no nosso universo, é uma daquelas coisas que me deixa mais interessada ainda por essa história e mais apavorada ainda quando eu leio notícias de inteligencias artificiais sendo criadas e coisas loucas assim.)

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O que o Judgement Day diz toda vez que falam que ele acabou ^

Esse desenvolvimento da Sarah é o que dá mais gosto de ler o livro para acompanhar. No filme, ele está presente, mas ele é sutil. No livro é claro enquanto acompanhamos o seu ponto de vista e vivemos a sua agonia em ver todo o seu universo desabar. Sarah Connor se torna muito mais do que uma mulher fantástica, ela se torna uma guia para que nós mesmos consigamos entrar no mundo do Exterminador. Este que, inclusive, é a causa e efeito para todas essas mudanças. Afinal, se ele não tivesse vindo até o passado caçar Sarah, então Reese também não teria vindo salvá-la. Então John Connor não teria nascido. Mas, ao mesmo tempo, sem o Exterminador em 1984 a Cyberdyne Systems não teria sido criada e a Skynet não existiria do jeito como ela existiu.

O paradoxo já é presente em todos os filmes da saga, tanto nos bons quanto nos ruins, mas é ainda mais claro no livro enquanto os autores tentam explicar como ele funciona. Ao mesmo tempo, corre pelas palavras do texto a ideia de que esse futuro é inevitável. Que apesar deles repetirem que nós fazemos o nosso próprio destino, que até Sarah poderia fazer o seu próprio destino, isso não é exatamente real. Afinal, se há pessoas vindo do futuro para mudar coisas, o quanto desse futuro já não está marcado em aço? Como eles poderiam ir ao passado tentar alterar o futuro sem danificar as suas próprias existências? Ou será que os eventos da vinda do Exterminador para 1984 só agilizaram o Judgement Day? Será que os eventos do livro só modificaram o inevitável ou criaram o inevitável?

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Essa foto, afinal, que importância ela tinha no tempo e do espaço?

Como Sarah mesmo aponta: Dá para enlouquecer pensando nesse paradoxo.

Mas depois de Sarah a melhor parte do livro é o grande criador de toda essa confusão. O Exterminador e as suas cenas, as suas interações, trazem vida à história – apesar dele ser uma criatura só meio viva. O ciborgue, muito bem explicado pelos autores, é apresentado da forma mais visceral que eu poderia esperar ler. Ele é uma máquina e em nenhum momento se supõe diferente. O texto que o engloba é lido de uma forma diferente, as palavras são manuseadas de maneira diferente, formando frases que passam a frieza dos atos do Exterminador. Mesmo quando há aquelas frases de efeito já esperadas para esse tipo de personagem e esse tipo de franquia, ela é feita de forma maquinal.

O melhor exemplo disso par amim é um dos seus últimos capítulos, onde o Exterminador está fazendo uma checagem de seus danos e calculando quanto tempo ele ainda pode durar com a sua célula de energia nuclear. O capítulo termina de uma forma bem simples: “O Exterminador ainda duraria muito, muito tempo. As moscas, já se fartando da pele em decomposição do ciborgue, ficariam felizes em ouvir isso”. É sutil lembrar que o Exterminador é uma máquina, é simples, é abordado o tempo todo. Mas o elemento humano que o rodeia é o que mais destaca na sua criação. Afinal, o Exterminador é uma máquina de morte, mas mesmo ele precisa de uma sobrepele humana. Precisa carregar essa pele morta, esse sangue injetado, essa vida morta que lhe dá uma aparência e lhe confere a habilidade (falha) de se mesclar ao nosso redor.

Ao final do livro, quando ele começa a morrer, você se pergunta o que afinal significaria estar vivo para um Exterminador. A sua pele era um tecido vivo, mas que não tinha nenhum ligamento com o metal morto que ele carregava. O seu objetivo, matar Sarah Connor, era somente isso, mas também era algo que estava lhe guiando. Algo que estava lhe fazendo levantar e seguir. De certa forma, uma subvida que tinha sido dada a ele por uma ordem superior. No fim das contas, o Exterminador é, de certa forma, como a vida, imagino. Um ser que não pode ser barganhado com, que não sente piedade ou remorso ou medo e que absolutamente não vai parar até que você esteja morto.

Meio mórbido, mas interessante. O contraste entre a Sarah e o Exterminador, antagonistas completos, forma um arco excelente e uma leitura tão boa quanto uma experiência vendo o filme.

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Como se diz adeus… Em robô?

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Há algum tempo eu me identifiquei como assexual, ou seja, uma pessoa que não sente atração sexual. Isso foi bastante revelador em muitos sentidos e me ajudou bastante em ser uma pessoa melhor, em me entender melhor. Mas eu decidi começar esse texto assim não para falar de mim (isso virá em outro texto, talvez). Eu queria falar de um livro que foi indicado para mim depois que eu passei a falar mais abertamente sobre ser assexual. O livro é Como Dizer Adeus em Robô, da Natalie Standiford. Ele foi indicado para mim pela Mareska, do amargareska.com.br (que antigamente era eu li, e agora?), que é a rainha dos livros young adult e de todas as coisas maravilhosas (e terríveis) do mundo.

De qualquer maneira, quando Mareska me indica pessoalmente, eu faço o que eu posso para ler. E eu nunca me arrependo porque ela tem aquele super poder de só te indicar coisas que ela sabe que você vai amar. É maravilhoso.

Como Dizer Adeus em Robô foi uma excelente surpresa dessa forma que te pega pelo cangote e te coloca para ler alguma coisa mesmo que você mal tenha o hábito de ler nesses últimos dias. O livro conta a história de Beatrice Szasbo e da sua amizade com Jonah Tate, o Garoto Fantasma. Beatrice é nova na escola depois que o seu pai decide que eles vão se mudar para ele poder ensinar na melhor faculdade de medicina do país. Beatrice é uma daquelas adolescentes que não consegue se adaptar muito bem a sociedade como um todo. Ela não é esquisita e nem é uma excluída social, mas ela é ligeiramente diferente. Beatrice não se relaciona das pessoas da maneira como as outras garotas ou as outras pessoas da sua idade se relacionam e isso é perfeitamente ok para ela.

De qualquer maneira, em uma reunião da escola onde todos os alunos tem que se sentar para ouvir o diretor, Beatrice se senta ao lado de Anne Sweeney, que é a sua primeira amiga. Do outro lado, se senta Jonah Tate. Anne conta para Beatrice sobre Jonah e como ele ficou conhecido na escola como Garoto Fantasma. Jonah, um verdadeiro excluído social, recebeu esse apelido porque ele, bom, realmente parece um fantasma. Ele vaga, não anda. Ele tem cabelos bem brancos, uma pele pálida e não parece estar vendo ninguém ao seu redor. Se não fosse pelo simples prazer de fazer bullying com o garoto chamá-lo de Garoto Fantasma poderia ser uma descrição ótima para o personagem.

A história continua e Jonah e Beatrice acabam ficando amigos depois que ela começa a escutar um programa de rádio – Night Light Show – indicado por ele. Lá, durante a madrugada, ele é mesmo o Garoto Fantasma – sem piadas dos seus colegas – e ele pode conversar com outros insones da cidade de Baltimore. Inclusive com a Garota Robô, Beatrice, que começa a ligar para o programa e também participar das conversas.

A assexualidade, no livro, nunca foi citada e não é um ponto forte. Mas como uma assexual que está sempre procurando evidências nos produtos de mídia que algum personagem possa me representar, eu me senti muito presente nessa história tanto em Beatrice quanto em Jonah. Nenhum dos dois personagens aparenta sentir atração sexual durante a narrativa. Beatrice as vezes se refere a personagens como bonitos, mas ela não tem interesse nenhum em entrar em uma relação sexual com eles ou parece sentir esse tipo de atração. Jonah então… É ainda mais claro na situação dele que ele não se enquadra nessa definição – do allosexual, da pessoa que sente atração sexual – enquanto ele não se enquadra em muitas definições que não normatizadas pela nossa sociedade onde o sexo é a grande regra de normal.

De certa forma, eu me senti muito mais próxima de Beatrice por ela ser um extremo menor do que de Jonah. Se tivesse que colocar alguns rótulos neles, colocaria Beatrice como assexual heteromântica e Jonah como assexual arromântico ou demiromântico.

Eu não sou muito boa para explicar tramas de livros em geral, especialmente quando eles mexem bastante com os meus sentimentos (e esse mexeu muito, ok), mas a trama começa assim. Enquanto Beatrice e Jonah vão ficando amigos, eles começam a virar o suporte emocional um do outro para as coisas difíceis que tem que lidar com, principalmente Jonah. Ele tem uma trama familiar bastante complicada, com uma história que eu não pretendo contar nessa resenha (isso é uma resenha?). Beatrice também tem que lidar com alguns vários problemas na sua família, com a sua mãe que desde o começo do livro me dá muitos sentimentos.

A mãe de Beatrice é quem lhe dá o apelido de Garota Robô. Beatrice é uma garota que demonstra sentimentos de uma forma diferente e eu me relacionei muito (MUITO) com isso. É mais do que eu achar que ela é assexual – outra coisa que eu também me relaciono com, como já falei no começo desse post -, mas uma forma de ver o mundo que ela tem que me deu calafrios, porque parecia que eu estava escrevendo aquele livro. Beatrice não entende todos os dramas das pessoas, ela não entende toda a atenção que seus companheiros de escola dão para coisas triviais, ela não entende toda a exaltação da vida escolar e das relações interpessoais de adolescentes, especialmente românticas. Ela é uma personagem que muitas vezes parece ser apática, inclusive para a própria mãe, mas que na verdade só tem uma visão diferente da realidade.

Uma concepção incorreta das pessoas (mais velhas) é que adolescentes não tem nenhum tipo de problema nas suas vidas. De que como eles são só adolescentes e não tem que lidar com contas (muitos tem, mas não é o nosso caso) ou com responsabilidades de ser adultos, então não há problemas. Mas a realidade é que a adolescência é uma época muito complicada para qualquer um que não se adapte 100% ao que a sociedade quer. E qualquer um que diz o contrário precisa ouvir as palavras da Neide:

Pardon my french, mas ser adolescente é difícil para cacete. É uma época em que toda a sua vida está mudando na sua frente, em que você está mudando bastante e há inúmeras coisas que são esperadas de você. Se você é mulher, você tem que ser linda, sensual, animada, divertida, inteligente, focada, interessada, culturada. Mas ao mesmo tempo não pode ser muito nada disso, pois se não outras características são dadas a você. A adolescência geralmente é a época em que se descobre sobre a sexualidade, a “época de experimentar”, e se isso não é algo pesado na nossa sociedade LGBTfóbica então poucas pessoas conhecem o que é um problema difícil.