Você quer bolo? Aqui tem!

Eu sempre tive uma grande paixão: Bolo. Eu amo bolos. Amo comer bolos, amo a ideia de fazer bolos (apesar de eu não exatamente saber como se faz um bolo), amo decorar bolos e, também tirar foto de bolos – e postar para falar sobre esse doce maravilhoso! Que é o melhor doce do mundo, como todo mundo sabe!

Então já fazia algum tempo que eu estava com a ideia de abrir um instagram (principalmente depois de ter falado sobre como essa rede social é a minha favorita aqui) e ai eu finalmente inaugurei a minha ideia na semana passada. O Sommelier de Bolo (@sommelierdebolo) é para fazer review de, claro, bolos – mas também vou fazer de outros doces porque eu não tenho nenhum foco mesmo, então pra que tentar fingir que tenho, não é?

Para anunciar o instablog aqui no Coisas Desiguais, o meu blog lindinho, eu decidi fazer mais uma lista de instagrams que falam desse assunto – bolos ou doces. Sem mais delongas, a lista!


A Whipped Cake é uma confeitaria de Brisbane, na Australia, que faz alguns dos bolos mais maravilhosos que eu já vi na minha vida. Eles são todos incríveis e exatamente no estilo que eu mais gosto. Sem muito requinte exagerado, sem muito enfeite, sem muita zoeira e só aquele sabor mais do que delicioso de um bolo fenomenal.


Tem coisa mais gracinha? O Cuppy and Cake é um dos meus blogs favoritos para ver bolos principalmente por conta do estilo super delicado das coisas que eles publicam. Se você gosta desse tipo de “culinária arte” então aqui é o lugar para procurar! Inclusive, recentemente eles fizeram uns cookies do Pusheen que são oficialmente o MEU SONHO DE CONSUMO. Não sei porque não os tenho comigo nesse momento, honestamente.


O Tastemade já era fenomenal na versão americana (que super vale a pena olhar se você gostar de ficar para sempre obcecado por vídeos de comida), então agora chegando na versão brasileira fica incrível (novamente, obcecado por vídeos de comida!). Além de fazerem aqueles vídeos maravilhosos (!!!!!!) que a gente adora compartilhar no facebook, eles também publicam receitas e na versão BR tentam incorporar sempre coisas brasileiras nas receitas, assim como a sua versão do buzzfeed, o Tasty Demais.


A Unbirthday Bakery é também fenomenal, tal como a Whipped Cake. Isso deve ser alguma coisa de doceiras australianas, porque a confeitaria também fica na Austrália, mas em Sidney. Eu cometi o erro de entrar no site deles e lá tem os preços (que não são caros!) e estou quase querendo ir para a Austrália só para encomendar um bolo. Vai dizer que você não queria uma coisa dessas só para você? A melhor parte: Eles não usam fondant em nada (e eu não gosto de fondant, apesar de achar lindo).


A Magnolia Bakery, que está para abrir a sua primeira filial no Brasil (que infelizmente é em São Paulo, grrrrr) é um verdadeiro sonho de consumo meu. Tudo que eles tem lá é lindo e parece gostoso, mas todo mundo sempre me diz que é maravilhoso MESMO. Porque, né, tem aquelas coisas que parecem gostosas e todo mundo sempre me diz que não são (tipo Cake Boss, infelizmente). Sério, ok. OLHA ESSES CUPCAKES. Não dá uma vontade de lamber a tela?


Rocambole de pizza? Tem no feed da Gordelícias! Além de ser um blog super gracinha e que me fez stalkear a Raquel Arellano em todas as redes sociais (basicamente), o Gordelícias tem um feed maravilhoso no instagram. Ela alterna muito bem entre as fotos das receitas deliciosas, indicações de onde comer e ainda aquele drops de vida de verdade que a gente sempre gosta de ver no conteúdo. É muito legal, sério!


Quer mais? Vai lá no Sommelier! :P

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A diferença entre argumentos e “lacração”

respira fundo miga

Como uma pessoa que tem o costume de entrar em discussões na internet, eu acho que convivo um pouco com algumas coisas que considero as piores coisas da internet inteira. É chuva de gente falando coisas completamente absurdas e disfarçando aquilo de opinião, de gente não sabendo argumentar, de gente atacando os outros em prol dos seus próprios preceitos (e esquecendo que do outro lado da tela tem uma pessoa de verdade que tem sentimentos de verdade). Mas, acima de tudo, eu geralmente me esforço para argumentar com as pessoas com quem eu estou discutindo e tentar fazer elas entenderem o porquê de eu estar discutindo com elas.

Não faz muita diferença para mim se eu consigo mudar a mentalidade da pessoa, desde que ela entenda porquê eu tirei tempo do meu dia para discutir com ela. Ou seja, que essa pessoa seja capaz de entender que a opinião dela fez com que algum dos meus valores tenha sido afetado pelo seu comentário. No caso, vale dizer que eu geralmente discuto na internet porque alguém está sendo LGBTfóbico ou machista, esses dois são os principais motivos que me levam a discutir com os outros. Especialmente no grande reino chamado de Sessão dos Comentários em Portais de Notícias.

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Isso é uma pessoa falando bosta pra eu discutir?

Mas esse texto não é para falar sobre como eu faço discussões na internet, porque eu tenho a consciência limpa sobre a forma com que eu falo com as pessoas. Ok, sou um pouco grossa as vezes, mas eu tento ao menos. Esse texto é para falar de 5 coisas que sempre que eu vejo sendo usadas em ativismo online eu tenho vontade de abandonar a internet para nunca mais voltar. Essas 5 coisas que, inclusive, são usadas por pessoas que geralmente eu concordo com, mas que, acima de tudo, não são argumentos. Essas coisas são, no caso, frases de efeito que viraram quase tema em discussão na internet. São frases “lacradoras” que as pessoas usam achando que estão tacando o microfone no chão e sendo fenomenais – só que na verdade estão deixando de argumentar em prol de likes e de se achar.

Sem mais delongas, elas são:

  1. “Seja menas”.
  2. “Não estou aqui para dar biscoito para macho”.
  3. “Vai estudar”.
  4. “Chora mais” e todas as suas infinitas variações.
  5. “Cala a boca, macho” e as suas também infinitas variações.

Qual é o problema dessas coisas? De boa? Elas enfraquecem um diálogo. Uma coisa que muita gente não parece entender sobre ativismo online (e, de boa, eu não sou a rainha do ativismo e nem estou aqui para ditar as regras da internet, mas isso é bem óbvio) é que você nunca vai conseguir passar a sua mensagem enquanto está hostilizando a outra pessoa. Se o seu objetivo é, como o meu, fazer a pessoa entender o porquê de você estar discutindo com ela, então falar “seja menas, linda” não vai te ajudar em nada. Você não deu nenhum argumento para essa pessoa, você só fez com que ela se sentisse hostilizada sem saber porque. Se o seu objetivo é fazer com que a pessoa entenda o porquê dela estar recebendo esse puxão de orelha, então falar “chora mais” não vai ajudar em nada. Essa pessoa só vai se sentir atacada e, assim, se bloquear para qualquer aprendizado.

O meu problema com “vai estudar” é um pouco mais complexo. Até porque esse comentário não só acaba com qualquer capacidade de debate como ele também pode fazer com que a pessoa realmente vá estudar e estude errado. Não custa nada além de um pouco de paciência explicar para as pessoas as coisas no lugar de mandar ela ir estudar sozinha. Até porque, se você quer provar um ponto, explicar para a pessoa só vai ajudar ao seu ponto passar mais fácil, não é? No mundo utópico é isso o que acontece, mas no mundo real nem sempre depois de você explicar bonitinho a pessoa entende. Isso é um saco, eu entendo. Mas aí você tem a oportunidade de sair dessa discussão tendo feito a sua parte e, isso, as vezes é tão importante quanto fazer com que a outra pessoa entenda o seu ponto. Mas, além disso, tem grandes chances de que quando você manda uma pessoa “ir estudar”, ela talvez vá usar a maravilhosa forma de comunicação que é pesquisar no google. Quem garante que pesquisando no Google essa pessoa vai achar as informações certas?

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Um exemplo prático. O motivo que muitas vezes me faz discutir na internet é por conta de pessoas sendo afóbicas (ou acefóbicas, que denomina pessoas que são preconceituosas contra assexuais), o que muitas vezes acontece por ignorância das outras pessoas diante da assexualidade. Já tive que discutir com gente que falava que assexualidade era doença, que assexualidade era parte de trauma psicológico, que assexualidade é “uma pessoa que não conseguiu achar ninguém e ai arranjou essa desculpa”. Tudo isso é um saco, claro, mas eu prefiro achar que essas pessoas são só ignorantes diante do que é assexualidade. Principalmente porque em muitas dessas discussões as pessoas não usavam nem assexual para se referir às pessoas dessa orientação sexual, mas usavam “assexuado”. Você já pesquisou “assexuado” no Google? Eu já. É menos ruim do que eu esperava, mas ainda tem um monte de informação errada sendo propagada.

Dessa forma, ao mandar a pessoa “ir estudar”, eu estaria mandando a pessoa se informar em locais que poderiam muito bem estar dando as informações todas erradas. Enquanto isso, eu, uma pessoa perfeitamente apta para lhe explicar, estaria ali “lacrando” com a resposta bombástica.

Então chegamos aos dois últimos termos que estão presentes, principalmente, em discussões dentro de espaços feministas: “cala a boca macho” e “não estou aqui para dar biscoito para macho” com as suas variações. Eu tenho um problema muito sério com esses termos porque, de novo, eles hostilizam no lugar de fazer qualquer bem. Como eu já disse, em uma discussão, quando você hostiliza a outra pessoa, ela para de ouvir e somente responde de forma hostil. Nada mais vai entrar na cabeça daquela pessoa, o debate acabou naquele momento. Mas é um pouco além disso, quando se usa esse tipo de resposta, você não está nem tentando defender e nem tentando argumentar nada. Não tem nada sendo dito por isso, só um desejo de hostilizar aquela outra pessoa – o ‘macho’.

Ao mesmo tempo, o que me incomoda mais nesses argumentos não é o fato de que esses comentários são feitos geralmente sem nem ouvir o que a outra pessoa está dizendo. São feitos só porque é um homem. E, honestamente, esse tipo de ativismo que exclui os outros do debate não é o meu tipo de ativismo. Eu acho que, sim, existe o protagonismo que é necessário, mas a conversa tem que abranger todo mundo. E, como eu já fico repetindo o texto todo, esse tipo de comentário só exclui a pessoa, hostiliza a pessoa. Esse tipo de comentário só faz com que a pessoa crie ainda mais um bloqueio a esse tipo de conversa. Feminismo vira sinônimo de odiar homens porque ao invés de lhes explicar o porquê de que a opinião de mulheres é mais importante, a gente manda eles irem embora de uma forma violenta.

No fim das contas, provavelmente nenhuma das pessoas que usa esse argumento vai concordar ou talvez nem mesmo pensar no que eu estou dizendo. Talvez esse post receba uma chuva de comentários falando que eu tenho que parar de querer dar biscoito para macho.

Mas, na real, eu só quero um espaço melhor na internet onde as pessoas que estão “do meu lado” nessas brigas sejam capazes de argumentar sem usar jargões dignos do Zorra Total.

Batman V Superman: Man Pain

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Então, né, gente. Cá estamos.

Vou começar o texto já falando o que o título deixa bem claro: Eu não gostei do filme. Eu sai dele me perguntando porquê eu tinha perdido o meu tempo com esse filme quando eu poderia estar assistindo qualquer outro em cartaz. E, olha, ingresso de cinema está caro. De qualquer maneira, eu fui ver o filme e tentei ser imparcial assistindo. Já tinha lido as reviews que falavam mal dele – várias delas, muitas mesmo – e já tinha me divertido com a ideia de que seria um filme que iria marcar uma geração com uma grande falta de trama. Só que eu realmente tentei aproveitar o filme, tentei aproveitar a grande trama que eles estavam tentando criar e, acima de tudo, tentei aproveitar a ideia de ver dois super-heróis que eu não particularmente gosto se batendo.

Depois de 1h30 de filme e nada tendo acontecido, eu desisti de aproveitar o filme e de ficar falando para mim mesma ‘ok, agora vai melhorar!’. Não vai melhorar, não melhora.

Batman v Superman praticamente peca de todas as formas que um filme de super-heróis peca para mim. O primeiro ponto é o que eu gosto de chamar de um filme que se esforça muito para ser DARK and EDGY and DRAMATIC, o que pode ser traduzido por um filme que você consegue ver que ele está tentando muito ser aquele filme super sério que vai fazer todos ficarem pensando no final do filme e refletindo filosoficamente. O filme tenta muito, muito mesmo, ser esse filme. Quase 2h33 de falas dramáticas, ângulos dramáticos, frases fortes e cheias de efeito moral, alucinações que são feitas para nos ensinar morais e lembranças de um passado sombrio (como o fato de nós termos que ver DE NOVO os pais do Bruce Wayne serem mortos).

O filme inteiro gira ao redor do argumento de que talvez, algum dia, o Superman se torne uma força fora de controle e vira um combatente da raça humana e eles repetem tantas vezes que isso é muito provável e que ele poderia aniquilar toda a nossa raça que você quase acredita que seja uma possibilidade real. Como o próprio Bruce diz em um desses grandes momentos dramáticos: se há no mínimo 1% de dúvida sobre se isso aconteceria é preciso que medidas sejam tomadas. Só que, de verdade, quem realmente sentiu o efeito de que isso era uma possibilidade? Dói em mim ter que defender o Superman – uma vez que eu detesto o Superman -, mas o jeito como o Batman fica ‘vilanizando’ ele o filme inteiro sem nenhum motivo faz com que eu pense que ele estava, na verdade, de recalque.

O Bruce começava a falar sobre o Superman e eu começava a pensar ‘mas você tá tão chateadinho assim porque ele ganha umas manchetes de jornal boas?’. O Batman tinha aquelas cenas marcantes de combate com o Superman e eu só conseguia pensar: ‘isso é realmente sobre a Man Pain do Batman?’.

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Quando o grande dilema do filme é resolvido pelo fato de que o Bruce e o Clark tem mães com o mesmo nome e então o Batman decide salvar a mãe do Clark SÓ PORQUE ELAS TEM O MESMO NOME, eu cheguei a conclusão que era recalque sim. Batman estava com ciuminho porque os jornais não gostaram da abordagem dele de bandido bom é bandido torturado e marcado para morrer na prisão. Ele deveria vir conversar com os leitores brasileiros de jornais que iriam adorar essa abordagem, como se pode ver diariamente em comentários de portais de notícias. Se o Batman nessa abordagem estivesse no Brasil, ele provavelmente iria ser aclamado o grande salvador da pátria e homenageado pelas incríveis bancadas da bala espalhadas pelas assembleias do país.

Aliás, além de recalcado o Batman desse filme é um hipócrita. Ele pode sair por ai torturando e matando as pessoas e o Superman tem que ser punido porque ele acidentalmente quase demoliu a cidade inteira enquanto estava tentando salvar a cidade? Tipo, gente? Batsy, você não tem moral para falar do Supes, ok? Você tá matando todo mundo aí. Você arremessou um carro em cima de outro carro com o Batmóvel. Você tem uma metralhadora com balas de verdade acoplada no Batmóvel. Você está deliberadamente torturando e marcando as pessoas com um morcego enquanto sabe plenamente que isso vai fazer com que elas sejam mortas na prisão. Isso não é o tipo de atitude de alguém que pode julgar outra pessoa por matar, ainda mais mortes que foram acidentais.

No final de tudo, eu juro que eu fiquei tentando entender esse filme, mas ele não fez o menor sentido. E, no final, Batman v Superman foi sobre o Batman tendo uma grande Man Pain, sobre o Lex Luthor sendo megalomaníaco, sobre o Superman tendo nenhum desenvolvimento no filme, sobre como a Louis ama o Superman demais mesmo ele só tendo biquinho e sobre como a Wonder Woman vai ser uma personagem maravilhosa quando se derem ao trabalho de dar uma personalidade para ela.

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Maravilhosa demais mesmo sem personalidade nenhuma <3

No fim, eu só tenho que lembrar ao leitor casual que eu não sou exatamente fã de quadrinhos e não os leio. Então se você quiser uma opinião de alguém que é tão viciado em quadrinhos que fez a monografia sobre quadrinhos e tem um vlog sobre quadrinhos, deixo um vídeo aqui no final.

Aliás, vamos lembrar que logo vai sair um filme maravilhoso do morcegão!

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Onde que começamos a parar?

pensar diferente

Ódio é um problema. Ódio generalizado como uma forma de manifestação é um problema ainda maior. Quando você não consegue distinguir uma opinião de ódio, há um grande problema. Cada vez mais, nos reinos distantes da internet, esse ódio tem se disfarçado de ativismo. O ódio aparece no discurso ativista LGBTfóbico, ele aparece no discurso ativista machista e ele aparece, mais do que nunca, no discurso ativista anti-PT. Eu não vou me referir a esses discursos como anti-corrupção, mas como discursos anti-PT. Um discurso contra a corrupção não escolhe um partido, ele não tem um rosto que é o furor das manifestações. Ele é um discurso contra o simbolismo de um ato – a corrupção. E não é isso que vem acontecendo.

Muito se fala sobre a seletividade que acontece nessas manifestações contra a corrupção e, realmente, há uma seletividade dos dois lados.Uma indignação seletiva de quem abraça um lado em uma luta e começa a mergulhar na narrativa deste. Isso, mergulhar em uma narrativa, sempre nos deixa muito cegos. As coisas que o outro lado fala sobre o nosso faz com que fiquemos irritados e procuremos maneiras de apagar essa narrativa enquanto nós a afogamos em outra narrativa tão ruim quanto do outro lado. É um problema comum, uma maneira de se revoltar comum. Não é uma boa forma de protestar, entretanto. É uma maneira de quebrar narrativas e somente enrolar mais o discurso.

Entretanto, no fim de tudo, isso pode ser uma maneira ruim de protestar, mas é inofensiva. Não é como tem acontecido nos relatos que eu tenho lido, cada vez mais comuns e cada vez mais assustadores.

Não é a mesma coisa do que uma moça sair na rua com uma blusa vermelha e ter que correr de uma pessoa que a está perseguindo pela sua afinidade política. Não é a mesma coisa do que pessoas que estão entrando no metrô serem “confundidas com petistas” e agredidas na rua. Não é a mesma coisa do que um cachorro com bandeira vermelha que é agredido enquanto passeia com o seu dono. Não é a mesma coisa do que pessoas ameaçando matar os outros simplesmente porque eles “são petistas”.

Porque é isso que está acontecendo, cada vez mais. É isso que se vê o dia inteiro nas redes sociais, qualquer uma. Esses discursos violentos se alongando, crescendo e ganhando cada vez mais voz uma vez que a mídia dá voz para eles (e os recria nas suas próprias páginas, próprias postagens e próprios compartilhamentos) e cada vez mais pessoas assustadas de fazer as coisas por medo de uma resposta de um discurso. Por que um pedaço do discurso tem que ser impedido de conversar? Tem que ser impedido de ter uma opinião?

Por que as pessoas precisam ficar com medo de sair com uma roupa na rua? Uma roupa que pode ser lida como “roupa de comunista” e fazer alguma “atitude de petista”. O que isso significa? O que uma cor na roupa significa que pode provocar a morte de alguém? Por que essas pessoas decidiram que uma posição política pode decidir sobre a vida ou a morte. Essa necessidade que as pessoas parecem ter de fazer “qualquer coisa pelo país” envolve machucar os outros desse jeito? Envolve assustar os outros? É realmente tão importante assim fazer uma parcela da população sentir medo simplesmente porque eles não concordam com a sua visão do que é um Brasil melhor? Nada disso faz sentido para mim, então essas perguntas são muito verdadeiras.

 Isso vale a pena?

Isso tudo para mim só parece com o que eu penso quando vejo esse gif.

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Gaycation no Brasil: O que aprendemos?

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Desde que eu vi que a Ellen Page iria começar a fazer um seriado documental sobre a vida da comunidade LGBTQ+ ao redor do mundo eu comecei a me interessar em acompanhar. O primeiro episódio, no Japão, saiu e eu fiz um comentário sobre na página do blog lá no facebook. Estava guardando o post para o episódio no Brasil, onde eu sabia que iria ter bastante para falar por ser um país que eu conheço bem. O episódio só me desapontou uma vez pelo fato dele não ter sido sobre o Brasil, mas sobre o Rio de Janeiro. Eu já estava com a impressão de que isso iria acontecer porque é o que geralmente acontecem – há uma ideia de que todo o Brasil é representado pelo Rio de Janeiro e eu não esperava que um episódio de uma série documental fosse fazer diferente nessa questão. Porém, é triste pensar que além dos poucos minutos de São Paulo não parece que a equipe achou nada mais em outras cidades que fosse importante. Certamente isso existe e certamente que o Brasil é bem mais do que somente o Rio de Janeiro.

Vocês podem ver o episódio na íntegra aqui.

tumblr_nxe7c3s7p01s5czvvo7_r1_250Logo no começo do vídeo eles começam a falar do assunto que vai permear todo o episódio: a violência constante contra a população LGBT que existe no Brasil. Apesar do país ter há muito tempo aprovado o casamento homossexual e também ter leis contra a discriminação de forma geral – nenhuma específica, infelizmente – a violência é um problema constante que faz com que pareça que essas leis não fazem a menor diferença. O Grupo Gay da Bahia publica atualizações constantes no site Quem a Homotransfobia matou hoje? (de conteúdo MUITO forte) do número de mortos dentro desse grupo social, especialmente por crimes violentos. Todo ano, com esses dados, eles fazem um relatório constatando o óbvio: há uma violência direcionada. No ano de 2015, 318 pessoas LGBT foram mortas, o que coloca um crime a cada 27 horas. O pior é pensar que que esse número deve ser ainda menor do que é o real, uma vez que vários casos não são computados no site (muito menos nas delegacias) e ainda há o fato de que várias vítimas não são identificadas.

O episódio tem um tom leve, alternando entre a violência e pessoas tendo opiniões otimistas sobre a situação. Eles fazem questão de deixar claro que há uma mentalidade boa de como as pessoas vêem o Rio de Janeiro, para a comunidade LGBT. Vários aparecem no vídeo falando sobre como o Rio, especialmente no Carnaval, é um lugar que lhes acolhe e que permite que sejam eles mesmos.Só que o otimismo dessas pessoas é interrompido para trazer os casos de violência que não podemos esquecer, como o caso de Piu da Silva que era passista da Beija-Flor antes de ser assassinada. Em 2015 foram 119 mulheres trans ou travestis mortas, o Brasil é o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo com praticamente 50% das mortes computadas.

A imagem que fica durante quase todos os 44 minutos de episódio é bem próxima da realidade. Por fora, o Rio de Janeiro parece ser um lugar que aceita a todos, que não promete discriminações dentro da esfera sexual por ser um espaço libertário. Por dentro, há um preconceito enraizado e escondido por trás de muitas camadas. Uma das pessoas que aparece para dar entrevista inclusive fala uma frase que eu ouço muito quando pedem uma opinião sobre o assunto, “Usa-se muito o termo ‘ah, eu entendo, eu aceito, mas isso não é normal'”. Como que alguém aceita uma coisa quando faz questão de dizer que ela não é normal? Como alguém respeita uma coisa quando faz questão de a deslegitimizar o tempo todo? 

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Outros dois pontos altos do episódio são quando Ellen Page e Ian Daniel entrevistam tanto Jean Wyllys (PSOL) e Jair Bolsonaro (PSC). A primeira entrevista acontece em um dos primeiros blocos, com Wyllys falando desde das contradições do brasileiro até do próprio Bolsonaro, como se fosse já uma introdução para a sua consequente entrada no documentário pela própria voz. O deputado é bem direto: “O que impede o avanço da cidadania, sobretudo à comunidade LGBT, é o fundamentalismo cristão. Porque faz parte de um senso comum construído historicamente de que os homossexuais são pecadores”. Enquanto Wyllys fala sobre Bolsonaro, eles já mostram clipes das famosas falas do deputado que são bem conhecidas aqui, como a sua fala de que quando você bate em uma criança que está “meio gayzinha” ela muda o comportamento. O encontro com Bolsonaro acontece no bloco seguinte e já começa com ele falando que foi posicionado como uma das maiores figuras homofóbicas do Brasil injustamente. Como de praxe, ele é tão hipócrita quanto sempre foi.

Ele nega ser homofóbico, falando que a sua “briga sempre foi e será contra a distribuição do material escolar para o público a partir de seis anos de idade” e Ellen discorda, apontando que ele já falou coisas que ela foi que são homofóbicas, como o fato dele falar que se deve bater em crianças para que elas deixem de ser gays. Ela questiona se ele acha que se ela tivesse sido espancada quando criança ela não seria gay hoje e Bolsonaro, em resposta, lhe passa uma cantada. Como esperado, para uma figura que além de homofóbica não consegue conter o machismo que exala. “Muito simpática. Se eu fosse cadete da academia das agulhas negras e te encontrasse na rua, eu iria assobiar para você. Tá ok? Muito bonita.” Tá de parabéns, Bolsonaro. É assim mesmo que se conversa com uma mulher que vai te entrevistar.

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Depois dessa pérola, ele continua falando as asneiras de sempre. Só é incrível ver a seriedade que ele usa para comentar essas coisas que são claros absurdos. Como, por exemplo, quando ele fala que “com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou-se bastante o número de homossexuais”. O seu argumento termina com ele falando que ele acredita que se o seu filho começar a andar com “certas pessoas que tem certos comportamentos”, ele vai ver aquele comportamento como normal. Para pessoas que tem um bom coração e não são tão capazes de preconceito quanto Bolsonaro, isso é uma ótima coisa. Para ele, acreditar que homossexuais ou pessoas da comunidade LGBTQ+ são normais é um absurdo. Inclusive, ele chega a olhar para a mulher que lhe está entrevistando e afirmar que ela “beira o absurdo” antes de continuar com o seu argumento incrivelmente limitado da procriação: “Até porque você com a sua companheira, né, não geram filhos. Se for gerar vai depender de algo doado por nós, né, nós heteros, nós homens. Eu não vou brigar contigo agora e te transformar em hétero e nem você me transformar em homo”.

Acredite se quiser: Nem todo mundo que é LGBTQ+ quer transformar as pessoas heterossexuais em gays ou qualquer outra orientação sexual. A resposta de Ellen Page para esse comentário é maravilhosa: “Bom, como uma pessoa gay, se eu posso te fazer se sentir melhor sobre esse medo que você parece ter, eu não quero que ninguém que não é gay seja gay. Eu quero que as pessoas gays que estão sofrendo, que estão dentro do armário, que estão com pensamentos suicidas fiquem bem e amem quem elas são. Mas eu não quero que pessoas que não são gays sejam gays. Exceto, talvez, a Kate Winslet”.

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Totalmente compreensível

Se eu fosse falar sobre todos os momentos importantes desse episódio, eu teria que falar de absolutamente todos os minutos dele. Toda a narrativa que eles escolhem passar sobre a dinâmica da comunidade LGBTQ+ no Rio de Janeiro é importantíssimo para a compreensão dela, mesmo que só se fale dos grupos L e G. O único momento fora do Rio é quando eles pegam um vôo para São Paulo e falam com a modelo e atriz transexual Carol Marra, que foi a primeira mulher trans a ter um relacionamento e um beijo na televisão brasileira. Eles conversam com ela enquanto ela faz um photoshoot feminino e sensual, uma coisa muito bonita de se ver tendo em vista que ela é uma mulher trans, um grupo que constantemente tem a sua identidade feminina negada. “Eu acho que o sexo [sic] não está ligado a uma genitália. Se você tem um pênis, você é homem. Se você tem uma vagina, você é mulher. Eu acho que o sexo [sic] ele transpõe uma genitália. Então no Brasil a gente não é respeitado por isso. Você é crucifixado, você é massacrado. Você é covardemente empurrado para a prostituição. Não te veem de uma outra forma, então as pessoas não te dão oportunidade para você desempenhar outras funções no seu trabalho”, aponta Marra no documentário.

Já no final do episódio vem a cena mais marcante de todas, a já divulgada pela Vice visita de Ellen e Ian a um ex-policial que assumidamente mata homossexuais – tanto assume ter feito durante o trabalho quanto depois de ter saído deste. Ele concedeu a entrevista em sigilo, então o seu rosto não aparece, sua voz não é mostrada de forma real e seu nome não é citado. Eu preferia ver o seu rosto, ouvir a sua voz e saber o seu nome. É sempre bom conseguir saber quem é um perigo para nós, para as pessoas que você ama e para aqueles que não conhece e ainda assim se importa. Ele não tem pudor em fazer declarações como “Pra mim, eles [os gays] são piores do que um bicho. Se entrar na minha frente, eu pego. Não quero nem saber o que vai acontecer, eu pego”. E isso me assusta mais do que qualquer atrocidade que algum político venha a dizer na vida dele. Sim, a violência instrumental em forma do estado é assustadora porque ela mantém pessoas como esse homem fora da justiça. Ela dá voz para ele. Mas ver o foco dessas palavras na tela é um medo muito mais visceral.

Afinal, Ellen e Ian assumem os riscos de dizer para o assassino que eles são gays, depois de discutirem entre si se devem ou não dizer. Mesmo protegidos por uma equipe de produção, pelas câmeras, pela ideia de que nem um homem desses iria fazer ameaças a dois estrangeiros, em um programa de televisão, há um medo palpável, claro. É um homem que diz que matava pessoas homossexuais – tais como eles – por prazer na frente deles. Ela questiona: “Nós somos gays e estamos nos perguntando se você acha que é melhor para o mundo que nós estejamos mortos”. No vídeo não há uma resposta direta para essa pergunta, mas não fica claro se ele deixa de responder ou se a resposta foi cortada na edição. Ian continua com o questionamento de porquê ele decidiu tomar esse rumo, ao que o homem responde que ele teve um caso na família de alguém que foi descoberto que era gay. “Foi aí que eu desgostei, porque até o momento ele não mostrava o que era”. A pessoa em questão teve que mudar de estado (ou ao menos é isso que o homem nos diz) porque ele sabia do seu objetivo.

Ao menos há uma coisa no relato do assassino que me deixa com o estômago menos embrulhado: Ele admite ter ódio. Ele admite que o que ele faz é motivado por ódio, apesar de também acreditar que o que faz é justificado. A admissão do ódio é importante, principalmente enquanto estamos em uma sociedade que diz que crimes LGBTfóbicos não são motivados por essa razão. O homem termina a entrevista com um alerta, “eles precisam saber que existem pessoas que se eles cruzarem o caminho pode ser uma ida sem volta”. A frustração de Ian no final da entrevista é palpável, ainda mais como uma pessoa que está vivendo nessa sociedade. Os seus questionamentos de uma falta de justiça, uma falta de proteção para essas pessoas na sociedade são os meus questionamentos toda vez que eu vejo uma nova notícia de outro de nós (sim, nós, eu não abdico da minha letra dentro dessa sopa) que foi assassinado. Parece que não há uma saída.

Mesmo assim, eu sempre vou acreditar que há uma saída.