Doctor Who: Last Christmas

last christmas

O título desse episódio foi uma piada interna comigo mesma, quase. Ele me lembra da música – como deve ter lembrado muita gente. Last Christmas I gave you my heart, and the very next day you gave it away… E isso foi basicamente o que aconteceu no último episódio de Natal de Doctor Who. Eu estava ansiosa esperando um episódio bom e foi aquela grande… Bosta. Como se Steven Moffat estivesse simplesmente jogando todos os nossos corações na lama. Nesse ano, porém, para a tristeza de todos, não foi muito diferente.

Como na tradição de Doctor Who, esse ano houve um episódio especial de Natal. É comum, sempre temos um. Também está se tornando uma tradição que esses episódios sejam extremamente ruins e nos desapontem absurdamente. No ano passado – The Time of The Doctor – tivemos um dos piores episódios da série como um especial de Natal onde (finalmente) nos despedimos do Eleventh Doctor (uma das piores encarnações do Doctor, também). No episódio desse ano… Eu ainda não sei explicar muito bem o que aconteceu.

De uma maneira bem resumida a trama foi uma versão diminuída de A Origem (Inception), mas sem nenhum dos atrativos que nos levaram a ver o filme. Não tem Leonardo Dicaprio, não tem um roteiro interessante ou inteligente, não é do Christopher Nolan, etc… O episódio começa com a Clara acordando depois que o trenó do Papai Noel desaba no telhado da sua casa. Disso em diante ela volta a viajar para o Doctor e eles acabam em uma base espacial no Polo Norte onde há algumas pessoas adormecidas por conta de um alienígena enorme englobando suas cabeças.

Ao final do episódio, depois de três sequências de um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho, onde o plot twist é descobrir que os tais personagens estão dentro de um sonho (muito criativo, só que não…), o que nos sobra é um episódio que não faz muito sentido e muito menos é interessante ou divertido de assistir. A trama se perde depois da primeira imersão na descoberta de que eles estavam dentro de um sonho depois de terem saído do tal sonho. Enquanto não há explicações o suficientes e quando há elas não fazem muito sentido, o episódio não se sustenta.

Outro ponto que me fez desgostar bastante desse especial foi que ele, como anteriores da Era Moffat, deixa de lado o motivo de um especial de Natal. Esses episódios supostamente são feitos como um pequeno apreço para os fãs da série, uma diversão natalina com seus personagens favoritos para que aja um atrativo a lhes fazer ligar a televisão e ver seus escolhidos depois da ceia. É para ser um episódio divertido e entusiasmante. Claro que tem que ter perigo, mas não pode ser um episódio tenso. Ele tem que ser algo que equilibra o humor e o thriller.

Esse episódio, assim como o The Time of The Doctor, não faz isso. O episódio tenta ser mais um dos que criou a fama do Moffat como alguém que aterroriza os fãs e que não consegue, como já aconteceu anteriormente. Desde o seu primeiro episódio verdadeiramente de terror em Doctor Who, Blink, Steven Moffat parece tentar replicar o sucesso que Don’t Blink teve nas audiências como algo aterrorizante. Já tivemos Don’t Look Away (do Doctor sobre o Silence, em vários episódios), Don’t Turn Around (no episódio Listen, dessa temporada), Don’t Think (no episódio Time Heist, também dessa temporada), Don’t Breathe (no episódio Deep Breath, ainda nessa temporada)… O próximo passo é o Doctor indicar que não podemos fazer as necessidades ou qualquer outra função corporal involuntária.

“Steven Moffat’s Doctor Who has already told us not to blink, breathe or turn around – and with “think” now added to the list, we’re fast running out of things we actually can do without facing certain death.” (link)

Em suma: Essa fórmula não funciona mais. Assim como o sistema da Era Moffat de que tudo em Doctor Who tem que ser enorme, gigantesco, exorbitante, assustador, terrível e com letras maiúsculas também não funciona mais.

Para não falarem que eu fiz uma resenha somente sendo hater do episódio e de Doctor Who tiveram, sim, algumas coisas que eu gostei bastante dentro do episódio. Como de esperado, foram no máximo quotes ou cenas separadas da grande trama central do episódio (que era terrível, como já enfatizei). Mas essas salvaram a minha vontade de terminá-lo enquanto eu pensava que poderia haver alguma coisa melhor no final do túnel.

  • O Twelfth Doctor encontra a Clara mais velha

Eu sempre tive um grande interesse em saber como seria para algum Doctor encontrar com uma de suas companions anos depois delas terem seguido em frente. Ver essa cena do Twelfth encontrando com a Clara 62 (?) anos depois dela ter deixado a TARDIS foi algo muito interessante para mim, apesar de eu acreditar que poderia ter sido feito melhor. O principal problema com a cena – além do fato dela ser um sonho – era o fato de que a Clara apresentada na cena era a mesma Clara que já estamos acostumados com, como se mais de 60 anos não fossem o suficiente para mudar minimamente a personalidade de alguém. Porém, só o fato dessa cena existir já abre o precedente para que, algum dia, possamos ter um episódio inteiro voltado para isso.

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(E, sim, eu estou ignorando quando o Eleventh Doctor encontra a Amy mais velha porque aquilo acontece em um contexto completamente diferente do que eu gostaria que acontecesse.)

  • “There’s a horror movie called Alien? That’s really offensive. No wonder everyone keeps invading you.”

Esse episódio foi cheio de falas interessantes. Desde o Papai Noel falando que o Doctor está na lista dos malvados até o Doctor gritando Yippee-Ki-Yay enquanto dirige o trenó voador. Apesar da trama ser ruim, temos que apreciar essas quotes que vão ficar guardadas como algo que pode trazer um sorriso nessa época de desolação televisiva.

  • Clara Oswald tendo que lidar com a morte de Danny Pink

Algo recorrente na Era Moffat é que ele gosta de matar personagens e fazer com que o canon da série não tenha que lidar com isso. É quase uma piada ter que pensar em quantas vezes o Rory Williams morreu durante a série e voltou somente para que a Amy Pond não tivesse que ficar de luto com a morte dele e a trama tivesse que continuar. Os personagens, desde a quinta temporada, não lidam com luto nunca. Eles simplesmente passam pela dor da perda como se nada tivesse acontecido.

Nesse episódio isso é diferente. Em todo ele Clara tem que lidar com a morte de Danny, seu namorado que faleceu no último episódio da temporada. E isso é bonito de se ver não só porque trás um enorme desenvolvimento de personagem para ela como também mostra que Steven Moffat não é surdo às críticas dos seus expectadores. Quem sabe ele consiga escutar de verdade e começar a escrever bons arcos e bons episódios…

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A História de Clara

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Querido Papai Noel,

Tudo que eu quero nesse Natal é… Ok, é muita coisa. Não. Mentira. Na verdade, é muita pouca coisa, só que é algo que eu imagino que seja bastante difícil para você conseguir fazer. Afinal, você é o Papai Noel, mas você não é Deus. Eu, na verdade, acho que você nem pode fazer isso que eu peço. Mas, enquanto estava pensando no assunto me perguntei… Bom, o que custa tentar, não é? No máximo, eu não vou receber nada e ficar imensamente triste no dia de Natal. E isso não é o tipo de chantagem emocional barata que crianças fazem com o senhor, Senhor Noel. De jeito nenhum, você sabe que eu nunca faria algo assim!

Bom, vamos ao que interessa. Tudo o que eu quero de Natal é… Crescer.

Não crescer de altura, Papai Noel! Eu quero crescer de idade! Quero virar gente grande! Quero sair da escola e poder dirigir! Quero poder fazer o que eu quero sem que mamãe e papai fiquem atrás de mim o tempo todo. Não que eu não goste da minha mamãe e do meu papai – o senhor sabe bem disso, né, ficou me vigiando o ano todo! Eu só acho que eles ficam no meu pé por tempo de mais. É sempre não faça isso e não faça aquilo. Eu me sinto presa, sabe, Noel? Seus pais faziam isso com você também? Faziam com que você se sentisse completamente preso nesse seu dever de ser o grande herdeiro da família Noel? Foi por isso que você se mudou para o Polo Norte com a Mamãe Noel depois do casório e ficou morando só com as renas e a esposa?

Estou sendo uma daquelas crianças curiosas. Aposto que você detesta esse tipo de criança. Mas, pensa assim, sabe o que eu poderia ter feito? Eu poderia ter rasgado essa carta e feito uma novinha em folha, completamente impecável e somente elogiando o senhor. Só que eu não fiz! Olha como isso é honesto da minha parte, senhor Noel! Mas, bom, deixa eu continuar explicando porque eu quero crescer… Eu cansei dessa coisa de ser criança, sabe? É muito cansativo de vez em quando. Tem que ir para a escola todos os dias, tem que fazer dever de casa, tem que brincar com os amigos no recreio, tem que comer o lanche, tem que almoçar, jantar, tomar café da manhã, tem que dormir cedo e acordar cedo. É tudo um dever sempre. Isso cansa, sabe? Então eu resolvi que eu quero ser adulta!

Não que a vida como adulta seja uma maravilha. Eu sei que não é, minha mamãe vive falando isso e eu sempre ouço o que a minha mamãe fala. Meu papai também reclama muito de ser adulto. Ele fala que é tudo sobre responsabilidades. Mas eu nem sei o que significa essa palavra direito! Não entendi nada da definição do dicionário dela, e eu procurei mesmo, senhor Noel! Mas seja o que for, eu quero para mim!

É isso, então.

Para que você não esqueça, vou repetir: Eu quero crescer! Não me importa a idade. Só não quero mais ser criança. Com mais de 18 anos, já fico feliz!

Obrigada, Papai Noel!
Clara Martins, 8 anos.

PS: Ah, esqueci de falar! Se você não conseguir me dar isso, não posso ficar sem ganhar nada, não é?! Então, se não puder, me dê um pônei que eu vou adorar. Ou uma lhama. Ou um elefante. Ou um cachorrinho. Adoro cachorrinhos! Mas tem que ser rosa!