A Evolução (?) das Mulheres em Doctor Who

Neste sábado, dia 23 de abril, foi anunciado que a nova companion de Doctor Who vai ser Pearl Mackie, com sua personagem chamada Bill. Em um vídeo de pouco mais de um minuto nós recebemos uma pequena amostra da personagem que vai acompanhar o Doctor-Calpadi nas suas próximas aventuras. E ela já me agradou bastante. Ela é uma mulher negra, com um black incrível, sem papas na língua para fazer as perguntas que nós queremos feitas desde o piloto (IT’S GOT A SUCKER ON IT?) e ainda apontando para o Doctor que, não, ele não explica nada direito. Foi um vídeo pequeno, mas foi o suficiente para me colocar animada com a próxima temporada – o que eu não sentia há algum tempo.

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Mas uma nova companion significa que temos uma nova personagem sob a gerência de Steven Moffat e, olha, eu não coloco muita fé de que ele consegue criar personagens novas boas, principalmente tendo em vista o que ele vem fazendo com a série nas últimas temporadas. Principalmente se ele continuar a não ouvir as críticas que são feitas em cima da sua escrita.

Eu imagino que se você leu esse texto até aqui, então você sabe o que é Doctor Who. Mas, por via das dúvidas, vamos explicar! Doctor Who é, em uma explicação bem rasa, uma série de ficção científica criada em 1963 e que vem passando até hoje pela BBC. O seu personagem principal tem o nome de Doctor e ele é um alienígena, um Time Lord do planeta Gallifrey. E o Doctor tem uma máquina do tempo, a TARDIS (Time And Relative Dimensions In Space), com a qual ele faz viagens no tempo e no espaço perseguindo coisas que sejam interessantes para atiçar o seu ânimo e curiosidade.

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TARDIS <3

Ele geralmente viaja acompanhado de um humano, referido como companion, que o ajuda em suas aventuras. Como parte do universo de ficção científica, a série está sempre em renovação à medida que, ao morrer, o Doctor pode trocar de rosto. Os companions, entretanto, vêm de uma renovação mais dolorosa, com sua saída da série geralmente sendo um momento bem dramático de perda. Mesmo assim, eles foram sempre personagens importantes para a guia da trama, uma vez que são os olhos leigos dentro do universo completamente novo. E um fator predominante dentro dessa figura é que geralmente são personagens femininas fazendo tal papel, principalmente no reinício da série em 2005.

Falar em personagens femininas dentro do universo da ficção científica sempre foi um problema. Com personagens altamente estereotipadas dentro de um gênero predominantemente masculino, era a coisa mais comum ver as personagens femininas sendo colocadas em segundo plano como as donzelas indefesas que precisavam de salvação ou como a figura do “sidekick”. Não é raro ver isso acontecendo hoje em dia, mesmo que tenhamos algumas grandes vitórias em Rey (The Force Awakens).

Entretanto, Doctor Who (me referindo especificamente ao reinício de 2005, a “série nova”) quase sempre soube equilibrar muito bem a imagem do leigo, o iniciado no universo novo, com a criação de personagens femininas importantes para o andamento da trama. Até agora foram cinco: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freyma Agyamen), Donna Noble (Catherine Tate), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

A série começa com Rose Tyler como a companion, uma garota de 19 anos, londrina, que trabalha em uma loja e que nunca se viu de maneira especial. Um evento que acontece natumblr_n9adfnklwz1txbdydo2_250 loja onde ela trabalha traz os olhos do Doctor para si, uma vez que ela se encontra envolvida e, ao final, salva o dia. Ela decide começar a viajar com o Doctor e emenda em duas temporadas da série. Sua família, seus amigos e o seu namorado (que não é tão namorado assim) aparecem durante a série, tendo inclusive papeis relevantes para o andamento da trama.

Ao final do seu arco, fica conhecida por todos os cantos do universo como “Rose Tyler, defender of the Earth”, um título de suma importância para uma personagem que começou se sentindo tão pequena. Ela tem um envolvimento romântico com o Doctor, mas, diferente do que acontece em diversos outros produtos do tipo, esse envolvimento nunca é levado de forma sexual ou até enfatizado dentro da série. Ele existe, mas não é intrínseco à trama. Apesar de haver algum destaque para tal, a série (ou a personagem) não gira em torno do romance entre os dois, que praticamente só ganha destaque na despedida, quando Rose fica presa em uma dimensão alternativa e nunca mais irá poder ver o Doctor de novo.

Martha Jones era uma médica em formação quando acontece um evento no hospital onde ela trabalhava que faz com que esse hospital seja posto em perigo. Mesmo sendo jovem, ela se coloca dentro de ação no episódio e acaba quase morrendo ao se sacrificar para ajudar o Doctor, colocando-se em perigo para ajudar a pessoa que poderia salvar todos dentro do hospital. Ela também começa a viajar com o Doctor e, ao final do seu arco, ele acaba sendo posto em perigo mortal e cabe a ela salvar a terra e ao próprio Doctor.

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Linda, tão linda <3

Mais uma vez, há uma personagem feminina – e dessa vez negra, também – colocada em uma posição extrema de poder e com grande responsabilidade e que, no final de tudo, é a grande heroína da série. Isso tudo “apesar” dela não ser a personagem principal e também “apesar” dela ser somente uma humana, uma pessoa que não conhece a imensidão do universo e essas outras criaturas que nos cercam. Martha, ainda além disso, decide abandonar a TARDIS para viver na terra, tomando as rédeas da sua própria vida para ficar com a sua família, que também é importante para a trama de Martha e para as suas decisões em geral.

Esse mesmo efeito de uma pessoa comum ser aquela de maior importância para a salvação da humanidade acontece com Donna Noble, a terceira companion. Seu primeiro aparecimento na série é em um episódio especial entre a última temporada da Rose e a primeira da Martha e depois só volta a aparecer depois que esta sai da série. Já ali ela era somente uma secretária temporária de uma empresa enorme, uma em um milhão, mas que se envolve em um evento conclusivo durante seu casamento. Ela, apesar de ser uma personagem de voz forte, se encontra presa em inseguranças e acaba entrando em uma armadilha por um cara fingia lhe amar. Esse episódio foi um filler, então Donna deixa de aparecer por uma temporada para só depois voltar a ser a companion da série. Quando ela retorna, afinal, a personagem já se encontra totalmente diferente.

Estando ciente do fato de que existem seres fora da terra, uma vida no espaço, Donna tumblr_n33w1so5a41rndtl6o3_250começa a investigar acontecimentos estranhos onde ela acredita que forças alienígenas podem estar envolvidas. Dessa maneira, ela entra em contato com o Doctor de novo e começa a viajar com ele, os dois se tornando melhores amigos e, na série nova, é a primeira vez que temos uma relação Doctor/Companion sem que exista qualquer envolvimento romântico. A participação de Donna na série termina com ela sendo tratada no título de pessoa mais importante de toda a criação depois de ter salvo o mundo diversas vezes durante a sua participação na série. Outro ponto importante para Donna é a sua família, que tem tantos fatores de impedimento quanto de incentivo para a sua viagem com o Doctor. O seu avô, em especial, é tão importante que ele volta a aparecer na série, desconexo da própria Donna – que somente está no episódio como um elemento de tensão.

Nesse ponto acontece uma mudança marcante no seriado, onde entra o novo showrunner, Steven Moffat, que guia a série até hoje (apesar de já ter anunciado que a 10ª temporada será a sua última). Nesse momento, o foco do seriado também muda de maneira drástica, com todos os episódios sendo grandiosos em efeitos especiais e em luzes e brilhos. Eu gosto de falar que eles escolheram trocar bons roteiros e boas temporadas por dinheiro para efeitos especiais. Isso, claro, aumentou muito a popularidade da série (O que é ótimo! Quanto mais gente melhor!), mas a que custo? O entretenimento da série se tornou somente por puro entretenimento, luzes, explosões, tramas grandiosas enquanto a crítica, o texto, os personagens foram deixados de lado. E isso, ainda mais do que em qualquer um, se mostrou muito especial nas companions seguintes.

Amy Pond é a primeira companion dessa nova fase e ela vem apresentada de uma maneira completamente diferente das anteriores. O Doctor a conhece quando criança, no momento em que sua TARDIS cai no quintal da casa da garota. Problemas acontecem e ele só volta a vê-la anos depois, 12 anos depois, quando ela começa a viajar com o Doctor, mesmo tendo passado esse tempo todo fazendo acompanhamento psicológico exatamente pelo trauma que ele lhe causou quando criança.

Ao final da primeira temporada dela, o que são 13 episódios de mais ou menos 45 minutos cada, nós não sabemos muito sobre ela. Sabemos que ela tem um noivo, Rory Williams, que ela não tem certeza se quer se casar ou não e esse é o motivo dela decidir viajar com o Doctor – ganhar tempo. Durante a série, ela, afinal, toma a decisão de voltar para o casamento e, mesmo isso parecendo muito marcante, nós não sabemos o que fez com que ela tomasse essa decisão e se apaixonasse pelo seu noivo. Sabemos que, por algum motivo, ela não tem pais ou qualquer responsável cuidando dela quando criança ou quando mais velha. Esse motivo, entretanto, não pareceu importante de ser explicado.

Amy é utilizada como uma guia da trama em muitos momentos, sem ter quase nenhuma força ativa nos acontecimentos. E, além disso, há graves problemas de desenvolvimento de personagem durante as suas duas temporadas e meia. Esses problemas culminam com o momento em que Amy fica grávida, tem o bebê, este é sequestrado… E ela nunca mais cita o assunto. O Doctor fala para ela que tudo irá ficar bem, que ele vai resolver a situação, e então Amy decide que isso não é mais um problema. Ela não tem trauma, ela não tem apreensão, ela não tem preocupações. Sua filha é roubada e transformada em uma assassina, mas isso não a deixa apreensiva ou lhe dá nenhum tipo de preocupação. Tudo passa quando não é mais necessário para a trama.

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Eu também fico com essa cara pensando nessa trama, tudo bem.

Ao final da entrada de Amy na série, ela é enviada para o passado e fica presa neste depois de se sacrificar para seguir Rory, depois dele ter sido preso naquela linha do tempo.

Entretanto, o grande problema com as personagens femininas em Doctor Who chegou ao seu ápice com Clara Oswald. Clara é envolvida em uma trama onde, ao final de tudo, ela é “a garota criada para salvar o Doctor”. Literalmente, essa é a frase dita durante a série, é a frase que resume a sua personagem. A sua primeira aparição ainda não é na forma de Clara Oswald, mas na de Oswin. Ela é uma personagem que somente aparece em um episódio, um filler, quando o Doctor é enviado para um planeta com a intenção de destruí-lo e lá a nave de Oswin desabou. O episódio termina com ela se sacrificando para que ele possa sair vivo. O segundo episódio que ela aparece ainda não é na sua personagem fixa, outro filler, ela aparece como uma babá da na época vitoriana e sua participação é nomeada somente de Clara. Ela morre, mais uma vez, como um andamento de trama para que o Doctor consiga derrotar seu inimigo a partir da morte dela.

Então, finalmente, no sexto episódio da temporada ela entra definitivamente como a figura de Clara Oswald, uma garota sem nenhuma definição ou características marcantes que, ao que tudo prova, não parece ter praticamente nenhum tipo de família atual ou relevante para sua vida – apesar deles fazerem algumas aparições no fundo, eles nunca são citados como impedimento ou como parte integrante da personagem. A família de Clara não parece notar que ela está convivendo com pessoas diferentes, está desaparecendo ou está agindo estranha. É como se eles não existissem.

Ela começa essa nova fase como babá de duas crianças e, subitamente, em um episódio aparece como professora, sem nenhuma explicação. Ela já queria ser professora antes? Ela fez faculdade? Ela fez algum curso? Como ela conseguiu esse emprego? Isso não parece ser importante, o que interessa era que a série precisava de algum link com uma escola, então Clara se tornou professora.

Mas o ponto mais relevante para o sexismo e o estereótipo da personagem feminina é a maneira como ela é lida pelo próprio Doctor. O Doctor leva Clara consigo para viajar, por assim dizer, por pura curiosidade. Ele quer saber como ela continua morrendo, porque ela é impossível. Ela é um mistério de quem ele começa a gostar. Isso, é claro, sem ele dizer para ela que ele está interessado nesse mistério. Sem ele lhe avisar o que está acontecendo (tal como ele tinha feito com a gravidez de Amy) ou fazer a menor menção sobre o fato de que para ele, ela é um mistério e não uma pessoa.

No último episódio da temporada se tem a solução desse mistério. Clara, em um ato para salvar o Doctor, entra na sua linha do tempo de maneira a impedir que ele seja morto em todos os momentos de sua vida por um vilão, A Grande Inteligência. Com isso, ela sacrifica cada segundo, cada minuto e cada dia de sua vida se tornando a garota nascida para salvar o Doctor. Ela está presente em todas as encarnações do Doctor, se tornando, provavelmente, a pessoa mais importante na vida inteira dele. Uma mulher que se dividiu em milhares para poder salvar aquele amigo que precisava. Mas, no final, tudo o que importa é que esse era o destino dela. Afinal, ela foi “criada” para esse papel.

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Ela acaba não morrendo, no final, pois o próprio personagem ressurge das cinzas – algo jamais explicado e que não faz o menor sentido – e a salva de lá, como se ele tivesse sido todo o herói da história. O que ele não é. Clara não deveria ter que morrer uma imensidão de vezes para salvar a vida dele e ele não deveria deixar isso acontecer. Ele, acima de tudo, não deveria sair disso o grande herói da história. Clara foi quem fez todo o trabalho! Ela quem o salvou, ela que se sacrificou para que ele vivesse!

Afinal, ela sobrevive e no episódio seguinte nada disso é mais falado, feijoada. Ela não tem nenhum tipo de trauma de ter morrido uma centena de vezes, ela não tem medo de continuar em aventuras com esse homem por quem ela morreu uma centena de vezes. Ela nem pede um tempo. Nada.

Na temporada seguinte, Clara interage com um novo Doctor, uma vez que ele se regenera em um episódio de Natal (um péssimo episódio de Natal) e, por um milagre, as coisas parecem melhorar um pouco para ela. Sua vida começa a criar mais cor, ela se destaca mais e até alguns pontos da sua personalidade são mais explicados. Clara se torna uma pessoa no lugar de ser só um mistério. Ela ainda tem muitos problemas como personagem, principalmente pelo fato dela ter sido usada como uma Manic Pixie Dream Girl (uma personagem que só existe para ajudar personagens homens na sua trajetória sem procurar qualquer tipo de satisfação pessoal) na temporada anterior.

Ela começou a desenvolver uma personalidade e criar uma persona para os escritores datumblr_n10avhqzuw1rlr2dlo7_250 série – o que depende muito de quem a está escrevendo, já que parece que alguns entendem a personagem e outros não fazem a menor ideia de quem ela é, como o próprio showrunner, Steven Moffat. Nessa leva, ela ganha mais liderança e características. Inclusive, um dos melhores episódios da série acontece com Clara praticamente sozinha (Flatline, S08E09). Eu escrevi um pouco sobre a Clara já, aqui no blog, falando de um dos episódios de Natal onde ela aparece, Last Christmas.

Clara Oswald ainda fica mais uma temporada com o Doctor antes dela ter o seu final, que tal como qualquer outra morte no Doctor Who de Steven Moffat é alterada de forma a que ninguém precise sentir o peso de uma tristeza eventual. Ela se torna imortal, pega a sua própria TARDIS e começa as suas próprias viagens – o que eu acharia um spin-off excelente!

Então, agora, chegamos a Bill, que nos foi apresentada tão recentemente e já criou tantas expectativas. Bill, também, que vai ser apresentada em uma temporada que será a última do showrunner, de Steven Moffat, que é tão criticado por essa escrita falha de personagens femininas. Uma amiga minha falou que ela acredita que a personagem não tenha sido escrita pelo Moffat, que ela já seja o novo showrunner colocando as mãos em cima da série, uma vez que ela (e nem eu) acredite que Moffat seja capaz de criar uma personagem que já demonstra tanta personalidade em um vídeo tão pequeno.

Ela sendo, ou não, escrita por ele, Bill já demonstrou muito mais naquele clipe do que algumas das companions de Moffat demonstraram em temporadas inteiras. Ela apresentou um humor, um sarcasmo, uma maneira interessante de ver o que estava acontecendo com ela que, pessoalmente, me deixou intrigada para saber mais sobre a sua personagem. Suas roupas são interessantes, sua persona é interessante, o jeito como ela interage com o Doctor é interessante. Com a expectativa alta e a ideia de que só iremos ter um episódio com ela no ano que vem, só nos basta esperar e não tentar criar muitas barreiras para que a personagem possa se desenvolver plenamente.

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You’re Terminated!

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Quem é mais assustador, afinal?

Quem me conhece sabe que eu sou aficionada por O Exterminador do Futuro. Eu vi todos os filmes, li todas as informações que eu poderia colocar as mãos em, vi o seriado (que até hoje é um dos meus seriados favoritos).21 de Abril de 2011 foi um dia em que eu realmente fiquei preocupada e quando não havia nenhuma menção a um ataque a todas as nações do mundo na mídia, eu fiz o sensato e fui fazer uma maratona de todos os filmes de novo.

Em resumo, eu gosto muito de Exterminador do Futuro. Quer dizer…

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Passando por isso, eu só posso dizer que eu fiquei muito feliz em conseguir pegar o livro em capa dura com a cara linda do T800 para ler, aquele maravilhoso da Darkside Books que eu (ao menos eu, não sei vocês) sempre fiquei babando nas livrarias. Quer dizer, existe alguma coisa melhor do que explorar ainda mais um universo que você já gosta? É como receber um bilhete premiado pra uma loteria que você já sabe que vai ganhar. Até porque mesmo que fosse um livro ruim, eu iria conseguir tirar alguma coisa de importante ou relevante lá de dentro.

No caso, não é um livro ruim. É um livro incrível! Desde a edição e a formatação do livro, a forma como os capítulos são iniciados e as interrupções da interface do Exterminado nas páginas, até o texto que conta a história em uma versão romantizada do roteiro original, de 1984. Esse fato faz com que não haja muitas diferenças de trama ou de andamento, claro. Não há grandes surpresas no conteúdo e no seu andamento. Isso, inclusive, é uma coisa que me fez achar que o livro pode se comunicar com até o leitor que não conhece a saga, aquela pessoa que, por algum motivo, nunca viu nenhum dos filmes. Ou seja, estava presa dentro de uma caverna. Só pode ser, né?

Para a pessoa que já conhece a história e, ainda por cima, conhece o primeiro filme muito bem o livro pode parecer um pouco monótono. Afinal, nada é mudado. As falas são iguais, os cenários se repetem, os personagens se movem da mesma forma. Mas o jeito como é desenvolvido o ambiente faz com que o livro seja um grande acréscimo, um adendo muito importante para quem aprecia essa história, principalmente na questão da recriação do universo em que o filme está inserido. No caso, esse universo é o ano de 1984. Desde a citação de marcas, estilos musicais, filmes e todo o espírito que havia nos anos 80, o livro faz questão de te imergir nessa década e nesse ano. Isso acontece, principalmente, pelas narrações de Sarah Connor que, acima de tudo, é uma garota criada naquela época e que está sendo inserida em uma época muito maior. Tal como no filme, Sarah é uma pessoa comum. Ela tem um trabalho comum, uma vida comum, se veste que nem uma garota comum e está tendo um dia de cão.

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#VDM

Essa pra mim é uma das melhores partes do Exterminador original, tanto filme quanto neste livro: O fato de que Sarah Connor nada mais é do que uma pessoa comum presa em um trama inimaginável. Afinal, não é todo dia que uma mulher descobre que a sua vida está em perigo porque ela, no futuro, vai ser mãe do escolhido para salvar a raça humana do apogeu das máquinas. É o tipo de coisa que faz você surtar um bocado, ter certeza que essas pessoas estão malucas e ainda fazer questão de tentar ao menos conseguir saber se há alguma possibilidade daquilo ser verdade.

O fato de Sarah ser uma mulher normal, uma pessoa comum, para muitos pode ser um clichê ou um problema. Inclusive, o livro apela para alguns clichês bem desnecessários que demonstram, talvez, uma incapacidade dos autores de entender como mulheres funcionam. Como, por exemplo, a citação de uma espécie de “consciência” externalizada para Sarah no formato das chamadas “Sarinhas”. Eu imagino que na cabeça do escritor todas as mulheres talvez tenham pequenas versões delas mesmas em desenho animado dando opinião sobre as coisas ou sapateando – algo bem Anastasia Steele, diga-se de passagem -, mas, ao menos, as Sarinhas não fazem muitas aparições na história. Poderiam ter sido cortadas na edição que só deixariam o livro melhor.

Apesar delas, o fato de que Sarah é uma mulher comum (com futilidades, vulnerabilidades, problemas de autoestima, etc) só faz com que a personagem cresça muito mais do que personagens que já nascem sendo grandes. Sarah teve que aprender tudo o que ela passou para frente – sozinha. Ela saiu da sua vida comum, onde tudo estava ao seu alcance, para uma onde ela tinha que lutar contra pessoas (ou ciborgues) que estavam tentando lhe matar. Ela saiu do seu emprego de garçonete para ter que aprender a lutar, manejar armas, fazer curativos, dirigir agressivamente e viver fugindo. Isso tudo enquanto ainda cria um filho e o prepara para o apocalipse impossível de parar.

Afinal, o Judgement Day vai acontecer independente do que ela fizer ou deixar de fazer. Não existe como impedir o Judgement Day ou o apogeu das máquinas. Isso vai acontecer no universo de Terminator. (E eu, infelizmente, também acredito que vai acontecer no nosso universo, é uma daquelas coisas que me deixa mais interessada ainda por essa história e mais apavorada ainda quando eu leio notícias de inteligencias artificiais sendo criadas e coisas loucas assim.)

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O que o Judgement Day diz toda vez que falam que ele acabou ^

Esse desenvolvimento da Sarah é o que dá mais gosto de ler o livro para acompanhar. No filme, ele está presente, mas ele é sutil. No livro é claro enquanto acompanhamos o seu ponto de vista e vivemos a sua agonia em ver todo o seu universo desabar. Sarah Connor se torna muito mais do que uma mulher fantástica, ela se torna uma guia para que nós mesmos consigamos entrar no mundo do Exterminador. Este que, inclusive, é a causa e efeito para todas essas mudanças. Afinal, se ele não tivesse vindo até o passado caçar Sarah, então Reese também não teria vindo salvá-la. Então John Connor não teria nascido. Mas, ao mesmo tempo, sem o Exterminador em 1984 a Cyberdyne Systems não teria sido criada e a Skynet não existiria do jeito como ela existiu.

O paradoxo já é presente em todos os filmes da saga, tanto nos bons quanto nos ruins, mas é ainda mais claro no livro enquanto os autores tentam explicar como ele funciona. Ao mesmo tempo, corre pelas palavras do texto a ideia de que esse futuro é inevitável. Que apesar deles repetirem que nós fazemos o nosso próprio destino, que até Sarah poderia fazer o seu próprio destino, isso não é exatamente real. Afinal, se há pessoas vindo do futuro para mudar coisas, o quanto desse futuro já não está marcado em aço? Como eles poderiam ir ao passado tentar alterar o futuro sem danificar as suas próprias existências? Ou será que os eventos da vinda do Exterminador para 1984 só agilizaram o Judgement Day? Será que os eventos do livro só modificaram o inevitável ou criaram o inevitável?

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Essa foto, afinal, que importância ela tinha no tempo e do espaço?

Como Sarah mesmo aponta: Dá para enlouquecer pensando nesse paradoxo.

Mas depois de Sarah a melhor parte do livro é o grande criador de toda essa confusão. O Exterminador e as suas cenas, as suas interações, trazem vida à história – apesar dele ser uma criatura só meio viva. O ciborgue, muito bem explicado pelos autores, é apresentado da forma mais visceral que eu poderia esperar ler. Ele é uma máquina e em nenhum momento se supõe diferente. O texto que o engloba é lido de uma forma diferente, as palavras são manuseadas de maneira diferente, formando frases que passam a frieza dos atos do Exterminador. Mesmo quando há aquelas frases de efeito já esperadas para esse tipo de personagem e esse tipo de franquia, ela é feita de forma maquinal.

O melhor exemplo disso par amim é um dos seus últimos capítulos, onde o Exterminador está fazendo uma checagem de seus danos e calculando quanto tempo ele ainda pode durar com a sua célula de energia nuclear. O capítulo termina de uma forma bem simples: “O Exterminador ainda duraria muito, muito tempo. As moscas, já se fartando da pele em decomposição do ciborgue, ficariam felizes em ouvir isso”. É sutil lembrar que o Exterminador é uma máquina, é simples, é abordado o tempo todo. Mas o elemento humano que o rodeia é o que mais destaca na sua criação. Afinal, o Exterminador é uma máquina de morte, mas mesmo ele precisa de uma sobrepele humana. Precisa carregar essa pele morta, esse sangue injetado, essa vida morta que lhe dá uma aparência e lhe confere a habilidade (falha) de se mesclar ao nosso redor.

Ao final do livro, quando ele começa a morrer, você se pergunta o que afinal significaria estar vivo para um Exterminador. A sua pele era um tecido vivo, mas que não tinha nenhum ligamento com o metal morto que ele carregava. O seu objetivo, matar Sarah Connor, era somente isso, mas também era algo que estava lhe guiando. Algo que estava lhe fazendo levantar e seguir. De certa forma, uma subvida que tinha sido dada a ele por uma ordem superior. No fim das contas, o Exterminador é, de certa forma, como a vida, imagino. Um ser que não pode ser barganhado com, que não sente piedade ou remorso ou medo e que absolutamente não vai parar até que você esteja morto.

Meio mórbido, mas interessante. O contraste entre a Sarah e o Exterminador, antagonistas completos, forma um arco excelente e uma leitura tão boa quanto uma experiência vendo o filme.

Batman V Superman: Man Pain

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Então, né, gente. Cá estamos.

Vou começar o texto já falando o que o título deixa bem claro: Eu não gostei do filme. Eu sai dele me perguntando porquê eu tinha perdido o meu tempo com esse filme quando eu poderia estar assistindo qualquer outro em cartaz. E, olha, ingresso de cinema está caro. De qualquer maneira, eu fui ver o filme e tentei ser imparcial assistindo. Já tinha lido as reviews que falavam mal dele – várias delas, muitas mesmo – e já tinha me divertido com a ideia de que seria um filme que iria marcar uma geração com uma grande falta de trama. Só que eu realmente tentei aproveitar o filme, tentei aproveitar a grande trama que eles estavam tentando criar e, acima de tudo, tentei aproveitar a ideia de ver dois super-heróis que eu não particularmente gosto se batendo.

Depois de 1h30 de filme e nada tendo acontecido, eu desisti de aproveitar o filme e de ficar falando para mim mesma ‘ok, agora vai melhorar!’. Não vai melhorar, não melhora.

Batman v Superman praticamente peca de todas as formas que um filme de super-heróis peca para mim. O primeiro ponto é o que eu gosto de chamar de um filme que se esforça muito para ser DARK and EDGY and DRAMATIC, o que pode ser traduzido por um filme que você consegue ver que ele está tentando muito ser aquele filme super sério que vai fazer todos ficarem pensando no final do filme e refletindo filosoficamente. O filme tenta muito, muito mesmo, ser esse filme. Quase 2h33 de falas dramáticas, ângulos dramáticos, frases fortes e cheias de efeito moral, alucinações que são feitas para nos ensinar morais e lembranças de um passado sombrio (como o fato de nós termos que ver DE NOVO os pais do Bruce Wayne serem mortos).

O filme inteiro gira ao redor do argumento de que talvez, algum dia, o Superman se torne uma força fora de controle e vira um combatente da raça humana e eles repetem tantas vezes que isso é muito provável e que ele poderia aniquilar toda a nossa raça que você quase acredita que seja uma possibilidade real. Como o próprio Bruce diz em um desses grandes momentos dramáticos: se há no mínimo 1% de dúvida sobre se isso aconteceria é preciso que medidas sejam tomadas. Só que, de verdade, quem realmente sentiu o efeito de que isso era uma possibilidade? Dói em mim ter que defender o Superman – uma vez que eu detesto o Superman -, mas o jeito como o Batman fica ‘vilanizando’ ele o filme inteiro sem nenhum motivo faz com que eu pense que ele estava, na verdade, de recalque.

O Bruce começava a falar sobre o Superman e eu começava a pensar ‘mas você tá tão chateadinho assim porque ele ganha umas manchetes de jornal boas?’. O Batman tinha aquelas cenas marcantes de combate com o Superman e eu só conseguia pensar: ‘isso é realmente sobre a Man Pain do Batman?’.

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Quando o grande dilema do filme é resolvido pelo fato de que o Bruce e o Clark tem mães com o mesmo nome e então o Batman decide salvar a mãe do Clark SÓ PORQUE ELAS TEM O MESMO NOME, eu cheguei a conclusão que era recalque sim. Batman estava com ciuminho porque os jornais não gostaram da abordagem dele de bandido bom é bandido torturado e marcado para morrer na prisão. Ele deveria vir conversar com os leitores brasileiros de jornais que iriam adorar essa abordagem, como se pode ver diariamente em comentários de portais de notícias. Se o Batman nessa abordagem estivesse no Brasil, ele provavelmente iria ser aclamado o grande salvador da pátria e homenageado pelas incríveis bancadas da bala espalhadas pelas assembleias do país.

Aliás, além de recalcado o Batman desse filme é um hipócrita. Ele pode sair por ai torturando e matando as pessoas e o Superman tem que ser punido porque ele acidentalmente quase demoliu a cidade inteira enquanto estava tentando salvar a cidade? Tipo, gente? Batsy, você não tem moral para falar do Supes, ok? Você tá matando todo mundo aí. Você arremessou um carro em cima de outro carro com o Batmóvel. Você tem uma metralhadora com balas de verdade acoplada no Batmóvel. Você está deliberadamente torturando e marcando as pessoas com um morcego enquanto sabe plenamente que isso vai fazer com que elas sejam mortas na prisão. Isso não é o tipo de atitude de alguém que pode julgar outra pessoa por matar, ainda mais mortes que foram acidentais.

No final de tudo, eu juro que eu fiquei tentando entender esse filme, mas ele não fez o menor sentido. E, no final, Batman v Superman foi sobre o Batman tendo uma grande Man Pain, sobre o Lex Luthor sendo megalomaníaco, sobre o Superman tendo nenhum desenvolvimento no filme, sobre como a Louis ama o Superman demais mesmo ele só tendo biquinho e sobre como a Wonder Woman vai ser uma personagem maravilhosa quando se derem ao trabalho de dar uma personalidade para ela.

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Maravilhosa demais mesmo sem personalidade nenhuma <3

No fim, eu só tenho que lembrar ao leitor casual que eu não sou exatamente fã de quadrinhos e não os leio. Então se você quiser uma opinião de alguém que é tão viciado em quadrinhos que fez a monografia sobre quadrinhos e tem um vlog sobre quadrinhos, deixo um vídeo aqui no final.

Aliás, vamos lembrar que logo vai sair um filme maravilhoso do morcegão!

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Gaycation no Brasil: O que aprendemos?

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Desde que eu vi que a Ellen Page iria começar a fazer um seriado documental sobre a vida da comunidade LGBTQ+ ao redor do mundo eu comecei a me interessar em acompanhar. O primeiro episódio, no Japão, saiu e eu fiz um comentário sobre na página do blog lá no facebook. Estava guardando o post para o episódio no Brasil, onde eu sabia que iria ter bastante para falar por ser um país que eu conheço bem. O episódio só me desapontou uma vez pelo fato dele não ter sido sobre o Brasil, mas sobre o Rio de Janeiro. Eu já estava com a impressão de que isso iria acontecer porque é o que geralmente acontecem – há uma ideia de que todo o Brasil é representado pelo Rio de Janeiro e eu não esperava que um episódio de uma série documental fosse fazer diferente nessa questão. Porém, é triste pensar que além dos poucos minutos de São Paulo não parece que a equipe achou nada mais em outras cidades que fosse importante. Certamente isso existe e certamente que o Brasil é bem mais do que somente o Rio de Janeiro.

Vocês podem ver o episódio na íntegra aqui.

tumblr_nxe7c3s7p01s5czvvo7_r1_250Logo no começo do vídeo eles começam a falar do assunto que vai permear todo o episódio: a violência constante contra a população LGBT que existe no Brasil. Apesar do país ter há muito tempo aprovado o casamento homossexual e também ter leis contra a discriminação de forma geral – nenhuma específica, infelizmente – a violência é um problema constante que faz com que pareça que essas leis não fazem a menor diferença. O Grupo Gay da Bahia publica atualizações constantes no site Quem a Homotransfobia matou hoje? (de conteúdo MUITO forte) do número de mortos dentro desse grupo social, especialmente por crimes violentos. Todo ano, com esses dados, eles fazem um relatório constatando o óbvio: há uma violência direcionada. No ano de 2015, 318 pessoas LGBT foram mortas, o que coloca um crime a cada 27 horas. O pior é pensar que que esse número deve ser ainda menor do que é o real, uma vez que vários casos não são computados no site (muito menos nas delegacias) e ainda há o fato de que várias vítimas não são identificadas.

O episódio tem um tom leve, alternando entre a violência e pessoas tendo opiniões otimistas sobre a situação. Eles fazem questão de deixar claro que há uma mentalidade boa de como as pessoas vêem o Rio de Janeiro, para a comunidade LGBT. Vários aparecem no vídeo falando sobre como o Rio, especialmente no Carnaval, é um lugar que lhes acolhe e que permite que sejam eles mesmos.Só que o otimismo dessas pessoas é interrompido para trazer os casos de violência que não podemos esquecer, como o caso de Piu da Silva que era passista da Beija-Flor antes de ser assassinada. Em 2015 foram 119 mulheres trans ou travestis mortas, o Brasil é o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo com praticamente 50% das mortes computadas.

A imagem que fica durante quase todos os 44 minutos de episódio é bem próxima da realidade. Por fora, o Rio de Janeiro parece ser um lugar que aceita a todos, que não promete discriminações dentro da esfera sexual por ser um espaço libertário. Por dentro, há um preconceito enraizado e escondido por trás de muitas camadas. Uma das pessoas que aparece para dar entrevista inclusive fala uma frase que eu ouço muito quando pedem uma opinião sobre o assunto, “Usa-se muito o termo ‘ah, eu entendo, eu aceito, mas isso não é normal'”. Como que alguém aceita uma coisa quando faz questão de dizer que ela não é normal? Como alguém respeita uma coisa quando faz questão de a deslegitimizar o tempo todo? 

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Outros dois pontos altos do episódio são quando Ellen Page e Ian Daniel entrevistam tanto Jean Wyllys (PSOL) e Jair Bolsonaro (PSC). A primeira entrevista acontece em um dos primeiros blocos, com Wyllys falando desde das contradições do brasileiro até do próprio Bolsonaro, como se fosse já uma introdução para a sua consequente entrada no documentário pela própria voz. O deputado é bem direto: “O que impede o avanço da cidadania, sobretudo à comunidade LGBT, é o fundamentalismo cristão. Porque faz parte de um senso comum construído historicamente de que os homossexuais são pecadores”. Enquanto Wyllys fala sobre Bolsonaro, eles já mostram clipes das famosas falas do deputado que são bem conhecidas aqui, como a sua fala de que quando você bate em uma criança que está “meio gayzinha” ela muda o comportamento. O encontro com Bolsonaro acontece no bloco seguinte e já começa com ele falando que foi posicionado como uma das maiores figuras homofóbicas do Brasil injustamente. Como de praxe, ele é tão hipócrita quanto sempre foi.

Ele nega ser homofóbico, falando que a sua “briga sempre foi e será contra a distribuição do material escolar para o público a partir de seis anos de idade” e Ellen discorda, apontando que ele já falou coisas que ela foi que são homofóbicas, como o fato dele falar que se deve bater em crianças para que elas deixem de ser gays. Ela questiona se ele acha que se ela tivesse sido espancada quando criança ela não seria gay hoje e Bolsonaro, em resposta, lhe passa uma cantada. Como esperado, para uma figura que além de homofóbica não consegue conter o machismo que exala. “Muito simpática. Se eu fosse cadete da academia das agulhas negras e te encontrasse na rua, eu iria assobiar para você. Tá ok? Muito bonita.” Tá de parabéns, Bolsonaro. É assim mesmo que se conversa com uma mulher que vai te entrevistar.

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Depois dessa pérola, ele continua falando as asneiras de sempre. Só é incrível ver a seriedade que ele usa para comentar essas coisas que são claros absurdos. Como, por exemplo, quando ele fala que “com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou-se bastante o número de homossexuais”. O seu argumento termina com ele falando que ele acredita que se o seu filho começar a andar com “certas pessoas que tem certos comportamentos”, ele vai ver aquele comportamento como normal. Para pessoas que tem um bom coração e não são tão capazes de preconceito quanto Bolsonaro, isso é uma ótima coisa. Para ele, acreditar que homossexuais ou pessoas da comunidade LGBTQ+ são normais é um absurdo. Inclusive, ele chega a olhar para a mulher que lhe está entrevistando e afirmar que ela “beira o absurdo” antes de continuar com o seu argumento incrivelmente limitado da procriação: “Até porque você com a sua companheira, né, não geram filhos. Se for gerar vai depender de algo doado por nós, né, nós heteros, nós homens. Eu não vou brigar contigo agora e te transformar em hétero e nem você me transformar em homo”.

Acredite se quiser: Nem todo mundo que é LGBTQ+ quer transformar as pessoas heterossexuais em gays ou qualquer outra orientação sexual. A resposta de Ellen Page para esse comentário é maravilhosa: “Bom, como uma pessoa gay, se eu posso te fazer se sentir melhor sobre esse medo que você parece ter, eu não quero que ninguém que não é gay seja gay. Eu quero que as pessoas gays que estão sofrendo, que estão dentro do armário, que estão com pensamentos suicidas fiquem bem e amem quem elas são. Mas eu não quero que pessoas que não são gays sejam gays. Exceto, talvez, a Kate Winslet”.

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Totalmente compreensível

Se eu fosse falar sobre todos os momentos importantes desse episódio, eu teria que falar de absolutamente todos os minutos dele. Toda a narrativa que eles escolhem passar sobre a dinâmica da comunidade LGBTQ+ no Rio de Janeiro é importantíssimo para a compreensão dela, mesmo que só se fale dos grupos L e G. O único momento fora do Rio é quando eles pegam um vôo para São Paulo e falam com a modelo e atriz transexual Carol Marra, que foi a primeira mulher trans a ter um relacionamento e um beijo na televisão brasileira. Eles conversam com ela enquanto ela faz um photoshoot feminino e sensual, uma coisa muito bonita de se ver tendo em vista que ela é uma mulher trans, um grupo que constantemente tem a sua identidade feminina negada. “Eu acho que o sexo [sic] não está ligado a uma genitália. Se você tem um pênis, você é homem. Se você tem uma vagina, você é mulher. Eu acho que o sexo [sic] ele transpõe uma genitália. Então no Brasil a gente não é respeitado por isso. Você é crucifixado, você é massacrado. Você é covardemente empurrado para a prostituição. Não te veem de uma outra forma, então as pessoas não te dão oportunidade para você desempenhar outras funções no seu trabalho”, aponta Marra no documentário.

Já no final do episódio vem a cena mais marcante de todas, a já divulgada pela Vice visita de Ellen e Ian a um ex-policial que assumidamente mata homossexuais – tanto assume ter feito durante o trabalho quanto depois de ter saído deste. Ele concedeu a entrevista em sigilo, então o seu rosto não aparece, sua voz não é mostrada de forma real e seu nome não é citado. Eu preferia ver o seu rosto, ouvir a sua voz e saber o seu nome. É sempre bom conseguir saber quem é um perigo para nós, para as pessoas que você ama e para aqueles que não conhece e ainda assim se importa. Ele não tem pudor em fazer declarações como “Pra mim, eles [os gays] são piores do que um bicho. Se entrar na minha frente, eu pego. Não quero nem saber o que vai acontecer, eu pego”. E isso me assusta mais do que qualquer atrocidade que algum político venha a dizer na vida dele. Sim, a violência instrumental em forma do estado é assustadora porque ela mantém pessoas como esse homem fora da justiça. Ela dá voz para ele. Mas ver o foco dessas palavras na tela é um medo muito mais visceral.

Afinal, Ellen e Ian assumem os riscos de dizer para o assassino que eles são gays, depois de discutirem entre si se devem ou não dizer. Mesmo protegidos por uma equipe de produção, pelas câmeras, pela ideia de que nem um homem desses iria fazer ameaças a dois estrangeiros, em um programa de televisão, há um medo palpável, claro. É um homem que diz que matava pessoas homossexuais – tais como eles – por prazer na frente deles. Ela questiona: “Nós somos gays e estamos nos perguntando se você acha que é melhor para o mundo que nós estejamos mortos”. No vídeo não há uma resposta direta para essa pergunta, mas não fica claro se ele deixa de responder ou se a resposta foi cortada na edição. Ian continua com o questionamento de porquê ele decidiu tomar esse rumo, ao que o homem responde que ele teve um caso na família de alguém que foi descoberto que era gay. “Foi aí que eu desgostei, porque até o momento ele não mostrava o que era”. A pessoa em questão teve que mudar de estado (ou ao menos é isso que o homem nos diz) porque ele sabia do seu objetivo.

Ao menos há uma coisa no relato do assassino que me deixa com o estômago menos embrulhado: Ele admite ter ódio. Ele admite que o que ele faz é motivado por ódio, apesar de também acreditar que o que faz é justificado. A admissão do ódio é importante, principalmente enquanto estamos em uma sociedade que diz que crimes LGBTfóbicos não são motivados por essa razão. O homem termina a entrevista com um alerta, “eles precisam saber que existem pessoas que se eles cruzarem o caminho pode ser uma ida sem volta”. A frustração de Ian no final da entrevista é palpável, ainda mais como uma pessoa que está vivendo nessa sociedade. Os seus questionamentos de uma falta de justiça, uma falta de proteção para essas pessoas na sociedade são os meus questionamentos toda vez que eu vejo uma nova notícia de outro de nós (sim, nós, eu não abdico da minha letra dentro dessa sopa) que foi assassinado. Parece que não há uma saída.

Mesmo assim, eu sempre vou acreditar que há uma saída.

Um Quarto e o Mundo

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Eu quero me dedicar a escrever personagens, criar personalidades e, por fim, histórias. Querer ter essa aspiração me faz admirar ainda mais quando eu vejo um personagem instigante, ainda mais quando ele é criado em tão pouco tempo de tela – como em um filme. Talvez, pelas resenhas já apresentadas aqui no blog, vocês tenham notado que eu gosto bastante de televisão. As vezes, bem mais de televisão do que de cinema. Isso se dá principalmente porque hoje em dia tem existido um espaço muito maior para personagens instigantes na televisão do que no cinema, que se enrolou em métodos fáceis e fórmulas previsíveis.

Esse parágrafo foi basicamente uma grande introdução sobre porquê eu me apaixonei por O Quarto de Jack (Room), filme que está indicado ao Oscar em quatro categorias. São elas Melhor Filme, Melhor Atriz (Brie Larson, pelo papel de Joy Newsome, a mãe), Melhor Direção (Lenny Abrahamson) e Melhor Roteiro Adaptado (Emma Donoghue, que está adaptando o seu próprio livro para o cinema!). Antes de assistir o filme, eu acreditava que quatro indicações eram o suficiente. Depois que saí do cinema, acredito que sejam menos do que o merecido. Principalmente considerando que o filme provavelmente só levará a estátua de melhor atriz, com Brie Larson brilhando no papel.

O filme conta a história da Mãe e do Jack que vivem dentro do Quarto. A Mãe é uma moça chamada Joy Newsome que foi sequestrada por um estranho aos 17 anos. Ele lhe disse que seu cachorro estava doente e ela foi tentar ajudar, como muitas meninas que são ensinadas a serem gentis e ajudarem a todos acabam fazendo. Ela está em cativeiro há sete anos quando o filme começa e Jack, seu filho com o raptor (e estuprador), está fazendo seu aniversário de cinco anos. Todos os dias eles acordam, tomam café da manhã, arrumam o Quarto, tomam banho, assistem televisão e veem o Mundo da Televisão. Alguns dias Jack dorme com a Mãe, outros dias ele tem que dormir no Armário, pois o Velho Nick está vindo visitar e trazer mantimentos que ele pega por magia da televisão.

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Bom dia, claraboia.

Esse é o mundo que a Mãe cria para Jack, para que ele possa sobreviver. Um mundo onde o lado de fora – fora do Quarto – não existe, tudo é Espaço. O Velho Nick consegue a comida e as coisas que ele leva por magia, que ele usa para tirar tudo de dentro da televisão. Até porque as coisas que estão na televisão não existem de verdade. O oceano não existe, porque ele seria grande demais para caber no Quarto, por exemplo. Há um mundo novo extraordinário criado, um habitat natural para que Jack pudesse crescer sem sentir falta do que ele estava crescendo. Esse mundo toma tanta conta dele que, ao se libertar do cativeiro, uma das primeiras perguntas que ele faz é: Nós estamos em outro planeta?

De certa forma, estavam em outro planeta. Os dois estavam em outra vivência e agora, tanto Mãe quanto Jack, precisavam aprender a viver nesse novo mundo. Jack tinha que aprender as coisas novas, aprender que tudo que ele sabia sobre a vida estava errado e tudo que ele conhecia era tão pequeno quanto uma formiga em uma grande floresta. Mas, ao mesmo tempo, ele está descobrindo tudo pela primeira vez. Como a criança que ele é, Jack está animado com a perspetiva do Mundo – um não-Quarto. Com medo, porém animado. Para a Mãe tudo é diferente, principalmente o jeito como ela tem que encarar as coisas. Ele está correndo para o exterior, ela está caminhando para o retorno à vida que lhe foi arrancada.

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Isso tudo é pesado para a Mãe, para Joy. Ela não sabe como lidar com o peso dessa situação e o peso de tudo que esperam que ela seja ou que ela faça e que ela seja. Joy tem que lidar com o seu pai, sua mãe, seu padrasto, a mídia, a polícia e todas as expectativas que se colocam sobre a sua cabeça. Ter ficado presa por tanto tempo não fez só com que ela perdesse tempo no Mundo (o “mundo real”, fora do Quarto), mas também que ela perdesse contato com quem ela era antes do sequestro. Ela não é mais a mesma pessoa e ao mesmo tempo que algumas pessoas esperam que ela fosse a mesma, outras esperam que ela seja alguém totalmente diferente de quem ela é. O Mundo, de certa forma, é demais para ela, é muito estímulo e muitas coisas que ela tem que lidar com.

Eu comecei a falar sobre personagens para desenvolver o motivo pelo qual eu gostei da Mãe, gostei da forma como o filme lhe narra pelos olhos de Jack. Acima de tudo, Mãe é uma personagem fantástica. Ela é a idolatria em pessoa pelos olhos de Jack, ela é uma mártir pelos olhos do expectador, ela é uma falácia pelos olhos dela mesma. Várias facetas que a sufocam a cada segundo de cada dia que ela passa fora do Quarto. Dentro, ela só precisava sobreviver. Fora, ela precisa viver. Tudo isso parece demais para ela até que ela quebra. E todas essas nuances podem ser captadas pela interpretação fantástica de Brie Larson, que abraça cada pedaço dessa personagem.

No final do filme, todos nós só queremos dizer adeus para o Quarto.

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