Outlander: La Dame Blanche

Desde quando comecei a assistir Outlander, eu me apaixonei pela série. Pela forma como apresentam os personagens, pela visão feminina que existe na série toda, pela produção que se encaixa em cada episódio. Continuo amando a série, mas, como um choque de realidade, a gente lembra que nada pode ser perfeito. E como em outras produções, isso vem em uma cena de estupro.

O assunto não é incomum para a série. Há ameaças de estupro pela primeira temporada toda, há assédio pelas duas temporadas inteiras e há um estupro no final da primeira temporada. No caso, há uma diferença com o problema congênito que nós temos com estupros na televisão. Em Outlander, a pessoa que é estuprada é o homem, Jamie Fraser, e não a mulher, sempre a vítima nessas situações.

A série, diferente do que o esperado, tratou bem a situação nessa cena. É forte, é uma cena pesada, há triggers sendo abordados e merece um grande TW antes de acontecer. Mas não é explícita. Ninguém vê o que aconteceu, ninguém precisa ver o que aconteceu para acreditar que aconteceu. Jamie é estuprado e nós vemos o antes e o depois disso, as consequências para ele disso tudo.

Até aí… Tudo bem.

A questão sobre cenas de estupro não é que elas não precisam acontecer nunca, jamais, estão todas proibidas. A questão é que elas são muitas vezes utilizadas pelo fato de choque no lugar de serem apresentadas na série como algo que traz um desenvolvimento para um personagem ou que faz parte da trama em questão. O melhor exemplo de estupros como fator de choque é, claro, Game Of Thrones. Não vou me estender no assunto porque o Lugar de Mulher já falou muito bem sobre isso, o Spoilers também falou umas coisas bem legais e todo mundo já sabe da história, né?

tumblr_o6534jrbrz1rud800o2_500
E onde é isso? Na lua?

De qualquer maneira, então chegamos ao episódio “La Dame Blanche”, que é o quarto da segunda temporada, e novamente temos um estupro. Porém, dessa vez, é de uma menina. Enquanto Claire Fraser, Murtagh e Mary Hawkins estão voltando para a casa dos Fraser depois da carruagem delas ter quebrado, um grupo de homens com os rostos cobertos ataca os três. Eles nocauteiam Murtagh, prensam Claire (grávida) contra a parede e, depois de um deles perceber que Mary era virgem, um deles estupra a menina. No final da cena, eles fogem ao ver quem era Claire, que tinha recebido uma fama de ser bruxa (ou algo parecido) pela cidade.

Para piorar a situação, Mary foi levada para a casa dos Fraser, onde estava acontecendo um jantar. Por conta da trama da temporada, eles não podiam parar o jantar, então Claire dá um sonífero para Mary e a deixa sob os cuidados do garoto por quem a própria Mary já tinha falado ter sentimentos e ele também parecia gostar dela, etc. Ela e Jamie são boas pessoas, sim, e eles se sentem muito mal por tratar Mary desse jeito. Mas, como Claire diz, o dano já estava feito. Agora era tentar amenizar o dano na menina e, ao mesmo tempo, tentar não destruir tudo o que eles estavam tentando fazer para ajudar o povo de Jamie e toda a trama da temporada.

Pois bem. Mary acorda em um lugar estranho, que ela não conhece, do lado de um homem (que, sim, ela conhece, mas até perceber que era aquela pessoa, considerando o trauma, né), nas suas roupas de baixo. Obviamente, ela tem um surto, sai correndo. Ele sai correndo atrás dela, querendo impedi-la de se machucar ou de invadir o salão. Só que ele acaba a imobilizando no chão (com a melhor das intenções) e a cena fica, bom, muito fácil de ser mal compreendida para os que haviam ouvido os gritos.

Essa trama, em específico, é um desastre por motivos bem diferentes dos que fazem o estupro da Sansa ser um desastre. É uma trama que não aconteceu simplesmente pelo fator de choque, ela tem uma conexão com o que está acontecendo na série. Eu duvido muito que vai ser algo esquecido pelos roteiristas, certamente o acontecido vai ser muito bem abordado dentro da série. O motivo pelo qual a cena do estupro da Mary se destacou para mim como um grande desastre foi exatamente quando colocamos ela em comparação com o outro que aconteceu na série.

Por que o estupro de Mary precisava ser tão explícito se a própria série já fez um estupro antes que não precisou disso tudo? Jamie é um dos personagens principais da série, um dos personagens com o qual o espectador está mais conectado. Com ele, não mostramos. Mary é uma personagem secundária e extremamente unidimensional – a grande caracterização dela até agora tinha sido como uma mulher virgem que teme o sexo mais do que tudo (o que só faz o acontecido ainda pior, convenhamos) – e que não tinha demonstrado ter tanta relevância para a trama dos Frasers até o momento em que ela é estuprada.

Se ela é tão coadjuvante assim, por que mostrar a menina sendo estuprada? Por que fazer desse ato um fator tão explícito em cena? Há inúmeras maneiras de se deixar aquilo implícito, foi uma escolha nos fazer ver Mary sendo estuprada, nos fazer vê-la sofrendo. E foi uma escolha rude, uma escolha feia e desnecessária.

Mas, o que só deixa as coisas piores, qual vai ser o peso disso para Mary? A série é abordada pela visão dos Frasers, principalmente a visão de Claire. Então nós iremos ver o sofrimento dela pelos olhos de Claire, os olhos de um terceiro que estava presente quando aquilo aconteceu. Mas a dor de Mary será de Mary? Ou a dor de Mary será de Claire? Se a menina continuar tão pouco desenvolvida na série, ela não vai ter o destaque necessário para fazer essa trama valer a pena. Se ela se desenvolver na série, isso terá acontecido só por conta do seu estupro?

Afinal, essa trama foi colocada na série (e, acredito, nos livros também, apesar de não ter chegado a esse ponto ainda) com um objetivo. Como eles já tinham abordado as consequências de um estupro antes, não acredito que seja por esse objetivo. Acredito que tenha algum fundamento na trama e que este seja na trama dos Frasers enquanto na França. Isso, no caso, faz com que o estupro de Mary seja relevante para a história de Claire e Jamie.

tumblr_o50f0zaeel1v9oda2o3_500

Usar um estupro como plot device é uma das piores decisões narrativas que alguém pode tomar, honestamente. desenvUsar um ataque sexual como uma forma de desenvolver a trama de um terceiro é uma coisa que eu não gosto de pensar em seriados, filmes ou livros. Uma coisa que eu, pessoalmente, acredito que seja dispensável para qualquer forma de ficção.

No final, eu continuo adorando Outlander e estou esperando ansiosamente para o episódio da semana que vem. Mas poderia ter passado sem essa, né?

A Evolução (?) das Mulheres em Doctor Who

Neste sábado, dia 23 de abril, foi anunciado que a nova companion de Doctor Who vai ser Pearl Mackie, com sua personagem chamada Bill. Em um vídeo de pouco mais de um minuto nós recebemos uma pequena amostra da personagem que vai acompanhar o Doctor-Calpadi nas suas próximas aventuras. E ela já me agradou bastante. Ela é uma mulher negra, com um black incrível, sem papas na língua para fazer as perguntas que nós queremos feitas desde o piloto (IT’S GOT A SUCKER ON IT?) e ainda apontando para o Doctor que, não, ele não explica nada direito. Foi um vídeo pequeno, mas foi o suficiente para me colocar animada com a próxima temporada – o que eu não sentia há algum tempo.

tumblr_o63mupk1kt1s96kauo4_500

Mas uma nova companion significa que temos uma nova personagem sob a gerência de Steven Moffat e, olha, eu não coloco muita fé de que ele consegue criar personagens novas boas, principalmente tendo em vista o que ele vem fazendo com a série nas últimas temporadas. Principalmente se ele continuar a não ouvir as críticas que são feitas em cima da sua escrita.

Eu imagino que se você leu esse texto até aqui, então você sabe o que é Doctor Who. Mas, por via das dúvidas, vamos explicar! Doctor Who é, em uma explicação bem rasa, uma série de ficção científica criada em 1963 e que vem passando até hoje pela BBC. O seu personagem principal tem o nome de Doctor e ele é um alienígena, um Time Lord do planeta Gallifrey. E o Doctor tem uma máquina do tempo, a TARDIS (Time And Relative Dimensions In Space), com a qual ele faz viagens no tempo e no espaço perseguindo coisas que sejam interessantes para atiçar o seu ânimo e curiosidade.

tumblr_lj94idxbyt1qf3q8io1_500
TARDIS <3

Ele geralmente viaja acompanhado de um humano, referido como companion, que o ajuda em suas aventuras. Como parte do universo de ficção científica, a série está sempre em renovação à medida que, ao morrer, o Doctor pode trocar de rosto. Os companions, entretanto, vêm de uma renovação mais dolorosa, com sua saída da série geralmente sendo um momento bem dramático de perda. Mesmo assim, eles foram sempre personagens importantes para a guia da trama, uma vez que são os olhos leigos dentro do universo completamente novo. E um fator predominante dentro dessa figura é que geralmente são personagens femininas fazendo tal papel, principalmente no reinício da série em 2005.

Falar em personagens femininas dentro do universo da ficção científica sempre foi um problema. Com personagens altamente estereotipadas dentro de um gênero predominantemente masculino, era a coisa mais comum ver as personagens femininas sendo colocadas em segundo plano como as donzelas indefesas que precisavam de salvação ou como a figura do “sidekick”. Não é raro ver isso acontecendo hoje em dia, mesmo que tenhamos algumas grandes vitórias em Rey (The Force Awakens).

Entretanto, Doctor Who (me referindo especificamente ao reinício de 2005, a “série nova”) quase sempre soube equilibrar muito bem a imagem do leigo, o iniciado no universo novo, com a criação de personagens femininas importantes para o andamento da trama. Até agora foram cinco: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freyma Agyamen), Donna Noble (Catherine Tate), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

A série começa com Rose Tyler como a companion, uma garota de 19 anos, londrina, que trabalha em uma loja e que nunca se viu de maneira especial. Um evento que acontece natumblr_n9adfnklwz1txbdydo2_250 loja onde ela trabalha traz os olhos do Doctor para si, uma vez que ela se encontra envolvida e, ao final, salva o dia. Ela decide começar a viajar com o Doctor e emenda em duas temporadas da série. Sua família, seus amigos e o seu namorado (que não é tão namorado assim) aparecem durante a série, tendo inclusive papeis relevantes para o andamento da trama.

Ao final do seu arco, fica conhecida por todos os cantos do universo como “Rose Tyler, defender of the Earth”, um título de suma importância para uma personagem que começou se sentindo tão pequena. Ela tem um envolvimento romântico com o Doctor, mas, diferente do que acontece em diversos outros produtos do tipo, esse envolvimento nunca é levado de forma sexual ou até enfatizado dentro da série. Ele existe, mas não é intrínseco à trama. Apesar de haver algum destaque para tal, a série (ou a personagem) não gira em torno do romance entre os dois, que praticamente só ganha destaque na despedida, quando Rose fica presa em uma dimensão alternativa e nunca mais irá poder ver o Doctor de novo.

Martha Jones era uma médica em formação quando acontece um evento no hospital onde ela trabalhava que faz com que esse hospital seja posto em perigo. Mesmo sendo jovem, ela se coloca dentro de ação no episódio e acaba quase morrendo ao se sacrificar para ajudar o Doctor, colocando-se em perigo para ajudar a pessoa que poderia salvar todos dentro do hospital. Ela também começa a viajar com o Doctor e, ao final do seu arco, ele acaba sendo posto em perigo mortal e cabe a ela salvar a terra e ao próprio Doctor.

tumblr_o3a02wxqsv1r5wq9uo6_500
Linda, tão linda <3

Mais uma vez, há uma personagem feminina – e dessa vez negra, também – colocada em uma posição extrema de poder e com grande responsabilidade e que, no final de tudo, é a grande heroína da série. Isso tudo “apesar” dela não ser a personagem principal e também “apesar” dela ser somente uma humana, uma pessoa que não conhece a imensidão do universo e essas outras criaturas que nos cercam. Martha, ainda além disso, decide abandonar a TARDIS para viver na terra, tomando as rédeas da sua própria vida para ficar com a sua família, que também é importante para a trama de Martha e para as suas decisões em geral.

Esse mesmo efeito de uma pessoa comum ser aquela de maior importância para a salvação da humanidade acontece com Donna Noble, a terceira companion. Seu primeiro aparecimento na série é em um episódio especial entre a última temporada da Rose e a primeira da Martha e depois só volta a aparecer depois que esta sai da série. Já ali ela era somente uma secretária temporária de uma empresa enorme, uma em um milhão, mas que se envolve em um evento conclusivo durante seu casamento. Ela, apesar de ser uma personagem de voz forte, se encontra presa em inseguranças e acaba entrando em uma armadilha por um cara fingia lhe amar. Esse episódio foi um filler, então Donna deixa de aparecer por uma temporada para só depois voltar a ser a companion da série. Quando ela retorna, afinal, a personagem já se encontra totalmente diferente.

Estando ciente do fato de que existem seres fora da terra, uma vida no espaço, Donna tumblr_n33w1so5a41rndtl6o3_250começa a investigar acontecimentos estranhos onde ela acredita que forças alienígenas podem estar envolvidas. Dessa maneira, ela entra em contato com o Doctor de novo e começa a viajar com ele, os dois se tornando melhores amigos e, na série nova, é a primeira vez que temos uma relação Doctor/Companion sem que exista qualquer envolvimento romântico. A participação de Donna na série termina com ela sendo tratada no título de pessoa mais importante de toda a criação depois de ter salvo o mundo diversas vezes durante a sua participação na série. Outro ponto importante para Donna é a sua família, que tem tantos fatores de impedimento quanto de incentivo para a sua viagem com o Doctor. O seu avô, em especial, é tão importante que ele volta a aparecer na série, desconexo da própria Donna – que somente está no episódio como um elemento de tensão.

Nesse ponto acontece uma mudança marcante no seriado, onde entra o novo showrunner, Steven Moffat, que guia a série até hoje (apesar de já ter anunciado que a 10ª temporada será a sua última). Nesse momento, o foco do seriado também muda de maneira drástica, com todos os episódios sendo grandiosos em efeitos especiais e em luzes e brilhos. Eu gosto de falar que eles escolheram trocar bons roteiros e boas temporadas por dinheiro para efeitos especiais. Isso, claro, aumentou muito a popularidade da série (O que é ótimo! Quanto mais gente melhor!), mas a que custo? O entretenimento da série se tornou somente por puro entretenimento, luzes, explosões, tramas grandiosas enquanto a crítica, o texto, os personagens foram deixados de lado. E isso, ainda mais do que em qualquer um, se mostrou muito especial nas companions seguintes.

Amy Pond é a primeira companion dessa nova fase e ela vem apresentada de uma maneira completamente diferente das anteriores. O Doctor a conhece quando criança, no momento em que sua TARDIS cai no quintal da casa da garota. Problemas acontecem e ele só volta a vê-la anos depois, 12 anos depois, quando ela começa a viajar com o Doctor, mesmo tendo passado esse tempo todo fazendo acompanhamento psicológico exatamente pelo trauma que ele lhe causou quando criança.

Ao final da primeira temporada dela, o que são 13 episódios de mais ou menos 45 minutos cada, nós não sabemos muito sobre ela. Sabemos que ela tem um noivo, Rory Williams, que ela não tem certeza se quer se casar ou não e esse é o motivo dela decidir viajar com o Doctor – ganhar tempo. Durante a série, ela, afinal, toma a decisão de voltar para o casamento e, mesmo isso parecendo muito marcante, nós não sabemos o que fez com que ela tomasse essa decisão e se apaixonasse pelo seu noivo. Sabemos que, por algum motivo, ela não tem pais ou qualquer responsável cuidando dela quando criança ou quando mais velha. Esse motivo, entretanto, não pareceu importante de ser explicado.

Amy é utilizada como uma guia da trama em muitos momentos, sem ter quase nenhuma força ativa nos acontecimentos. E, além disso, há graves problemas de desenvolvimento de personagem durante as suas duas temporadas e meia. Esses problemas culminam com o momento em que Amy fica grávida, tem o bebê, este é sequestrado… E ela nunca mais cita o assunto. O Doctor fala para ela que tudo irá ficar bem, que ele vai resolver a situação, e então Amy decide que isso não é mais um problema. Ela não tem trauma, ela não tem apreensão, ela não tem preocupações. Sua filha é roubada e transformada em uma assassina, mas isso não a deixa apreensiva ou lhe dá nenhum tipo de preocupação. Tudo passa quando não é mais necessário para a trama.

tumblr_n6wrxxhdg11r27025o2_500
Eu também fico com essa cara pensando nessa trama, tudo bem.

Ao final da entrada de Amy na série, ela é enviada para o passado e fica presa neste depois de se sacrificar para seguir Rory, depois dele ter sido preso naquela linha do tempo.

Entretanto, o grande problema com as personagens femininas em Doctor Who chegou ao seu ápice com Clara Oswald. Clara é envolvida em uma trama onde, ao final de tudo, ela é “a garota criada para salvar o Doctor”. Literalmente, essa é a frase dita durante a série, é a frase que resume a sua personagem. A sua primeira aparição ainda não é na forma de Clara Oswald, mas na de Oswin. Ela é uma personagem que somente aparece em um episódio, um filler, quando o Doctor é enviado para um planeta com a intenção de destruí-lo e lá a nave de Oswin desabou. O episódio termina com ela se sacrificando para que ele possa sair vivo. O segundo episódio que ela aparece ainda não é na sua personagem fixa, outro filler, ela aparece como uma babá da na época vitoriana e sua participação é nomeada somente de Clara. Ela morre, mais uma vez, como um andamento de trama para que o Doctor consiga derrotar seu inimigo a partir da morte dela.

Então, finalmente, no sexto episódio da temporada ela entra definitivamente como a figura de Clara Oswald, uma garota sem nenhuma definição ou características marcantes que, ao que tudo prova, não parece ter praticamente nenhum tipo de família atual ou relevante para sua vida – apesar deles fazerem algumas aparições no fundo, eles nunca são citados como impedimento ou como parte integrante da personagem. A família de Clara não parece notar que ela está convivendo com pessoas diferentes, está desaparecendo ou está agindo estranha. É como se eles não existissem.

Ela começa essa nova fase como babá de duas crianças e, subitamente, em um episódio aparece como professora, sem nenhuma explicação. Ela já queria ser professora antes? Ela fez faculdade? Ela fez algum curso? Como ela conseguiu esse emprego? Isso não parece ser importante, o que interessa era que a série precisava de algum link com uma escola, então Clara se tornou professora.

Mas o ponto mais relevante para o sexismo e o estereótipo da personagem feminina é a maneira como ela é lida pelo próprio Doctor. O Doctor leva Clara consigo para viajar, por assim dizer, por pura curiosidade. Ele quer saber como ela continua morrendo, porque ela é impossível. Ela é um mistério de quem ele começa a gostar. Isso, é claro, sem ele dizer para ela que ele está interessado nesse mistério. Sem ele lhe avisar o que está acontecendo (tal como ele tinha feito com a gravidez de Amy) ou fazer a menor menção sobre o fato de que para ele, ela é um mistério e não uma pessoa.

No último episódio da temporada se tem a solução desse mistério. Clara, em um ato para salvar o Doctor, entra na sua linha do tempo de maneira a impedir que ele seja morto em todos os momentos de sua vida por um vilão, A Grande Inteligência. Com isso, ela sacrifica cada segundo, cada minuto e cada dia de sua vida se tornando a garota nascida para salvar o Doctor. Ela está presente em todas as encarnações do Doctor, se tornando, provavelmente, a pessoa mais importante na vida inteira dele. Uma mulher que se dividiu em milhares para poder salvar aquele amigo que precisava. Mas, no final, tudo o que importa é que esse era o destino dela. Afinal, ela foi “criada” para esse papel.

tumblr_ny75e744ho1si297wo1_500

Ela acaba não morrendo, no final, pois o próprio personagem ressurge das cinzas – algo jamais explicado e que não faz o menor sentido – e a salva de lá, como se ele tivesse sido todo o herói da história. O que ele não é. Clara não deveria ter que morrer uma imensidão de vezes para salvar a vida dele e ele não deveria deixar isso acontecer. Ele, acima de tudo, não deveria sair disso o grande herói da história. Clara foi quem fez todo o trabalho! Ela quem o salvou, ela que se sacrificou para que ele vivesse!

Afinal, ela sobrevive e no episódio seguinte nada disso é mais falado, feijoada. Ela não tem nenhum tipo de trauma de ter morrido uma centena de vezes, ela não tem medo de continuar em aventuras com esse homem por quem ela morreu uma centena de vezes. Ela nem pede um tempo. Nada.

Na temporada seguinte, Clara interage com um novo Doctor, uma vez que ele se regenera em um episódio de Natal (um péssimo episódio de Natal) e, por um milagre, as coisas parecem melhorar um pouco para ela. Sua vida começa a criar mais cor, ela se destaca mais e até alguns pontos da sua personalidade são mais explicados. Clara se torna uma pessoa no lugar de ser só um mistério. Ela ainda tem muitos problemas como personagem, principalmente pelo fato dela ter sido usada como uma Manic Pixie Dream Girl (uma personagem que só existe para ajudar personagens homens na sua trajetória sem procurar qualquer tipo de satisfação pessoal) na temporada anterior.

Ela começou a desenvolver uma personalidade e criar uma persona para os escritores datumblr_n10avhqzuw1rlr2dlo7_250 série – o que depende muito de quem a está escrevendo, já que parece que alguns entendem a personagem e outros não fazem a menor ideia de quem ela é, como o próprio showrunner, Steven Moffat. Nessa leva, ela ganha mais liderança e características. Inclusive, um dos melhores episódios da série acontece com Clara praticamente sozinha (Flatline, S08E09). Eu escrevi um pouco sobre a Clara já, aqui no blog, falando de um dos episódios de Natal onde ela aparece, Last Christmas.

Clara Oswald ainda fica mais uma temporada com o Doctor antes dela ter o seu final, que tal como qualquer outra morte no Doctor Who de Steven Moffat é alterada de forma a que ninguém precise sentir o peso de uma tristeza eventual. Ela se torna imortal, pega a sua própria TARDIS e começa as suas próprias viagens – o que eu acharia um spin-off excelente!

Então, agora, chegamos a Bill, que nos foi apresentada tão recentemente e já criou tantas expectativas. Bill, também, que vai ser apresentada em uma temporada que será a última do showrunner, de Steven Moffat, que é tão criticado por essa escrita falha de personagens femininas. Uma amiga minha falou que ela acredita que a personagem não tenha sido escrita pelo Moffat, que ela já seja o novo showrunner colocando as mãos em cima da série, uma vez que ela (e nem eu) acredite que Moffat seja capaz de criar uma personagem que já demonstra tanta personalidade em um vídeo tão pequeno.

Ela sendo, ou não, escrita por ele, Bill já demonstrou muito mais naquele clipe do que algumas das companions de Moffat demonstraram em temporadas inteiras. Ela apresentou um humor, um sarcasmo, uma maneira interessante de ver o que estava acontecendo com ela que, pessoalmente, me deixou intrigada para saber mais sobre a sua personagem. Suas roupas são interessantes, sua persona é interessante, o jeito como ela interage com o Doctor é interessante. Com a expectativa alta e a ideia de que só iremos ter um episódio com ela no ano que vem, só nos basta esperar e não tentar criar muitas barreiras para que a personagem possa se desenvolver plenamente.

Comédias & Eu – Capítulo 3: Jane the Virgin

jane the virgin

Infelizmente, eu demorei muito para começar Jane the Virgin. Não sei dizer se eu estava descrente da capacidade dessa série de ser maravilhosa ou se só não fazia ideia de todo o seu potencial, mas demorei para começar. A primeira temporada já estava completa, Gina Rodriguez já tinha ganhado prêmios pelo seriado e ele já tinha um grande nome. Aí eu cheguei de fininho, sem saber se iria me apaixonar ou não. Apaixonei. Virou crush, virou só o que eu conseguia falar por semanas (meu namorado que sabe) e se tornou um verdadeiro romance mexicano. No caso, o romance sou eu e o seriado.

Pois bem, vamos explicar! A série conta a história de Jane Villanueva (Gina Rodriguez) que tem um namorado perfeito e policial, Michael Cordero Jr. (Brett Dier), e uma família ótima composta pela sua mãe, Xiomara Villanueva (Andrea Navedo) e sua abuela, Alba Villanueva (Ivonne Coll). Ela trabalha em um hotel que é comandado por Rafael Solano (Justin Baldoni), que está noivo de Petra Solano (Yael Grobglas), e é apaixonada pela novela The Passions de Santos, que é estrelada por Rogelio De La Vega (Jamie Camill). Um dia, Jane vai para uma consulta com a sua ginecologista, a doutora Luísa Alver (Yara Martinez), que é irmã de Rafael Solano, e problemas acontecem. Luisa tinha acabado de sair de um término de relacionamento terrível e estava bem desorientada quando foi fazer seu trabalho.

Ela tinha duas consultas naquela manhã: uma inseminação artificial, em Petra, e um papanicolau, em Jane. Luisa trocou tudo e fez a inseminação em Jane e o papanicolau em Petra. Inseminação esta que foi feita com o material genético de Rafael Solano, por quem Jane sempre teve uma crush. Isso só se complica mais vendo o fato de que Jane era virgem (como diz o título da série, lol) e muito católica devota, o que deixa uma verdadeira concepção imaculada acontecendo.

Esse fato coloca todos dessa trama dentro de uma verdadeira novela mexicana (apesar da inspiração da série ser uma telenovela venezuelana) onde a cada episódio temos uma reviravolta incrível cheia de humor e otimismo. Desde que seja uma trama sobre crime internacional (Sin Rostro!), sobre a verdadeira natureza dos homens que cercam a vida de Jane (Michael? Rafael? Michael? Rafael?), sobre mafiosos checos e identidades falsas, ou até sobre quem e o que aconteceu com o pai de Jane. Cada episódio é uma novidade e o humor da série é encantador, pronto para conquistar qualquer um que a assiste. Além de podermos considerar Jane the Virgin uma das séries com mais representações positivas de latinos na televisão americana. A maioria do elenco é de origem latina ou latina-americana e a série aborda diversas tramas de interesse desses grupos, como deportação, herança cultural e até o senso de comunidade local.

A série me conquistou com o seu bom humor e a sua espontaneidade, mas também com um elenco extremamente talentoso e escritores vorazes por novas histórias e novas narrativas. Acho que todo mundo que lê esse blog sabe como eu gosto de novas narrativas, de histórias que saem do padrão. Pois bem, Jane the Virgin certamente sai do padrão em todos os sentidos possíveis. Apesar de ser um romance tradicional, um romance de conto de fadas, a história percorre diversos sentimentos que não costumamos ver dentro de uma história, principalmente em uma guiada por uma mulher. Jane é uma personagem maravilhosa. Ela não é revolucionária, ela quer um grande amor e uma família. Mas, ao mesmo tempo, ela tem sonhos e aspirações, ela tem desejos e anseios reais. Ela quer se tornar escritora, roteirista, mãe, esposa, namorada, fiel, uma boa filha e uma boa amiga. Tudo que se complica diante da trama e das escolhas que ela tem que fazer, sempre ela. Os seus desafios são reais e, apesar de ser uma comédia, muitas vezes não são nada engraçados.

Inclusive, as melhores partes da série vem dessa paixão de Jane pela escrita. Ela, por vezes, inventa cenas na sua cabeça, colocando os outros atores e os personagens em situações que nunca poderiam ser vistas na narrativa real. Ela mistura outros programas de televisão (Bachelorette Jane!), outras histórias, outros gêneros e até versões confusas dos próprios personagens dentro da sua cabeça enquanto tenta resolver os seus dilemas. E a série, por meio de um narrador muito bem humorado (e bastante premiado! Sabia que existem prêmios para narradores em séries?) segue com essa história.

Então, se vocês estavam, como eu, esperando um empurrãozinho para ver Jane the Virgin, esse é o empurrão que queriam!

Comédias & eu – Capítulo 2: Fresh Off The Boat

Essa é oficialmente a primeira vez que eu falo que vou fazer um texto seguindo o mesmo tema e eu realmente o faço. Oba! Ponto para mim. Devo estar amadurecendo. De qualquer maneira, eu tinha planejado continuar falando de comédias e então decidi que iria tentar alternar entre comédias mais antigas – apesar de não tão antigas assim – e algumas mais novas. A primeira dessa segunda categoria que eu queria falar sobre é Fresh Off The Boat, que estreou esse ano mesmo e já está confirmada para a sua segunda temporada.

A série se passa no estado americano da Flórida e nos anos 1990 e conta a história da família Huang. Os pais, Louis e Jessica Huang, nasceram em Taiwan e se mudaram para Washington ainda quando jovens. Eles então se casaram e tiveram três filhos: Eddie Huang (o personagem principal da história), Emery Huang e Evan Huang. O seriado, então, conta a história da vida dessa família depois que eles se mudam de um bairro específico de imigrantes chineses em Washington para uma vizinhança somente de brancos americanos na Flórida. A mudança, motivada pelo desejo de Louis de abrir uma lanchonete é o ponto inicial da trama, mas ela supera muito mais do que esse simples pretexto, além de ser bem importante em uma questão de representação.

Eu falo isso porque Fresh Off The Boat é a primeira série de comédia sitcom americana a estrelar asiáticos-americanos desde All-American Girl, de 1994, que só teve uma temporada. Mas além disso é importante acentuar que a história é de chineses e ela é contada por chineses, o texto principal da série vem da autobiografia do verdadeiro Eddie Huang, que atualmente é um chef de renome e uma personalidade bastante complicada e controversa – que inclusive já anunciou que além de não assistir o seriado não gosta de nada que é apresentado nele. Outra coisa que eu acho interessante é o fato dos atores que representam personagens não-caucasianos realmente não são caucasianos, assim como diversos escritores da série que também fazem parte de minorias étnicas.

A beleza de Fresh Off The Boat é, principalmente, sair dos estereótipos sem deixar de utilizar eles. O seriado se apropria de muitos estereótipos de pessoas asiáticas, especialmente chinesas, mas ao mesmo tempo há diversas quebras dentro desse conceito. Eddie, por exemplo, é apaixonado por rap e hip hop e por toda a cultura negra. Louis, apesar de ter toda a tradição oriental nas suas costas, abre um restaurante de churrasco americano que é quase um Outback. E todas essas coisas, tanto os estereótipos quanto a quebra deles, são feitos como parte da graça dos episódios, parte da piada que a série está te contando.

Mas não é possível falar de Fresh Off The Boat sem falar da personagem que mais brilha na série: Jessica Huang. Interpretada por Constance Wu, Jessica é a chefe da família que começa a temporada desempregada e sem nenhuma amiga na nova cidade. Ela é obcecada por tudo que lhe diz direito, desde a segurança dos seus filhos até os negócios da família. Jessica se torna familiar às mulheres do seu bairro, todas loiras, ricas, brancas e que amam Melrose Place – um reallity show que Jessica (e eu) não consegue compreender de forma alguma. Os momentos mais divertidos da série são dados por Jessica, sendo quando ela não entende nenhum pedaço da cultura tradicional americana (que realmente não faz sentido nenhum) ou quando ela se torna obcecada por alguma temática e isso toma controle completo do grupo familiar.

 

Mas, acima de tudo, Fresh Off The Boat está sempre brincando sobre como a cultura americana (ou a cultura “caucasiana”, já que falamos o tempo todo em cultura asiática sem nos darmos ao trabalho de especificar qual) é tão sem sentido quanto as outras culturas para pessoas de fora. Com a personagem de Jessica, principalmente, a série tenta nos colocar óculos especiais para que possamos ver essa cultura que engolimos tanto como parte da nossa própria com olhos diferentes. Desde uma ida ao mercado até a forma como americanos se vestem e veem televisão é problematizada pela série. Isso sempre sem perder o humor extremamente marcante. Um dos melhores episódios, inclusive, é onde Jessica decide que sua família está perdendo a noção da cultura chinesa e ela se obriga a fazer disso uma parte marcante na vida de todos eles.

Obviamente isso não dá nada certo.

Esse ponto faz Fresh Off The Boat bastante parecida com outro seriado do tipo: Everybody Hates Chris (ou Todo Mundo Odeia o Chris, para quem assistiu muito SBT quando jovem). Os dois seriados tem muitos elementos parecidos – muitos mesmo. O estilo de escrita é um deles, a tentativa de colocar os óculos de estrangeiro ou de alguém que tem uma cultura diferente no espectador comum. Fresh Off The Boat também faz uso dos voice-offs, algo bem marcante em Everybody Hates Chris – que contava a história do Chris Rock durante a sua adolescência. Outro conexão que é possível fazer dentro da série é com a outra comédia de sucesso Fresh Prince of Bell-Air (ou Um Maluco no Pedaço, se você ainda via muito SBT) que era a excelente sitcom do Will Smith onde ele tinha que se mudar para o bairro rico da cidade e começar a viver com a sua atitude gangster no meio da família do seu tio. A série se faz muito de referências desses dois seriados com protagonistas negros para contar a história de uma outra minoria.

Comédias & eu – Capítulo 1: Community

Eu tenho um problema com comédias. O grande problema é que eu sou muito chata para elas. Humor é uma coisa difícil de me pegar pelo cangote e me deixar interessada no que eu estou assistindo, principalmente porque eu sinto que estou vendo sempre a mesma coisa. Parece que tudo dentro de comédia é uma ligeira releitura de Friends, atualmente. Dentro da comédia mainstream da televisão, ao menos. São sempre um grupo de grandes amigos que ou vivem juntos ou vão ao mesmo lugar juntos e as suas vidas são ligadas por uma conexão que faz com que eles fiquem juntos o tempo todo. Além disso, as risadinhas no fundo sempre parecem achar algumas coisas muito engraçadas.

Esse tipo de humor não me pega desde Friends. As 10 temporadas desse seriado já foram o suficiente para mim, saturei completamente. Desse jeito, não consigo gostar de The Big Bang Theory (também por outros motivos além desse, que se resumem no fato de TBBT ser uma bosta) ou de How I Met Your Mother, que são (ou foram) grandes favoritas do público televisivo de comédias. O que me faz gostar de uma comédia é quando ela tem um humor que consegue me atrair e esse humor, geralmente, precisa ter alguma coisa de diferente do mainstream. Não tentando soar como a chata do rolê, mas já soando: Eu não gosto de comédia que faz a mesma coisa que toda comédia sempre fez. Gosto de novidade.

Nisso, eu queria aproveitar esse post para falar de algumas séries de comédia que eu acho incríveis. Gostaria de deixar o aviso desde o começo que o meu objetivo não é dizer o que é bom ou o que é ruim (tirando quando eu falo de TBBT, porque essa série é realmente ruim e eu tive que ver para provar na minha monografia [sim, eu estou escrevendo a minha monografia sobre como TBBT é ruim]). Não estou aqui para apontar para o gosto dos outros e dizer HAHAHHAHAA QUE MERDA DE GOSTO, MANO. De jeito nenhum, eu só quero mostrar o que eu gosto e dar elogios que, as vezes, vão acabar soando um pouco ofensivos a outros seriados (principalmente TBBT).

A primeira comédia apresentada não poderia ser outra além da queridinha do meu coração: Community. A série é o meu bebê e eu tento indicar ela para todo mundo que eu posso, apesar de não ter muito sucesso. Community conta a história de sete estranhos que se juntam em um grupo de estudos para a aula de espanhol que eles tem em uma faculdade comunitária, Greendale Community College. Esses desconhecidos que logo se tornam amigos são Jeff Winger (Joel McHale), Britta Perry (Gillian Jacobs), Abed Nadir (Dany Pudi), Troy Barnes (Donald Glover [também conhecido como o rapper Childish Gambino]), Pierce Hawthorne (Chevy Chase), Shirney Bennett (Yvette Nicole Brown) e Annie Edison (Alison Brie).

Entretanto, a beleza da série não está nessa premissa simples que, assim como citei no meu parágrafo de introdução, parece ser uma releitura (mais uma) de Friends. São sete amigos que estão sempre no mesmo ambiente e que, por isso, estão juntos o tempo todo. Mas a beleza de Community está exatamente na sua capacidade de quebrar esses tropes e os estereótipos dos personagens durante a série. Todo episódio é uma leitura diferente, todo episódio é uma aventura diferente. Community, acima de tudo, é uma série de paródia. O objetivo dela é fazer uma releitura dos diferentes estilos e dos diferentes formados que a televisão nos apresenta. Por isso mesmo que Community captou tanto o meu coração, porque ela consegue me dar sete personagens que eu amo em diversos cenários. Ela faz um esforço no humor metalinguístico e, acima de tudo, em manter as referências em um nível estratosférico.

Community já fez, por exemplo, um episódio inteiro no formato 16-bit, onde os personagens vão para dentro de um videogame (Digital Estate Planning). Depois desse episódio, os próprios fãs criaram um videogame baseado nele, onde você pode jogar com um dos personagens e passar pelas mesmas fases que vemos no episódio. Eu não sei se ele está completo, mas há o link no vídeo citado. Também há episódios baseados em western (A Fistful of Paintballs & For a Few Paintballs More) onde os personagens estão jogando paintball na escola (pela segunda vez, Modern Warfare). Outros episódios famosos de Community são o de Dungeons & Dragons (Advanced Dungeons & Dragons); o musical (Regional Holiday Music) que inclusive aproveita bastante o fato deles terem um rapper de verdade no elenco; o episódio de documentário de guerra sobre uma luta entre travesseiros e lençóis (Pillows and Blankets). Também há episódios de máfia, documentário, procedural, tem um episódio inteiro baseado no estilo do David Fincher, um episódio onde há diferentes universos alternativos, episódios de animação, episódios de mupets, etc.

A série gosta de brincar com esses clichês e com a metalinguagem, eles gostam de fazer esse diálogo entre os vários tipos de diálogos dentro da televisão e vários tipos de estilos. E isso é incrível para uma série de vinte minutos da NBC – que atualmente está no streaming do Yahoo e com um cast de personagens principais diferentes do citado. A série passou por várias dificuldades, principalmente por ser uma série difícil para o público geral. Como ela muitas vezes fala uma linguagem diferente do que o esperado para esse tipo de seriado, então o público em geral não gosta. Community sofreu por muito tempo com as audiências baixas, enquanto passava na NBC.

O showrunner da série chegou a ser demitido por uma temporada – a quarta temporada – que depois que ele voltou – na quinta temporada – começou a ser referida pelos personagens como “the gasleak year” (o ano do vazamento de gás). Isso é uma brincadeira com a própria série. Na quarta temporada os personagens estavam tão fora das suas personalidades padrões que eles pareciam outras pessoas. Então quando a série volta para a sua quinta temporada, os personagens brincam que eles estavam todos afetados por um vazamento de gás.

A capacidade de Community de brincar com os gêneros, brincar com os seus personagens, brincar com toda a sua própria história e com a própria história da televisão é o que faz ela ser divertida para mim. Os seus personagens tem grande parte nisso, claro. Mas o jeito como Community trata a televisão, a reverência que há em ver a televisão não como um clichê atrás do outro, mas como algo que faz com que eles tenham que inovar episódio atrás de episódio é o que faz esse seriado ser não só importante como vital para a história da comédia na televisão. É um seriado que não só me agrada como me deixar orgulhosa de assistir e de ser parte de um fandom, os Human Beings, que a mantém passando até hoje.